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PAUTA DOS LEITORES #12: Projekt Revolution

Pauta dos Leitores

Vocês pediram, o Fake Your Death entrega: na Pauta dos Leitores deste mês de Março, vamos falar sobre o icônico e inesquecível Projekt Revolution.

Texto por: Malena Wilbert
Revisão por: Gabriela Reis

O ano era 2002, ainda o prelúdio da década de 2000 e da virada do milênio. O mundo, como um todo, passava por uma série de transformações. Era o início da informatização massiva – com mais e mais pessoas tendo acesso à internet, além de mudanças econômicas e sociais, como a criação da Corte Penal Internacional (responsável por julgar casos de genocídio, crimes contra a humanidade e crimes de guerra). O globo estava girando e, é claro, a música, como expressão viva do seu tempo, também reagiu.

O Emo, como movimento musical e social desabrochava, ao mesmo tempo em que diversas questões como gênero, sexo e saúde mental e meio ambiente estavam em pauta. Como já falamos por aqui, música, cultura e sociedade são coisas indissociáveis, e a virada do milênio não foi exceção. Foi quando diversos artistas hoje consagrados iniciaram suas carreiras, ou deram os primeiros grandes passos. 

No meio disso tudo, uma ideia, um espaço para a expressão desses artistas: Projekt Revolution. 

2002 foi o ano que o festival teve seu início, do qual perdurou até 2011 e passou pela América do Norte e pela Europa. Ao todo, são sete anos não consecutivos de shows que serviram para alavancar estrelas e dar visibilidade a muitas bandas menores. 

Além de tudo isso, Projekt Revolution é um marco histórico para a música e para a internet: como já falamos por aqui no especial sobre a participação do MCR, no dia 22 de agosto de 2007 os shows foram transmitidos ao vivo para usuários do MySpace, isso em uma época que a informatização da forma como conhecemos hoje ainda engatinhava. Agora, é impossível falar do Projekt Revolution sem citar um nome: Linkin Park, que foram os homens por trás da ideia. 

Eles mesmos estavam experimentando o começo da fama massiva: foi apenas quatro anos antes, em 1999, que o inesquecível Chester Bennington (1976 -2017) entrou para a banda de Agoura Hills, Califórnia, que anteriormente se chamava “Xero”e contava com Mark Wakefield dividindo os vocais com Mike Shinoda. 

Depois da entrada de Chester, o Linkin Park fez sucesso estrondoso com o disco de estréia da nova formação, o Hybrid Theory, lançado em 2000, que ficou em segundo lugar na parada norte americana. Foi a época de hits como “In the End” e “Crawling”, hinos que atravessaram gerações e até hoje fazem sucesso.

https://www.youtube.com/watch?v=Gd9OhYroLN0

Os vocais angustiados de Chester combinavam perfeitamente com o rap de Shinoda. Juntos eles fizeram uma mistura de rap, metal e música eletrônica, que entrava no quadrante do NuMetal. Inclusive, o Linkin Park foi um dos responsáveis por popularizar o NuMetal, metal alternativo que mescla hip-hop e música industrial nas suas batidas. Outras bandas que aproveitam a mistura são Korn, Faith No More, Red Hot Chili Peppers, Alice in Chains, Rage Against the Machine, Pantera, Fear Factory, e nosso brasileiro, Sepultura. Todas bandas que não tem medo de trazer diversos elementos para suas produções. A natureza intrínseca do Linkin Park explica muito o line up do Projekt Revolution, palco de bandas que também estavam interessadas em mesclar gêneros e criar batidas únicas. 

Em entrevista para o jornalista Christian Hoard para a Rolling Stone estadunidense, Mark Shinoda explicou que os integrantes do Linkin Park se dividiram para assumir as demandas do festival: “Nós lideramos diferentes comitês. Chester e Rob Bourdon (baterista) estão no comitê de turnê. Eu imprimo arte, mercadoria e o visual que você vê na turnê. Dave Phoenix (baixista) lida com patrocínio e coisas assim”

 

Na época, Chester Bennington adicionou uma dimensão ao trabalho que foi necessário para organizar algo com a grandeza do Projekt Revolution: “Leva cerca de um ano para montar um desses shows. Eu sento e monto uma lista de desejos de bandas e fazemos todo tipo de pesquisa sobre elas: qual é a média de seus shows, sua atração, que tipo de peça de rádio eles recebem, que tipo de história eles têm, e quanto o show deles custa,  para que possamos colocá-los com precisão na conta.”

Mas, eles fizeram: em 25 de junho de 2002 aconteceu a primeira edição do festival, com a banda promovendo ainda o Hybrid Theory e se preparando para lançar seu segundo disco, “Meteora”

https://www.youtube.com/watch?v=omYIcaujQkg

Essa edição foi a mais tímida, contando com apenas outras três bandas além deles: Cypress Hill, um grupo de hip-hop também da Califórnia, Adema, de rock alternativo que também mesclava metal com pós grunge e o DJ Z-Trip, um dos pioneiros do mashup, ou “pop bastardo”, uma mistura de duas ou mais músicas pré-gravadas, normalmente sobrepondo as faixas. 

No total, o festival teve 19 shows em diferentes cidades dos Estados Unidos, de 29 de janeiro até 24 de fevereiro. Muitos shows foram feitos em dias consecutivos, exigindo muita força de todos os participantes para aguentar o ritmo apertado da turnê.

No ano seguinte, em 2003, foram 16 noites, de 29 de abril a 30 de julho. Desta vez, quem dividia os palcos com os fundadores do Projekt Revolution era o Mudvayne, banda de heavy metal de Illinois, o rapper Xzibit, o grupo sueco de rock Blindside, do sul de Estocolmo. No final da turnê, em julho, Cold, da Flórida, e o grupo de pós-grunge Revis, participaram dos últimos dois shows. 

Incansáveis, em 2004 o projeto ficou mais robusto: dessa vez eram 13 artistas de diferentes estilos, de Korn a Snoop Dogg. Também foi quando o Emo começou a marcar presença com o ilustre The Used e Funeral for a Friend. 

https://www.youtube.com/watch?v=IRf_2C1c-g4

Nesta terceira edição o número de shows dobrou, foram 32 noites, muitas também consecutivas. Era uma nova configuração, com um palco principal (que nessa edição foi encabeçado por Linkin Park, Korn, Snoop Dogg, The Used e Less than Jake) e o secundário, o Palco Revolution, destinado a abrir espaço para bandas menos conhecidas como Ghostface Killah, Funeral for a Friend, Downset, M.O.P., Mike V. and The Rats, Instruction, No Warning e Autopilot Off.

Após um hiatus de dois anos, o Projekt Revolution voltou com força total em 2007, na edição mais conhecida dos leitores do Fake Your Death Brasil, quando o My Chemical Romance participou no palco principal com os sucessos do The Black Parade (2006) e Three Cheers for Sweet Revenge (2004).

https://www.youtube.com/watch?v=5U1euetopoE 

Aqui as coisas subiram de nível em diferentes sentidos:  embora tenha tido  um número menor de artistas do que da edição de 2004 (dez) o festival fechou em  32 noites em ritmo intenso. Desta vez, além dos Estados Unidos, houve um show em Toronto, no Canadá, em 21 de agosto.  No palco principal, além do Linkin Park (com o recém lançado “Minutes to Midnight”) e do My Chemical Romance, estava o icônico Placebo, HIM, Taking Back Sunday e Julien-K, uma banda americana de rock eletrônico.

https://www.youtube.com/watch?v=J7deu4snM94

Parece ter sido uma edição particularmente divertida e amigável de acordo com uma entrevista de  Mike e Chester: “Os caras do Placebo são algumas das pessoas mais legais. Eles tinham essa coisa, como eu saí um dia do ônibus, e na frente havia uma pequena barraca, e na frente dela tinha sido pintado com spray “Placebo Gazebo” […] Por sua vez, o My Chemical Romance foram os reis do grill nesta turnê. Todas as noites, todas as noites sem falhas, depois que eles tocavam, eles acendiam as churrasqueiras para todo mundo da turnê. Tipo, parecia que qualquer um podia ir, eles tinham suprimentos infinitos de salsichas e hambúrgueres e cachorros-quentes e frango.”

FOTO 06 – Gerard com Chester durante a turnê de 2007 

É indiscutível que o palco do Projekt Revolution foi um marco gigantesco na carreira do MCR, com vários momentos que até hoje são lembrados pelos fãs. Entre eles, como curiosidade, Frank Iero (o mesmo guitarrista que já tocou com uma máscara de oxigênio devido a problemas respiratórios) arremessou sua guitarra e cortou sua mão. Iero não  parou para enfaixar a ferida. Em vez disso, espalhou seu sangue na bochecha de Gerard Way, que não limpou o rosto por um período de cinco músicas. No palco Revolution, marcaram presença Saosin; The Bled;  Mindless Self Indulgence; Styles of Beyond; Madina Lake e Art of Chaos.

https://www.youtube.com/watch?v=ItCr6i848Ks

Além de aumentar o nível de profissionalismo, agora com a experiência de outras três turnês acumuladas, e alcançar outro país, o Linkin Park inovou incluindo um  selo de sustentabilidade, doando 1 dólar de cada ingresso vendido para a ONG American Forests. Outra ação em prol do meio ambiente foi que a maioria dos ônibus usados na turnê utilizavam biodiesel como combustível, diminuindo a emissão de carbono, além de estandes para os participantes que falavam sobre o efeito estufa. Vale comentar que em  2007 também aconteceu a Quarta Conferência Internacional sobre Educação Ambiental, movimento que discutiu, entre outros assuntos, o eminente problema do aquecimento global. 

Não foi a única e nem primeira vez que o Linkin Park demonstrou preocupação com a saúde do planeta. Antes de implementar a sustentabilidade no Projekt Revolution a banda fundou o “Music For Relief”  uma organização de caridade motivada após o desastre de Fukushima, no Japão, uma catástrofe causada por um tsunami que culminou um terrível acidente nuclear.

https://www.youtube.com/watch?v=2iokBQ5j8ko

Para a MTV,  o baixista do Linkin Park, Dave Farrell, explicou: “Começamos o Music for Relief naquela época como uma maneira de chegar a áreas afetadas por desastres naturais, contornar as questões políticas e fazer parceria com organizações que estão ajudando as pessoas. Com o efeito das mudanças climáticas e a magnitude dos desastres naturais, parecia a coisa certa a fazer”

Voltando à nossa pauta, em 2008, o Projekt Revolution ficou ainda mais abrangente e ambicioso, incluindo shows na Europa, em Düsseldorf, Waldbühne, Munique e Berlim (Alemanha) e em Milton Keynes (Reino Unido). Além disso, outros 24 shows na América do Norte, tudo isso em um período de poucos meses, com, mais uma vez, diversos shows consecutivos. A energia parecia inesgotável. O jornalista Ben Werner, do Portal The Orange Country Register, não deixou isso passar despercebido e, em uma entrevista, comentou com Chester que poucas bandas poderiam fazer o que eles estavam fazendo. 

“Nós poderíamos facilmente ter saído e feito uma turnê de arena e tocado com outra banda” ele respondeu “Mas quando estávamos crescendo, tivemos o Lollapalooza, tivemos o Ozzfest – e isso simplesmente não está mais acontecendo, com exceção deste ano, onde todo mundo está fazendo uma turnê de festivais ao ar livre de verão. Para nós, o Projekt Revolution é o único lugar diversificado o suficiente, e isso traz uma sensação muito legal. Essa tem sido a nossa vibe o tempo todo – nós queremos trazer muitos estilos diferentes de música juntos, e dar às pessoas um show muito bom”. Na mesma entrevista, o vocalista comentou sobre o desafio de fazer turnês com bandas de estilos diferentes: “Inevitavelmente existem algumas bandas que não se misturam tão bem. Mas é muito raro quando isso acontece. Gastamos muito tempo e energia escolhendo a banda certa. Até agora tivemos muita sorte”.

https://www.youtube.com/watch?v=25cPYMQGpG4

Nesta edição, o palco principal teve a presença de Jay-z, que fez uma participação especial no show do Linkin Park, além de The Used, e de Chris Cornell (1964 – 2017), vocalista do Soundgarden e amigo íntimo de Chester, além de Armor for Sleep, uma banda Emo/Pop Punk de Nova Jersey, além de Atreyu, 10 Years, Hawthorne Heights, no Palco Revolution.

Em uma entrevista para o jornalista Steve Bauten, da Rolling Stone, Chestar comentou que o Projekt Revolution era muito diferente de uma turnê normal: “estar em turnê às vezes pode ser menos complicado do que estar em casa porque seu dia é regulamentado [em um turnê convencional] Você acorda de manhã, aquece, faz uma passagem de som, toca seu show, dorme ou entra no ônibus – todo dia é assim. Tem alguém colocando uma folha de papel embaixo da sua porta dizendo a que horas você vai fazer o quê. Mas uma turnê de festival como essa é muito diferente. É muito menos previsível e muitas coisas diferentes podem acontecer”. 

Mas, mesmo assim, para ele valia a pena: “O que eu gosto em fazer um festival de turnês, especialmente o Projekt Rev, é o fato de que essas são bandas que eu posso ficar muito animado, já que sou parte da razão pela qual eles estão lá. Para mim, o último Projekt Revolution foi provavelmente a melhor experiência de turnê que já tive”.

O amigo Chris Cornell, que estava na mesma entrevista, complementou Chester falando sobre seu amor pelos palcos: “energia e entusiasmo, essas são as coisas de que estou falando. Estar na frente de milhares de pessoas e se apresentar da maneira que for, seja em uma banda de rock ou em um quarteto de cordas, é uma coisa intensa de se fazer. Assim que eu vejo, é como se eu o absorvesse imediatamente”. 

Três anos depois, aconteceu a turnê de encerramento do Projekt Revolution. Em 2011. Foi o mais curto de todos, com apenas três atrações no palco principal e quatro shows na Europa com participações especiais:  6 de junho de 2011 no Kaisaniemi Park , (Helsinque, Finlândia) com a participação de Die Antwoord; 18 de junho de 2011 na Fest Wien, (Leipzig , Alemanha) com Guano Apes e Anberlin, outro nome importante para a cena Emo/Pop punk; 19 de junho de 2011 –  Hessentag Arena, (Oberursel, Alemanha) com Anberlin e novamente Die Antwoord; e, por fim, o show que encerrou o Projekt Revolution em 25 de junho de 2011 no München Riem em Munique (Alemanha) com Guano Apes e Anberlin

Esse foi o fim do Projekt Revolution, dez anos após sua primeira edição. Um festival que uniu diferentes gêneros, abriu espaço para novos artistas e alcançou diversas cidades de dois continentes. Ao todo, foram intensas 130 noites de shows. Como curiosidade, o Lollapalooza foi uma das inspirações do Linkin Park para criar o PR:

“E voltando ao Lollapalooza, havia Ice Cube, Ministry e Soundgarden. Era tipo, “O que está acontecendo agora porque isso normalmente não acontece?” E isso meio que me inspirou e acho que inspirou todos os caras da minha banda porque estávamos tipo, “Como podemos pegar todas essas coisas e colocar em uma coisa só? E como podemos pegar toda a nossa inspiração e toda a nossa paixão por todas essas outras bandas e trazer isso em uma turnê?” 

Bem, com certeza deu certo. E depois de mais de uma década do seu encerramento, o Projekt Revolution ainda é lembrado pelos fãs de diversas bandas como um dos festivais mais icônicos que já aconteceu. Não é à toa que foi a pauta escolhida pelos nossos leitores nesse mês.

Eu fico por aqui, desejando que vocês tenham gostado, e que estejam bem.

Give Em Hell, Kid.

Beijos, MW.

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