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FAIXA A FAIXA Bullets: a gênese do My Chemical Romance

Resenha

Em julho, o CD de estreia da banda completou 19 anos. Para comemorar,  preparamos um especial sobre a gravação que está intrinsecamente ligada à formação da banda, com direito a comentários faixa a faixa.

Texto por: Malena Wilbert
Edição por: Amanda Bittencourt e Gabriela Reis

Caótico. Visceral. Abrasivo e exigente, mas ainda assim com um pouco de ternura. Entre muitas outras coisas, essas são algumas que podem descrever o disco de estréia do My Chemical Romance:  I Brought You My Bullets, You Brought Me Your Love.

Lançado em 23 de julho de 2002, o aniversário de 19 anos não é só do CD, mas também da própria banda. O Bullets, como é carinhosamente apelidado pelos fãs, começou a ser gravado quando o My Chemical Romance ainda estava engatinhando, apenas três meses após sua formação. De certa forma, não é necessariamente só o primeiro disco da banda, mas sim um registro sonoro da sua própria gênese. Foi no estúdio, gravando os 41 minutos estridentes e angustiados, que eles apararam as pontas e se aperfeiçoaram como grupo. Por esse motivo, é impossível falar do disco sem falar sobre o prelúdio do My Chemical Romance. 

Voltamos ao fatídico 11 de setembro de 2001. Um dos dias mais emblemáticos da história recente está intimamente ligado à formação da banda e ao processo criativo do Bullets. Gerard Way, então quadrinista no Cartoon Network, estava indo pegar um trem quando presenciou o ataque ao World Trade Center em Nova Iorque. Em uma entrevista exclusiva para o jornal Taipei Times (traduzida pelo FYDBR), Way contou que não chegou a ver os aviões, mas  sim as torres caindo, e sentiu de perto o desespero da população: “ […] Era como estar em um filme de ficção científica ou algum tipo de filme de catástrofe”.

Presenciar um evento tão grandiosamente traumático, é claro, pode desencadear uma reação emocional intensa. No caso de Gerard, especificamente, sua mente respondeu ao trauma com a realização de que sua vida, no momento, não estava fazendo sentido:“[…] Isso não significa nada. Isso tudo é lixo. Tudo isso é uma merda [sobre seu trabalho na época]. Eu preciso fazer algo que realmente signifique algo, ou minha vida não significará nada”. Ele fez. Foi para casa e escreveu Skylines and Turnstiles”, primeira música do que viria a se tornar uma das maiores bandas da década de 2000 (que, por coincidência, começou a tocar no exato instante que sua  redatora escreveu essa linha). 

“Tornou-se a minha terapia de transtorno de estresse pós-traumático que todos haviam experimentado desde o 11 de setembro e o processamento disso […] eu peguei o violão novamente e escrevi Skylines And Turnstiles. Então liguei para Matt (Pelissier, primeiro baterista) e depois para Ray. Pegamos Mikey e começamos a desenvolver esse momento”, contou à Rock Garage. Esse já seria um pano de fundo suficientemente dramático para explicar a atmosfera angustiada e urgente que acompanhou a banda, mas, para sermos justos, o 11 de setembro foi  o estrondoso estopim de uma série de inquietações.

Existiam outras perturbações por trás da necessidade de criar algo expressivo e significativo: globalmente, o mundo vivia a tensão da primeira Guerra do Afeganistão. Os Estados Unidos estavam sob o governo do republicano George Bush, deliberadamente apoiador de posturas bélicas.  Localmente, Gerard e os outros integrantes passavam pelo desafio de serem jovens adultos e terem crescido em um ambiente hostil e violento. Pessoalmente, existiam problemas com o abuso de substâncias, depressão e insatisfação. O zeitgeist da época, somado às subjetividades de todos eles, é um bom ponto de partida para entender o  I Brought You My Bullets, You Brought Me Your Love. 

A gênese do My Chemical Romance

Janeiro de 2002: Gerard, Mikey, Matt e Ray estão em um estúdio da gravadora independente Eyeball Records. Com a produção de Geoff Rickly (também vocalista da banda Thursday), O My Chemical Romance estava criando seu primogénito, como também a si mesmo como banda. Com menos de seis meses desde a sua fundação, o embrião do MCR era enérgico, tinha urgência e potência. Tudo isso da forma mais…caótica possível, como se pode perceber nos demos da época:

“Gerard tinha um bilhão de ótimas ideias e ele estava muito animado com tudo isso, Mikey tinha uma ótima coleção de discos, mas não tinha ideia de como tocar baixo. Ray era o tipo de cara que você encontraria trabalhando em uma loja de guitarras – uma daquelas pessoas que seria um pouco difícil de lidar porque seria um músico muito melhor do que qualquer outra pessoa. Matt Pelissier era um bagunceiro” Geoff conta no documentário “Life on the Murder Scene” (2006) Mas a questão é que eles tinham ótimas ideias […]. No segundo em que comecei a gravar os vocais de Gerard, me virei para seu irmão mais novo e disse: ‘Se você continuar com isso, você será a maior banda do mundo’. Eu sabia pelo Gerard que eles eram uma banda que teria  impacto. Havia um nível de humanidade ali que significava que as pessoas seriam capazes de se relacionar com ele. Fiquei surpreso com isso, porque nunca tinha visto isso em uma pessoa antes.”

Pelas falas de Geoff, fica nítido que existia uma chama intensa de talento e potência vibrante, mas ainda faltava que isso se organizasse, e no documentário alguma parte disso é explicada de forma plausível. Uma das questões era a própria ambição do My Chemical Romance em suas composições. As músicas do Bullets foram compostas com “toneladas de diferentes partes de guitarra”. Quando o produtor perguntou a Ray Toro o que ele faria para reproduzir aquilo ao vivo, ele apenas deu de ombros e disse: ‘Vou escolher entre as partes importantes e as não tão importantes’. Porém, Geoff Rickly tinha um ponto: todas as partes eram importantes, eram o que tornava o MCR único. Faltava algo, faltava um segundo guitarrista. 

Por sorte, existia alguém nos arredores que ficaria feliz em assumir esse cargo. Frank Iero, o autodeclarado “primeiro grande fã do My Chemical Romance” e então vocalista da finada Pencey Prep, estava no estúdio, assistindo as gravações e foi convidado para se juntar ao grupo. Devido a sua entrada tardia, Frank só colaborou com duas faixas do Bullets. Mas, como sabemos hoje, ele seria uma peça chave para reproduzir os arranjos de guitarra ao lado de Ray Toro, e fazer história com o MCR. Atualmente, é difícil imaginar a trajetória da banda sem ele. 

Entender esse pano de fundo esclarece muito sobre o sentimento de urgência presente em toda a gravação. Mesmo nos seus momentos tenros , o som do Bullets é, em geral, exigente e caótico, desesperado e enérgico. Mas, ao que parece, pelas declarações da banda em Life on the Murder Scene, todos estavam devidamente conscientes desse arranjo peculiar:  “Não sei se estávamos realmente prontos para isso, mas estávamos prontos para uma turnê, então era isso que importava e estávamos prontos para realmente enfrentar o mundo”, confessou Gerard Way. 

Prontos ou não, seis meses depois de entrar no estúdio, em julho de 2002,   I Brought You My Bullets, You Brought Me Your Love estava feito. O prelúdio de uma da banda que foi o expoente da sua cena. Fazendo jus a grandiosidade que o My Chemical Romance viria a conquistar, sua estréia foi barulhenta, exigente, abrasiva. E é sobre isso que nós vamos falar agora, faixa por faixa. 

FAIXA A FAIXA

Como bem observado pela Drinking Souls, os CDs do My Chemical Romance geralmente fazem uma associação entre seus conceitos e a vida real, e isso desde sua estréia. Conceitualmente, o registro segue a história dos dois ‘Amantes da Demolição’ fugindo da polícia e cometendo crimes pelo caminho. Porém, o roteiro não está explícito em nenhuma das faixas do álbum, exceto em “ Demolition Lovers”, última música do CD,  quando personagens fora da lei são mortos a tiros no deserto, um gancho perfeito para o posterior Three Cheers for Sweet Revenge (2004), como já explicamos por aqui

Acontece que mesmo sem serem óbvios em relação a trama do conceito, ele funciona muito bem para as ideias e emoções expressadas no Bullets: vício, inadequação, rejeição e morte se encaixam na ideia de amantes fora da lei. É fácil relacionar qualquer um desses sentimentos a uma história de amor problemática e cruel. Como alegoria, é um catalisador para falar sobre situações absurdamente mundanas. 

Começando por Romance”, a cativante e idílica introdução instrumental do CD. Embora seja creditada ao MCR no Spotify, não é uma composição original da banda, como explicou a Alt Press: suas origens supostamente estão no século 19, um estilo de música de salão associado à Espanha e à América do Sul, embora seu compositor original seja desconhecido.” De qualquer forma, a canção tenra (que em 2019 seria usada para também como ambientação no vídeo de anúncio da primeira turnê da banda após o hiatus) foi a escolha perfeita para iniciar o Bullets: é um último suspiro de paz e suavidade – ainda que bastante melancólica – antes que o barulho realmente comece. São os segundos de paz, a respiração profunda e pesada que alguém daria antes de se inserir – sem volta – em uma fuga apaixonada. 

Então, na segunda faixa, Honey, This Mirror Isn’t Big Enough for the Two of Us”, toda suavidade é dispersada para longe. Com riffs potentes de guitarra combinados, ela é o completo oposto de sua antecessora: abrasiva, ácida e enérgica, sua agressividade sonora combina com os temas abordados na composição. Honey fala sobre vício, rejeição e revolta de forma barulhenta e catártica, crua e visceral. Seu vídeo, naturalmente, segue uma linha obscura: é inspirado no filme de terror japonês “Audition” (1999), obra em que um homem entrevista uma série de mulheres para encontrar uma esposa Isso até que uma delas se revolte, e o torture, como já comentamos aqui.

A seguir, outro single, possivelmente a música mais conhecida do CD, Vampires Will Never Hurt You”.  Tão nervosa quanto a anterior, Vampires se destaca pela excelente introdução sombria e melancólica que precede os vocais angustiados.  Com sussurros ao fundo entre ondas de potência, é um hino atemporal para os fãs e definiu, sobretudo, muito da estética daquela era. Uma curiosidade sobre a faixa é que antes de começar a banda, Gerard Way estava trabalhando em algumas ideias para ilustrações sobre vampiros, mas depois ele decidiu usar o conceito para algumas das músicas de estreia do MCR. Longe de ser uma grande produção, mesmo considerando as limitações da sua época, o clipe é bastante gótico, com uma clara influência de bandas como The Cure, embora muito mais agressivo.

“Drowning Lessons”, quarta faixa do CD, é muito mais angustiada musicalmente e liricamente. Se em “Honey” e “Vampires” existia uma força catártica movida a adrenalina, aqui os vocais são nitidamente mais dolorosos. É como o vazio que se instaura depois de um fim difícil, quando você sai de um lugar e sabe que não pode mais voltar, mas ainda assim dói. “We’ll laugh, as we die, and we’ll celebrate the end of things with cheap champagne” (Nós vamos rir, enquanto morremos, e vamos comemorar o fim das coisas com champanhe barato), um dos versos, parece não ser nada além de uma risada de escárnio no meio da dor. Infelizmente, a música não foi muito tocada ao vivo. Respondendo a um fã durante um Reddit AMA, Gerard Way explicou que, além de ser uma canção muito pessoal, o que tornava  difícil para ele cantá-la em shows,  algo invariavelmente dava errado quando eles tentavam encaixar Drowning Lessons no setlist: Apenas várias coisas davam errado, desde começar a música em momentos diferentes até amps e bateria quebrando”.

De alguma forma, Our Lady of Sorrows” retoma a agressividade crua, menos angustiada que sua antecessora, mas ainda dolorosamente urgente e desesperada. Sendo a canção mais curta do CD (exceto por “Romance”), são dois minutos e cinco segundos completos de energia caótica e vocais a plenos pulmões. Em uma entrevista de 2005, Gerard  declarou ser uma de suas composições favoritas citando, especificamente, o trecho ‘Oh, como éramos errados em pensar que imortalidade significava nunca morrer”. Merecidamente, “Our Lady Of Sorrows” continuou no set da banda até sua separação em 2013 e também esteve no show de retorno.

A próxima faixa, “Headfirst for Halos”, começa com uma melodia alegre, um contraste gritante do seu conteúdo: é uma canção sobre uso de drogas. Considerando sua temática e interpretando versos comoOs vermelhos me fazem voar / E os azuis me ajudam a cair / E acho que vou estourar o cérebro no teto”, sendo abertamente sobre o vício em comprimidos de Way, é difícil não considerá-la a canção mais triste e perturbadora do Bullets. Primeiro, porque é cruelmente explícita ao abordar um tema tão delicado mas, não só por isso, sua melodia otimista e seu final clamando “Ter pensamentos felizes” podem, honestamente, ser interpretados como pura ironia dentro do contexto, o que é de quebrar o coração.

Finalmente, “Skylines and Turnstiles”, sétima música do Bullets, a primeira do My Chemical Romance. Como explicado anteriormente, é uma reação direta de Gerard Way a ter presenciado o ataque às Torres Gêmeas, assim como da realização de que precisava fazer algo significativo, como foi bem observado pela Alt Press: “Uma frase [da música] resume a esperança que o MCR trouxe para tantos: ‘Se o mundo precisa de algo melhor / Vamos dar a eles mais um motivo agora”’.  Assim como as anteriores, é rápida e enérgica, com ápices de vocais angustiados e guitarras em potência máxima.  

Se no início do CD “Romance” foi um suspiro resignado, Early Sunsets Over Monroeville”  é a pausa para o choro doloroso. É o momento mais suave, gentil e vulnerável do Bullets. Calmo e relaxante, da forma mais melancólica possível. É como a sensação de torpor que toma o corpo depois de uma crise severa de lágrimas. Embora destoe bastante das canções que lhe precedem, é um dos pontos altos da gravação.

Inspirada no clássico filme Dawn Of The Dead, de 1978 , “Early Sunsets Over Monroeville” conta uma história de amor tendo como pano de fundo um apocalipse zumbi. Um dos amantes é contaminado, e o outro precisa matá-lo. “Não sabendo que você mudou em apenas uma mordida /Eu lutei contra eles todos, só para te abraçar perto e apertado”. Se precisasse escolher apenas uma palavra para “Early Sunsets”, ela seria idílica. Desde a descrição dos amanheceres atrasados e pores-do-sol adiantados, até a suavidade melancólica e morna da sua composição e execução. 

Depois,  temos a [novamente] elétrica This Is the Best Day Ever”. Nela, o produtor Geoff Rickly emprestou seu talento vocal para o álbum, como pode ser visto em um vídeo lançado pelo Nada Recording Studio (onde todo o disco foi gravado):

De todas as angústias traduzidas em música para o Bullets, Cubicles”, penúltima faixa, condensa algumas das mais comuns na vida de um jovem adulto. Convém lembrar que todos estavam entre seus vinte e poucos anos, recém inseridos no mercado de trabalho e lutando, ainda, com seus demônios internos sobre se relacionar. É pessimista, como todo o CD: Mas você não trabalha mais aqui / É só uma vaga três por quatro/ E eles podem preencher o seu lugar / Um temporário substituto para seu rosto / Isso acontece o tempo todo / E eu não posso evitar, apenas pensar que morrerei sozinho”

Cubicles nunca teve muita chance ao vivo pois, segundo Gerard Way, apesar de ser uma ótima música, é difícil de tocar em shows. 

Por fim, “Demolition Lovers”, décima primeira e última faixa de I Brought You My Bullets, You Brought Me Your Love.  Uma angustiada e complexa canção que conta  a história de Bonnie e Clyde,  amantes que fogem de seus pecados e morrem juntos. Musicalmente, ela é uma junção perfeita das tenras de “Early Sunsets” e “Romance” com a abrasividade do restante da gravação. É o final perfeito para o Bullets, um CD doloroso e desesperado do início ao fim, mas sem perder de perspectiva a beleza e suavidade da vulnerabilidade.  É o início perfeito para o que viria a seguir, com o Three Cheers for Sweet Revenge

Como disse a New Noise, a estréia do My Chemical Romance “não foi um sussurro, mas um grito de gelar o sangue”. A revista completa dizendo que “Anos depois, Bullets ainda se mantém como uma das melhores estréias da cena alternativa do início de 2000”. Já a Rock Sound descreveu como Um álbum  que parece o equivalente em áudio de estar preso em um porão com apenas uma única lâmpada balançando de um lado para o outro acima de você; terrivelmente real, mas também impossível de ignorar”, adicionando que “Musicalmente, ‘I Brought You My Bullets …’ está muito longe do resto da carreira do MCR. Fragilizada, irritada, desconfortável e absolutamente única, a banda estava em um comprimento de onda completamente diferente, mesmo neste estágio inicial de seu tempo sob os holofotes. É o som de uma banda criando um som próprio que ninguém mais foi capaz de replicar.”

Além de qualquer técnica musical envolvida, o que torna I Brought You My Bullets, You Brought Me Your Love tão interessante para os fãs é o registro do espírito da banda em sua forma mais crua. É um desabafo urgente e angustiado de jovens que viviam em um mundo fodido, e precisavam externalizar seus pensamentos. É um movimento de libertação e catarse, criativo com uma honestidade e autenticidade que só alguém que ainda estava testando seus passos poderia oferecer. 

É, acima de tudo, um registro do seu tempo histórico. O My Chemical Romance nasceu em um contexto de militarização, exaltação bélica, violência e incompreensão. Infelizmente, estamos vendo isso se repetir vinte anos depois. 

I Brought You My Bullets, You Brought Me Your Love é um lembrete: mesmo que não se sinta pronto, tente fazer algo significativo, mesmo que só para você. Faça sua vida valer a pena. Faça com que te ouçam.

 

Stay safe and Stay Sane.

MW.

 

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