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PAUTA DOS LEITORES #6: O Legado Cultural do Emo Para a Década de 2020

Matérias

Na pauta dos leitores deste mês, o Fake Your Death preparou um especial sobre como o movimento emo dos anos 2000 influenciou a estética e a música da década de 2020, assim como sua relevância para a cultura e os movimentos sociais.

Texto por: Malena Wilbert
Edição: Amanda Bittencourt

Se alguém tinha alguma dúvida que o movimento emo permanecia relevante no prelúdio da década de 2020 – ou apenas não estava prestando atenção o suficiente –  a volta do My Chemical Romance, em outubro de 2019, provou que sim, a chama ainda estava queimando intensamente. O quarteto de Jérsei, que estava em hiatus há seis anos, lotou estádios e esgotou em minutos todos os ingressos para sua turnê de retorno na Europa e América do Norte. 

Mas, mesmo enquanto adormecidos (ou fingindo sua morte), a banda que hoje é considerada uma das maiores de sua época e o expoente do movimento emo continuava não só cultivando os seus leais fãs antigos, mas também cativando o geração Z. Além disso, seu legado influenciou diversos artistas da nova geração, transcendendo gêneros musicais e servindo de inspiração para o rap e o pop. Falaremos disso a seguir, mas primeiro: como o My Chemical Romance – e o movimento emo em geral –  conseguiram ter um impacto cultural tão grande?

Uma volta ao passado

Algumas respostas podem ser encontradas na dolorosa carta que Gerard Way escreveu em 2013, após o término da banda. Entre elas, vou tomar liberdade para parafrasear o que parece captar o essencial: não é apenas música. É uma ideia.  

Em retrospecto, é mais fácil entender. Porque, sonoramente, por exemplo, o My Chemical tem diferenças consideráveis com outros artistas do gênero. O próprio frontman, na época, declarou sem rodeios que o MCR nunca se sentiu parte ou identificado com a cena.  As temáticas das letras também variam bastante, assim como a postura nos palcos. Mas, o que Way talvez não percebesse no calor do momento, cercado pelas luzes do palco e declarações de tablóides e jornalistas, foi que eles não só faziam parte, mas que de certa forma lideravam, não só um movimento musical, mas o zeitgeist  emo dos anos 2000.

My Chemical Romance na Warped Tour, em 2005

Música é intrinsecamente ligada à cultura. Vamos  voltar  para a década de 1970, quando  glam rock do Queen, David Bowie e New York Dolls adicionou uma camada de provocação sobre os estereótipos de gênero na indústria musical.  O mundo passava pela chamada “primeira revolução sexual” – onda de questionamentos que vinham acontecendo desde 1960. Entre as principais estavam o direito das mulheres sobre a concepção – com a chegada dos anticoncepcionais – a normalização da homossexualidade e outros comportamentos considerados pouco convencionais para mentalidades retrógradas. Tudo isso, é claro, chegou até os movimentos musicais, grandes agregadores de questões sociais e culturais através dos tempos. 

Freddie Mercury

Acontece que mais de trinta anos depois as coisas ainda não estavam (e, infelizmente, não estão) bem. O sexismo e a homofobia ainda se somavam a outras inúmeras opressões. Músicos, artistas e militantes de direitos humanos abriram as portas para que essas questões fossem discutidas, mas ainda havia muito a se fazer e dizer. É aqui que entra o movimento emo e suas contribuições. 

Além de continuar questionando os padrões de gênero e sexualidade – dando passos mais largos – o emo tinha muito mais a dizer: era a realização que estava bem ser vulnerável, humano e imperfeito. Foi uma abertura necessária para começarmos a discutir com mais seriedade a saúde mental e desmistificar tabus sobre o tema. Ou, como a versão britânica da revista Vice colocou: “eles desvendaram as respostas às perguntas antes que o resto do mundo as fizesse: O que significa ser um homem? O que significa nos dias modernos ter sofrimento mental? Qual é a relação entre miséria e música? E, claro, a eterna,  que todos os seres conscientes do mundo  lutam: o que significa morrer?”

Essas questões, evidentemente, atravessam gerações. Em um editorial emocionante para a PaperMag, Marianne Eloise conta como ela, uma millenial  e a irmã mais nova, da geração Z, são unidas pelo gosto musical. Eloise declarou: 

“As mensagens  só ganharam mais ressonância com o tempo. Quando eu era adolescente, há dez anos, ninguém falava sobre saúde mental em termos médicos. Eu não tinha a linguagem para o que estava lidando, mas por meio de artistas como o MCR, comecei a perceber que outras pessoas estavam lutando contra a automutilação, o vício ou a depressão. Falando em fóruns com outros adolescentes, encontrei uma comunidade de pessoas que eram honestas. Talvez seja por isso que o MCR atrai os adolescentes agora: a Geração Z expandiu as conversas rudimentares sobre saúde mental que estávamos tendo online nos anos 2000 em defesa de mudanças tangíveis.”

Se o emo respondeu as perguntas antes que o mundo as fizesse, como disse a Vice, parece que agora estamos não só prestando atenção nas respostas, mas procurando soluções para as que não nos agradam. 

Vamos voltar para a década de 2020 (mas mantenha seu delineado intacto)

Do pop ao rap

Meninos maquiados, muito, muito delineador, cabelos coloridos e franjas. Eu não estou falando dos looks dos reis e rainhas do MySpace, mas da sensação do Tik Tok, as e-girls e e-boys. 

Ou, se formos ser honestos, a descrição é válida para ambos. Quando Billie Eilish (fã assumida de emo) estampou a capa da Vogue com cabelos de raízes verdes, os fãs de My Chemical Romance sabiam que já tinham visto aquilo em algum lugar. 

Billie talvez não tenha tido a intenção. Mas Yungblud, um dos queridinhos da nova geração, declaradamente fez uma homenagem a Gerard Way. O músico, que é fã de emo e não esconde suas influências, fez sua estréia na direção com o próprio videoclipe de “god save me, but don’t drown me out”.  Se ninguém tinha percebido o terno com detalhes em vermelho e gravata combinando, uma foto dos bastidores postada no Instagram pela estilista dele, Caterina Ospina Buitrago,  tornou tudo um pouco mais óbvio:

Assim como o emo bebeu das influências do glam rock, a geração Z está reinventando e colaborando com a estética andrógina e alternativa do emo de sua forma. As calças skinny foram substituídas por roupas largas, e isso é ótimo: cada geração precisa encontrar sua identidade de acordo com o mundo em que cresce. 

Além da estética, o emo continua relevante musicalmente. A Kerrang fez uma lista de 12 bandas que não existiriam sem o My Chemical Romance. Entre elas estão nomes conhecidos do rock como Creeper, Twenty One Pilots, New Years Day, Sleeping With Sirens e o autodeclaratório Famous Last Words. Podemos citar, também, o Palaye Royale. Mas, outros nomes surgem e é possível observar um fenômeno muito interessante: o emo transcendeu suas raízes no rock e tornou-se relevante para outros gêneros.   Porque não é apenas música. É uma ideia.

Em uma primeira análise, poucos associariam a sonoridade calmante de Billie Elish ao emo, por exemplo. Mas acontece que ela é uma grande fã do movimento e, olhando mais de perto, as semelhanças vão muito além dos cabelos com raízes verdes. Os temas das músicas, embora com suas particularidades, se concentram na humanidade e em suas vulnerabilidades – sem nenhuma vergonha disso. Billie sempre se declarou fã de My Chemical Romance. E, como muitos de nós, também reagiu de forma apaixonada ao retorno:

Bem antes disso, outra artista pop já havia declarado publicamente seu amor pelo emo – e pelo MCR. Em 2018, Halsey twittou uma foto sua no Billboard Awards 2018 com a legenda “my-chemical-romance-Helena.mp3”. Para a revista especializada em música Cool Accidents, não era só uma brincadeira: “até mesmo uma rápida escuta de seus singles Nightmare e Without Me  revelam uma alma que foi claramente tocada pelas letras torturadas de Gerard Way como Helena  e I’m Not OK , hinos geracionais no mesmo nível de Dammit e American Idiot”

Outro nome que não pode deixar de ser citado aqui é o de Olívia Rodrigo, artista que tem dominado o topo das paradas de música e quebrando recordes no Spotify. Com letras sinceras, angustiadas e um mix de guitarras nervosas, Olívia parece entender – muito bem – sobre o espírito do movimento emo. Em uma entrevista ao jornal The Guardian ela comentou a respeito do seu trabalho mais recente, Sour: “Algo de que estou muito orgulhosa é que fala sobre emoções que são difíceis de falar ou não são socialmente aceitáveis, especialmente para meninas: raiva, ciúme, rancor, tristeza. Elas são desaprovadas como vadias  gemendo e reclamando por qualquer coisa. Mas acho que são emoções tão válidas. ” Se nos anos 2000 estávamos iniciando um diálogo sobre saúde mental, agora vamos falar abertamente como essa questão é tratada de formas (bem) diferentes entre homens e mulheres. 

Olivia Rodrigo – Foto: Universal Music Group

Saindo do pop, outro gênero musical que tem uma onda de artistas marcados pela influência do emo é o rap. A tendência já foi pauta para a BBC em 2018 que, na época, declarou: O rap da era millenial talvez deva mais ao emo do que à maioria. Os vocais trêmulos de Post Malone são claramente influenciados pelos líderes da cena. Embora esse híbrido emo-rap possa parecer surpreendente à primeira vista, na verdade faz muito sentido.

“A cultura alternativa sempre teve uma população dentro da comunidade negra e não branca em geral”, disse  a rapper Princess Nokia para a  Dazed . “Há uma vulnerabilidade em se associar à dor e à tristeza que sempre existiu naquela narração. Foi como nasceu o blues”.

Para o The Face, o vocalista da Thursday, Geoff Rickly, declarou acreditar que o sucesso de nomes no rap ajudou  as pessoas a repensarem o emo como movimento:

foto: Dave Willis / Kerrang

“O emo rap teve uma grande influência na maneira como as pessoas pensam sobre o emo. O fato de que não é mais apenas um clube de meninos brancos torna mais interessante e sustentável. Emo queria ser uma coisa nova, abrir novos caminhos. Agora que a perspectiva está se ampliando, talvez possa dar certo”

A fala de George é significativa e otimista mas, infelizmente, ainda existe um longo caminho a se trilhar quando o assunto é preconceito. Em uma entrevista recente para a V Magazine, a cantora Willow Smith contou – entre outras coisas sobre sua carreira – que costumava sofrer bullying no colégio por ser negra e gostar de emo. O fato lamentável de isso ter acontecido não poderia estar mais cercado de ignorância. Para os desinformados, as mulheres negras sempre estiveram presentes no rock.  Willow tem uma carreira musical desde muito jovem. Iniciando com o hit pop “whip my hair”, ela volta agora com uma pegada punk, mais verdadeira consigo mesma, e espera inspirar outras meninas negras: 

Foto: Domen & Van de Velde / V Magazine

Não está tudo bem. Através da música que estou lançando agora posso trazer representação para a mistura. Eu só espero que as garotas negras que estão ouvindo minha música e ouvindo este álbum vejam que há mais de nós por aí. É uma coisa real, você não está sozinho. Você não é a única garota negra que gostaria de virar o cabelo para o lado e usar delineador preto, entende o que quero dizer?”

Willow comentou que Paramore e My Chemical Romance são duas grandes influências

Willow Smith é necessária, porque ainda há muito o que se fazer, obviamente. Em um especial robusto, a The Face observou: “essa introspecção, essas questões de política pessoal, eram apenas parte do envolvimento lírico de emo. Ele lutou com questões que se estendiam para fora de si também. My Chemical Romance foi formado após Way teve uma intensa resposta emocional aos ataques das Torres Gêmeas. Jimmy Eat World abordou o governo Bush. Conor Oberst, da Bright Eyes, costumava escrever críticas sobre a política americana […] Na verdade, o fato de que o emo desapareceu durante os anos de Obama talvez não seja coincidência. Quando o My Chemical Romance acabou, Way disse que acreditava que eles não eram mais necessários”.

Mas, em 2019, quando questionado pelo The Guardian se, com Trump no poder, havia  alguma  necessidade do MCR, o vocalista respondeu: Isso é coisa que eu pensei quando o mundo começou a ficar super fodido de novo”.

Foto: Jen Rosenstein / The Guardian

Sim, o mundo está super fodido, de novo. É válido ressaltar que governos de extrema direita ascenderam em todo o mundo, incluindo o Brasil. Em meio a luta contra o fascismo e o conservadorismo, uma crise sanitária global e um ecocídio, temos muitas necessidades. Uma delas é nos enxergar como humanos – os problemas humanos por trás da economia, do luto, do isolamento. E isso inclui falar sobre sentimentos. 

E, assim como o emo subiu nos ombros do glam rock para avançar em questões como gênero, sexualidade e saúde mental, nós podemos fazer o mesmo agora. Nós podemos falar sobre nossos sentimentos, e lutar por mais liberdade para isso. 

Keep Running.
Beijos, MW.

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