Sua fonte oficial de notícias do My Chemical Romance no Brasil reconhecida pela Warner Music BR. Nos acompanhe nas redes sociais e fique ligado nas novidades da banda.

ESPECIAL DANGER DAYS #3: A influência da ficção científica dos anos 70 e 80 na temática e estética da era Danger Days

Matérias

Seguindo com nosso Especial Danger Days, hoje trazemos uma matéria sobre as influências da ficção científica dos anos 70 e 80 no conceito do quarto disco do My Chemical Romance, em comemoração aos 11 anos de lançamento.

Texto por: Amanda Bittencourt
Edição por: Gabriela Reis

Califórnia, 2019. O futuro que aparece diante de nossos olhos está muito longe do idílio. A realidade é crua, a humanidade foi engolida por seus excessos e tudo o que resta é poeira e capitalismo desenfreado. É difícil manter a sanidade neste cenário hostil, onde não há espaço para a arte, a criatividade ou qualquer outro fruto daquilo que não é possível quantificar, programar ou controlar. Quem se arrisca a questionar o status quo, pode se preparar para sentir a força punitiva daqueles que estão no controle. O que significa ser “humano” nessa realidade? O que nos diferencia das máquinas? Será que somos melhores do que um dia fomos, será que mantemos uma essência pura e irreplicável? Há lugar para a esperança de tempos melhores?

Esses questionamentos, como bem sabemos, são levantados ao longo da história e do conceito por trás do quarto disco do My Chemical Romance, Danger days: the true lives of the Fabulous Killjoys. Que o objetivo da banda sempre foi, desde o início, usar a arte em todas suas vertentes como ferramenta para despertar e/ou aguçar nosso sentido mais crítico em relação à sociedade que vivemos, não é novidade. Com Danger Days esse comprometimento foi mantido, apesar das mudanças estéticas e sonoras apresentadas. E quando falamos da “arte em todas suas vertentes”, não nos referimos unicamente ao fruto da grande criatividade que a banda cultiva conjuntamente; nos referimos, também, ao universo de referências que gravitam ao redor dos conceitos de suas eras e discos. No caso do Danger Days, essas referências são bastante claras: estamos falando da ficção científica, especialmente dos anos 70 e 80 do século XX.

E não é uma mera conclusão nossa. O próprio Gerard falou sobre isso quando perguntado sobre suas inspirações para desenvolver todos os elementos que formam parte do futuro distópico apresentado no disco.

Vamos conhecer um pouco de algumas dessas influências e entender a importância que tiveram na construção do conceito do Danger Days?

A ficção científica dos anos 70 e 80:

O primeiro parágrafo desse texto poderia perfeitamente ser uma referência tanto ao Danger Days como ao filme Blade Runner, um clássico de 1982 que mistura o gênero noir e a ficção científica. A primeira coisa que devemos saber sobre esse filme é que ele está baseado no livro “Será que os Androides Sonham com Ovelhas Elétricas?” do escritor estadunidense Philip K. Dick, publicado em 1968. Trata-se de um livro “filho de sua época” que emanou da mente de Dick num momento especialmente conturbado da nossa história: a Guerra do Vietnã; o autor afirmou que nesse momento ele pensou que “nós tínhamos nos tornado tão maus quanto o inimigo”.

A questão das ambiguidades morais entre o ser humano e o ser artificial (o ser que criamos “à nossa imagem e semelhança” mas que acaba tendo mais “humanidade” que nós) é um continuum na obra de Dick, algo que outrora havia sido abordado por Aldous Huxley quase quarenta anos antes em um dos mais famosos livros distópicos da história da literatura ocidental: Admirável Mundo Novo (quem já foi/é fã de Pitty deve saber bem do que se trata!). Inclusive, em Admirável Mundo Novo a população é controlada pela droga “soma”, cujo objetivo é provocar a ilusão de felicidade nos cidadãos e, assim, conseguir mantê-los dóceis o suficiente para não se rebelarem contra o poder estabelecido. Isso soa familiar, não acham? Afinal, em Battery City as emoções dos habitantes também são controladas através da ingesta de pílulas.

Pôster do filme Blade Runner

 

Intitulado Blade Runner, O Caçador de Androides em sua tradução ao português, o filme dirigido pelo britânico Ridley Scott está ambientado em Los Angeles, Califórnia, no ano de 2019, uma cidade onde a noite é eterna. Nela vemos os efeitos da globalização e da modernização exacerbadas plasmados nos arranha-céus colossais, nos bairros asiáticos, nas luzes de neon, nos cartazes publicitários, nos carros voadores e na chuva ácida, consequência da mudança climática.

A empresa Tyrell Corporation possui um verdadeiro monopólio na cidade, concentrando a produção de “replicantes”, androides criados por engenharia genética para realizar todo tipo de tarefas que satisfaçam os seres humanos (são escravos, basicamente): trabalhos que exijam força bruta, trabalhos sexuais, entre outras atividades degradantes. Porém, alguns desses replicantes do perigoso modelo Nexus-6 (androides com memórias artificiais implantadas em seu cérebro para que pensem que têm uma vida e uma história “normais”) escapam do controle de seus “donos” e Deckard, um caçador de androides, é contratado para eliminar os dissidentes. Ao longo do filme percebemos que a fuga dos replicantes é motivada por uma busca desesperada por mais tempo de vida, depois de perceberem que os quatro anos para os que foram programados estão se esgotando.

Blade Runner, assim como os quadrinhos Métal Hurlant (1974-1987) e The Long Tomorrow (1975), o filme The Terminator (1984), o mangá Akira (1982-1990) –que, por sinal, é um dos favoritos de Gerard– e o livro Neuromancer (1984) foram peças chave na criação do que chamamos “Cyberpunk”, um subgênero da ficção científica. Podemos dizer tranquilamente que o Danger Days se enquadra nesse subgênero; estamos falando de futuros distópicos onde as macro corporações centralizam a economia, trazendo miséria, controlando e alienando os habitantes das metrópoles hiper tecnológicas. A presença de forças subversivas e imprevisíveis é um elemento principal das obras do estilo cyberpunk. No caso do Danger Days, essa força se materializa nos killjoys, rebeldes que habitam o deserto de Battery City (cuja estética também está baseada no filme Mad Max, de 1979) e lutam contra a gigante Better Living Industries.

Voltando a Blade Runner, sua influência no Danger Days não se limita à elementos estéticos ou narrativos. Um dos aspectos mais interessantes e relevantes do filme é sua trilha sonora, obra do compositor grego Vangelis. No filme, os sons da cidade futurista se misturam com a música que acompanha as cenas, até tal ponto que em alguns momentos é impossível distinguir o que ocorre dentro do filme, no plano acústico, daquilo que forma parte da trilha sonora. E vocês podem se perguntar “ok, o que isso tem a ver com o Danger Days?”.

Convido vocês a escutarem a trilha sonora do filme e a introdução de Bulletproof Heart. Conseguirão compreender a semelhança, especialmente no uso do sintetizador para emular os sons “futuristas”.

 

Outra das influências que podemos ver no Danger Days é a de Laranja Mecânica. Laranja Mecânica é um livro publicado em 1962 pelo escritor britânico Anthony Burgess. O livro narra a história do sociopata Alex DeLarge e de sua gangue, os quais, depois de consumirem “leite com”, um leite misturado com drogas,  saem para praticar a ultraviolência, ou seja, a violência extrema e desapiedada. O livro ganhou ampla popularidade, especialmente depois da história ter sido adaptada ao cinema pelo diretor Stanley Kubrick em 1971. Porém, a relação de Burgess com a adaptação de Kubrick não foi das melhores; na realidade, o escritor começou a ficar preocupado com a recepção de sua história e da possível visão de Alex como um tipo de herói subversivo, e não como o anti-herói sociopata que verdadeiramente era.

 

Pôster do filme “Laranja Mecânica”

 

 

Em uma entrevista à Paste Magazine, Gerard menciona a influência de Laranja Mecânica na criação dos personagens Ultra-Vs que aparecem nos quadrinhos. Os Ultra-Vs eram uma gangue paranoica e irascível admiradora dos Killjoys originais cujo líder, Val Velocity, assim como Alex DeLarge, era perigosamente imprevisível:

“Eu acho que vi isso [Laranja Mecânica] quando ainda era muito jovem. Eu tinha amigos muito legais quando era criança, encontrávamos músicas e filmes legais mostrávamos um para o outro. Meu amigo Dennis tinha uma cópia de Laranja Mecânica e ele já tinha visto uma vez, e ele disse ‘precisamos assistir isso’. Eu estava dormindo em sua casa – e acho que tínhamos literalmente 15 anos – e assistimos. Lembro que minha primeira reação a esse filme foi muito semelhante à minha reação a Taxi Driver ou minha primeira reação a Watchmen, onde você imediatamente gravita em torno de Rorschach em Watchmen ou Alex de Clockwork. E então você começa a envelhecer e percebe que o personagem não era um herói; eles são pessoas realmente más que não fizeram nada heroico.

Quando você é exposto a isso enquanto ainda é muito jovem, você interpreta mal as coisas. Às vezes, você literalmente só fica na superfície e vê qualquer ação forte que é feita com convicção como a ação certa, e você começa a perceber mais tarde na vida que só porque você sentiu algo forte sobre isso, não significa que foi a coisa certa a fazer. E esse é um dos meus sentimentos que tentei injetar em The Killjoys, especialmente com os personagens de The Ultra-Vs. (Shaun e eu dissemos) ‘vamos literalmente fazer esses personagens de 15 anos assistindo A Clockwork Orange, e extraindo toda a merda errada disso.”

Os Ultra V’s

 

E as influências da era Danger Days em outras obras?

 A partir daqui, vamos falar de conjeturas. Não há nada comprovado, já que nada foi dito explicitamente sobre o assunto. Porém, temos liberdade para teorizar um pouco, não acham?

Pois bem. Muitos com certeza devem conhecer o jogo Cyberpunk 2077, uma obra prima (apesar dos problemas enfrentados em seu lançamento) do estúdio polonês CD Projekt Red, que foi lançado em dezembro de 2020.

Futuro distópico, macro corporação que tem o controle da cidade, outsiders que tentam desafiar as regras estabelecidas…ou seja, todos os ingredientes necessários para a criação de uma boa obra cyberpunk. O jogador pode escolher como quer começar o jogo: como streetkid (membro de uma gangue e conhecedor da violência das ruas de Night City) ,  nomad (morador das Badlands, deserto que rodeia Night City) ou corpo (trabalhador da macro empresa Arasaka). Quem já leu a HQ Killjoys já deve ter entendido aonde queremos chegar. Os quadrinhos narram três histórias paralelas: da Garota (que, como sabemos, mora no deserto de Battery City), de Korse (exterminador contratado pela BL. Industries), da Red e da Blue (robôs sexaroids que vivem um romance proibido nas entranhas de Night City e querem fugir juntas). Será que rolou uma inspiração aí?

E falando nas robôs Red e Blue, no jogo Detroit Become Human, lançado pelo estúdio francês Quantic Dream em 2018, uma das histórias paralelas ao arco argumental principal do jogo (mais especificamente a narrada no capítulo intitulado “The Eden Club”), gira ao redor da história de amor proibida entre duas androides que foram criadas para satisfazer os prazeres dos homens. Traci, de cabelo azul, e Traci, de cabelo castanho, desafiam o sistema que as mantém reclusas para poder viver seu amor de uma forma livre, escapando das garras daqueles que as exploram.

As robôs Red e Blue

 

As Tracis

 

A história é basicamente idêntica à das androides Red e Blue da HQ Killjoys. Não duvido que possa haver uma inspiração aí. E aí, o que acharam de conhecer um pouco mais sobre as influências do Danger Days? Já sabiam sobre o assunto? Contem pra gente!

look alive, soldiers.
xx
AB.

Deixe uma resposta

Continue lendo

Menu
%d blogueiros gostam disto: