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Especial Revenge #4: Three Cheers for Sweet Revenge: O Ás de Copas do My Chemical Romance

Resenha

No mês especial do Revenge, o Fake Your Death traz uma resenha faixa a faixa do disco que levou o My Chemical Romance às alturas. 

Texto: Malena Wilbert

Revisão: Ariane Santana

Esotéricos ou não, há de convir que o tarot – uma prática milenar – é um excelente agregador de conceitos e arquétipos. 

E, quando o assunto é conceito, o My Chemical Romance é uma referência. Sejam vampiros, amantes fugitivos, pacientes no leito de morte ou fugitivos anarquistas, a banda sempre dedicou-se a incorporar ideias de corpo e alma, incluindo mudar seu visual e performance nos palcos. Mas, o que tudo isso tem a ver com o tarot?

Se o Three Cheers for Sweet Revenge fosse uma carta, ele seria a Rainha de Copas da banda. 

A Rainha de Copas representa o amor verdadeiro e profundo, e isso inclui todas as suas situações e desdobramentos. Não estamos falando de sonhos infantis e desejos adolescentes, mas sim do amor que tem potência para criar e destruir, dar prazer ou dor, de mover as pessoas para as atitudes mais altruístas – e também para as mais bárbaras e condenáveis. 

Estamos falando de um homem, uma mulher e os cadáveres de mil homens maus. Um amor tão, mas tão forte que fez um homem ir até o inferno para tentar encontrar sua amada. 

E ela não estava lá.

O amor inclui altos e baixos, felicidades e angústias. Através dos tempos, esse sentimento foi a força motriz por trás de atos heróicos e abomináveis. Essa potência – somada à boa produção, dedicação, talento nato e uma injeção de dinheiro da gravadora ($200.000, um valor singelo para a época) – foi o que levou o My Chemical Romance às alturas.

Falar tão diretamente sobre um amor demolidor pode parecer pretensioso, mas funciona para essa banda. Além disso, eles sempre souberam melhor o que estavam fazendo: uma metáfora e uma hipérbole para acessar sentimentos muito mais simples (só que não menos importantes), como Gerard Way explicou à  Alternative Press:

“A história é uma metáfora para o que você está disposto a passar por outra pessoa ou para provar a si mesmo. É quase como se sua vingança fosse viver sua vida da maneira que você quer e fazer exatamente o que você quer fazer. Todas as pessoas que cagaram ou perseguiram você em sua vida, é a sua maneira de se vingar.”

Comparado com seu antecessor, o primeiro disco da banda – I Brought You My Bullets, You Brought Me Your Love – que teve um sucesso singelo, “apenas” 300,000 cópias vendidas nos EUA – Three Cheers for Sweet Revenge é um ponto de virada na carreira da banda. Ao todo, foram mais de três milhões de cópias no mesmo país. Era o prelúdio da história que os tornaria um marco de sua época. 

Com treze faixas, a gravação foi produzida por Howard Benson, um engenheiro espacial e produtor musical com duas indicações ao Grammy no currículo. Embora mantenha a atmosfera sombria e angustiante de seu antecessor, a mudança é nítida. Se antes o My Chemical Romance estava testando as águas para sua inserção na indústria musical, em seu segundo CD eles usaram armamento pesado: o som estava mais limpo, o ritmo havia sido aperfeiçoado, a técnica elevada. Em uma reportagem, a revista Alternative Press declarou: “A estreia da banda, I Brought You My Bullets, You Brought Me Your Love , apresentou o MCR ao mundo. Mas o novo disco, Three Cheers For Sweet Revenge , os estabelece como os tão esperados herdeiros do trono do punk arena.”

Nenhuma dessas coisas os tornou sintéticos. Ainda havia, intrinsecamente, um coração. E excelência somada à paixão, invariavelmente, traz bons resultados. Além do sucesso estrondoso que na época lançou a banda diretamente para os holofotes da fama, Three Cheers for Sweet Revenge voltou, no ano passado, depois de 16 anos, para a Billboard 200, uma das listas de discos mais famosas do mundo. Nas palavras da Rock Sound, na época:

`Three Cheers é um megálito – um titã da música alternativa. É um álbum conceitual com suas raízes no trauma, na perda e no amor, mas sem deixar você se sentindo angustiado. Um álbum tão profundamente enraizado na cultura que sua presença ainda é sentida 15 anos depois – seu reaparecimento nas paradas de álbuns da Billboard no início deste ano é uma prova desse fato.”

Uma coleção de músicas tão icônica merece ser analisada, faixa a faixa. Então cheque seus bolsos, verifique seu isqueiro e as chaves do hotel. Vista seu colete, pegue sua arma e me encontre na porta do Bella Muerte.

Oh baby, here comes the sound! 

Helena: a perda

Quando falamos de amores avassaladores, a primeira coisa que nos vem em mente são casais apaixonados. Porém, não deveríamos negligenciar a potência do amor fraterno e idílico. 

O amor de Gerard Way pela sua avó materna, Elena, foi o combustível para a composição de uma das músicas mais icônicas da história do My Chemical Romance. O vídeo,com direito a uma igreja gótica, dançarinos, e a beleza mórbida da eterna bailarina Tracy Phillips,   termina com os membros da banda carregando um caixão. A música – que é a primeira do CD mas uma das últimas  a ser composta – é sobre a culpa que o vocalista carregava por não estar presente nos últimos dias de vida da mulher que o inspirou a cantar e pintar, como explicou à Alternative Press:

“Pessoalmente, a morte da minha avó mudou tudo. Isso aconteceu em novembro, quando estávamos muito perto de terminar de escrever o CD. Naquela época, tínhamos apenas mais um mês e meio. Foi muito triste porque eu tinha acabado de sair da turnê e ela morreu no dia seguinte. Eu perdi o último ano e meio, praticamente, da vida dessa mulher. E eu chego em casa, ela morre no dia seguinte e eu não pude vê-la. Fiquei bastante arrasado”

“É uma carta aberta muito zangada para mim mesmo”, Gerard explica em uma entrevista para a Kerrang, traduzida com exclusividade pelo FYDBR: “É sobre porque eu não estive por perto dessa mulher que era tão especial para mim, porque eu não estive lá no último ano de sua vida. O ódio a mim mesmo é sempre uma grande parte das letras. Não sei por quê, mas sempre me odiei. Esperançosamente, esse ódio por mim mesmo está se transformando em outra coisa agora; espero que tenha se transformado em uma preocupação comigo mesmo e em querer permanecer vivo. ”

Primeiro single do Three Cheers, Helena fez um sucesso estrondoso, puxando a frente do sucesso do álbum.  Ela também é a música dos créditos finais de um dos filmes de terror mais famosos de sua época, A Casa de Cera:

Talvez Gerard acreditasse que as coisas seriam melhores se ele tivesse ficado. Mas, no final de tudo, o importante é estarmos firmes durante a noite, mesmo quando perdemos alguém que amamos. Way fez isso pela sua avó, e é esperado que nosso amante demolidor – personagem dessa trama – faça o mesmo. Ele ainda tem 100 mil homens maus para matar.  

Give Em Hell, Kid: o medo

Peguem suas passagens, estamos entrando em um trem para Nova Orleans. Em Give Em Hell, Kid, a culpa fúnebre se dilui para a fase de ódio e saudade. 

Os demolition lovers se separaram em uma cena de crime, e é sobre isso que essa música fala. Eles eram jovens, feitos das coisas mais afiadas, eles realmente se importaram?

Ele está com medo. Ele gostaria que ela ainda estivesse aqui, não tão tão distante. Por isso ele é uma ruína é uma bagunça total em frente ao pelotão de fuzilamento. Siga em frente e viva sua vida, faça o que tiver que fazer.

To The End: a disputa pelo amor

Histórias de paixão, eventualmente, incluem traições. 

É quase impossível não pensar que esse seja o caso do nosso querido casal quando se ouve “To The End”, terceira faixa. Enquanto alguma festa de casamento está em colapso na sala, alguém pede para que a noiva dê adeus aos seus votos de casamento, a vida que tinha e os corações que quebrou.

Além do refrão, outros trechos tornam todo o cenário facilmente imaginável: “She keeps a picture of the body she lends / Got nasty blisters from the money she spends / She got a life of her own and it shows by the Benz // She drives at 90 by the Barbies and Kens”

Ou “Ela guarda uma foto do corpo que ela empresta // Tem defeitos desagradáveis do dinheiro que ela gasta// Ela tem uma vida própria que é mostrada pela Benz // Ela dirige a 90 pelas Barbies e Kens”Seria esse homem apaixonado um desajustado tentando resgatar sua amada de um casamento por dinheiro?

“If you ever say never too late / I’ll forget all the diamonds you ate”

Será que a história dos amantes começou com um resgate e fuga de um casamento de aparências? 

You Know What They Do to Guys Like Us in Prison: o sexo

É de se esperar que dois amantes criminosos já tenham conhecido a realidade das prisões. Mas, nessa faixa, Gerard não estava se abstraindo tanto da realidade:

“Às vezes, parece uma prisão quando você tem oito ou nove caras em uma van. Tem cheiro de prisão, isso é certo.” Gerard explicou à Alt Press “Às vezes parece uma prisão, mas às vezes até os caras na prisão, por mais fodidos e rudes que sejam, eles se aliam e sobrevivem juntos.”

Ao mesmo veículo, Gerard explicou porque convidou Bert McCraken, do The Used, para colaborar com a canção: “Ele é uma das poucas pessoas que conheci na estrada e com quem realmente me conectei.

“É apaixonado; é muito forte e agressivo, e eu acho que [os vocais de Gerard] são geniais ”, Bert elogiou, na ocasião. Na época, eles ainda eram amigos, então ele também não deixou de enaltecer o próprio MCR. “Eles são uma banda incrível, e sempre foram. Eu sou apenas um fã. ”

Na mesma entrevista à Alt Press, o jornalista pergunta “É uma música homoafetiva?” Então, Gerard não deixa nenhuma dúvida com a resposta, quando fala também, de forma mais abrangente, sobre a cena emo:

“É extremamente homoerótico[…] Até as bandas de hardcore estão usando maquiagem e outras coisas. Eu gosto disso. Eu acho que isso o mantém perigoso. Isso o mantém excitante. De certa forma, o sexo realmente está faltando no rock, especialmente por causa de toda a sensibilidade. Isso é o que eu realmente queria transmitir no álbum também. Eu queria que o álbum fosse muito perigoso e sexy ao mesmo tempo. Há tanta falta de sexo na música. Tem sido mais sobre como entrar em contato com seus sentimentos e estar presentes um para o outro, o que é ótimo, mas definitivamente falta essa dualidade sexual.”

I’m Not Okay (I Promise): o desabafo

Adolescência; hormônios; desejo; exclusão; tensão; tesão. 

Com essa mistura, é muito difícil ficar ok

I’m Not Okay, primeiro single do revenge, é sobre um dos períodos mais conturbados das nossas vidas. Para a Kerrang, Gerard contou que ela se baseava nas experiências que ele (e o restante da banda) passaram durante o ensino médio: “Eu só queria que alguém me amasse [naquela época]”

Além disso (ou por causa disso?), essa ainda é uma canção que fala sobre paixão, da forma mais confusa, excruciante e adolescente possível. Por isso, o videoclipe gravado em um colégio casou perfeitamente com a letra. O single acabou sendo nomeado para o Kerrang! Awards e chegou à posição 86 na Billboard Hot 100 dos EUA.

“Another line without a hook / I held you close as we both shook /For the last time / Take a good hard look”

Ah, lembram da nossa conversa sobre traição? Parece que esse assunto também está aqui. Por que alguém estaria preocupado com as fotos que seu namorado tirou?

Em tempo: Assim como “Helena” foi a música de créditos finais de “A Casa de Cera”, I’m not Okay aparece no video game Burnout 3: Takedown 

The Ghost of You: a desolação

Perder alguém que amamos é doloroso de várias formas. Mas poucas delas nos quebram tanto quanto imaginamos o que poderia ter sido.

E em The Ghost Of You, o My Chemical Romance sintetiza isso perfeitamente. As coisas que não foram ditas, os sorrisos hipotéticos que vem nos assombrar durante a noite com a saudade. A realização de que nunca, nunca poderemos esquecer. 

De certa forma, é a música mais intimista e resignada de todo o CD. É linda, mas triste e gelada como acordar e perceber o lado vazio na cama (eternamente)  em uma manhã de inverno. 

The Jetset Life Is Gonna Kill You: a rendição 

Se passamos pela perda, a traição, a rejeição, e a desolação, é no Hotel Bella Muerte que vamos descansar um pouco.

Nosso personagem, até aqui, está lutando. Ele estava remoendo em sua cabeça todas as coisas que aconteceram, seus sentimentos, brigando e chorando, gritando e batalhando.

Mas então é isso. Desista. Abaixe. (Render-se) é a parte mais difícil da vida. Que tudo desmorone desta vez. Com gritos ao fundo, é claro. Pois se vamos fazer isso, que seja barulhento. 

Interlude: a aceitação

Não subestime os cinquenta e sete segundos da serena e suave Interlude.  Não é porque seu volume é baixo que ela perde sua potência.

Interlude é uma oração. A mais sincera de todas. 

A canção de ninar é uma oração aos anjos do desconhecido. É a aceitação da perda, do luto, e o desejo sincero de que a outra pessoa esteja bem.

Embora você continue fodidamente quebrado. 

Thank You for the Venom: seguindo em frente

A vida te bate, te dá pancadas. Te quebra inteiro e intoxica seu sistema. Faz você ser traído, rejeitado e perder quem você mais ama. 

Então você sorri com os dentes sujos de sangue e agradece pelo veneno.

É difícil descrever “Thank You For The Venom” de uma forma que não seja “Olhe! esse é meu grande dedo do meio!” 

É um hino de resistência, de deboche. Significa que você vai continuar e, em última análise, é sintetizadora do que o Revenge significa para o My Chemical Romance, como Gerard contou à Alt Press:

“Nosso disco é uma vingança, de certa forma, por qualquer luta que tivemos em nossas vidas, ouvindo coisas fodidas como “Sua banda vai se separar seis meses depois que você começou”, “Vocês não têm o que é preciso ”,“ Você não vai conseguir ”, toda aquela besteira. E nem é só lidar com a banda, mas também , como estar na escola e ser chamado de pedaço de merda e não se encaixar com as pessoas. Então é isso que o disco é para nós; é a nossa vingança, de certa forma. É uma fase diferente em nossas vidas.”

Hang ‘Em High: a verdadeira vingança

Se você sempre se questionou sobre as vibes “faroeste” no início da décima faixa do Revenge, saiba que – provavelmente – elas não estão ali por acaso.

“Hang ‘Em High” é o nome de um filme da década de 60, um Faroeste/Western Revisionista que conta a história de Jed Cooper. Confundido com um trapaceiro, linchado e levado à forca. Acontece que Cooper foi deixado vivo, e foi atrás de….Vingança.

Be prepared to feel…. revenge

It’s Not a Fashion Statement, It’s a Fucking Deathwish: a traição

Alguém está bravo, muito bravo.

Porque alguém traiu sua confiança, e tentou te matar.

“I will avenge my ghost with every breath I take // I’m coming back from the dead and I’ll take you home with me // I’m taking back the life you stole”

Considerando o contexto de Hang ‘Em High, It’ s Not a Fashion Statement, It ‘s a Fucking Deathwish é sua sucessora por excelência. Só que aqui o desejo por vingança está mais forte, mais sedento, pungente. 

Alguém que você ama te traiu. E, infelizmente para eles, a cova não era tão funda. 

Cemetery Drive: a saudade

Até aqui passamos por muitas fases do luto, superamos, de certa forma. 

Mas, só quem já perdeu alguém que ama sabe, a dor vai e volta, como um boomerang. As vezes ela é surda e morna, adormecida em uma parte quieta e trancada do nosso coração.

Mas então ela volta, exigente e imediatista. Isso nos faz visitar cemitérios, relembrar de músicas. Rir daquele vestido que seu marido odiava.

Reconhecer que ainda dói, que ainda nos quebra. Tentar sentir aquela colisão dos beijos novamente em seus lábios só vai tornar tudo mais difícil.

Então não pare de correr, não pare de mentir. Continue a chorar.

I Never Told You What I Do for a Living: o fim resignado

Um homem apaixonado…que teve que matar mil homens maus. 

I Never Told You What I Do for a Living é uma confissão explícita de um assassino. Para quem conhece as influências do My Chemical Romance, é impossível não associá-la com “Jack The Ripper”, de Morrissey (canção da qual a banda também já fez um cover).

Mas, acima disso, é um final perfeito para o Revenge: é sobre a realização de que você fez coisas horríveis, mesmo que estivesse tentando algo bom. É sobre amor, e sobre aceitar que esse amor não terminou bem. Porque, às vezes, é o que acontece. 

Alguns podem entender que Three Cheers for Sweet Revenge peque em sua proposta por ir e voltar nas temáticas durante suas músicas –  não seguir uma linha de raciocínio lógica. Mas a verdade é que isso seria impossível – não sem perder seu fôlego pungente, seu entusiasmo e sua autenticidade. 

Sua conexão com o amor profundo. 

Musicalmente, ele é bem elaborado e produzido, com raízes punk. Mas, ele é muito mais do que isso: é honesto, cruel, e doloroso. 

Eu fico por aqui, pois hoje já nos estendemos demais!

Give Em Hell, Kid.

Beijos, MW. 

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