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ESPECIAL REVENGE #3: “Este Não É O ‘Show De Gerard Way’ De Jeito Nenhum”, Comenta O MCR em Entrevista

Entrevistas

Dando continuidade ao especial Revenge, o Fake Your Death Brasil traz a tradução exclusiva de um artigo intimista da Louder Sound em que a banda se abre sobre o que pensam do estereótipo de rock star causado pelo sucesso do Three Cheers.


Tradução: Marina Tonelli
Revisão: Amanda Bittencourt

MY CHEMICAL ROMANCE –  A MORTE PODE SER DIVERTIDA

Em Abril de 2005, o My Chemical Romance estava na capa da revista Metal Hammer, quando o disco Three Cheers For Sweet Revenge estourou. Eles falaram sobre a morte, suas fotos serem coladas em paredes e momentos de mudança de vida. 

Há muitos rock stars que enchem a boca para falar, mas muito poucos que realmente fazem o que falam. E há ainda menos pessoas que possuem aquele brilho que é preciso no rock’n’roll para realmente chegar a algum lugar neste mercado. É uma combinação inebriante – ter coragem, ter selvageria e ter uma puta insanidade -, mas o que quer que seja, os caras de New Jersey do My Chemical Romance têm e têm de sobra. 

Como uma moderna reencenação do clássico cult “A Laranja Mecânica” de Anthony Burgerss, o My Chemical Romance são ternos afiados e como facas de corte. Ambos bonitos e perigosos em igual medida, capturando os corações e mentes dos disfuncionais e oprimidos. Eles são para esta década (00’s) o que o Nirvana e o Maniac Street Preachers eram para os anos 90. E, como as bandas acima mencionadas, o frontman do MCR, Gerard Way, não aceita tranquilamente o rótulo de rock star. 

Eu não acho que as pessoas estão procurando por um verdadeiro rock star ou rock stars”, ele explica tragando longamente seu cigarro antes de descartá-lo no transbordante cinzeiro a sua frente. “Eu acho que as pessoas estão atrás de rock stars para matá-los.

O MCR está claramente buscando uma demonstração de força através de números como em “Laranja Mecânica”. Eles fazem tudo juntos como uma gangue e cada um deles, individualmente, possui algo válido para dizer como o próximo membro da banda – como a paixão do guitarrista Ray Toro por música, o rápido e divertido senso de humor do guitarrista Frank Iero, o humor sombrio do baterista Bob Bryar ou o amor desavergonhado do baixista Mikey Way por filmes de terror. Mas não é porque a banda teme que Gerard se torne o anti-herói superstar do século 21 da geração X, ou como eles gostam de dizer, “Este não é o show de Gerard Way de jeito nenhum.

Gerard Way em “Helena”/ Reprodução

Acontece que a mentalidade de gangue é realmente real. “Não é uma coisa de ego ou porque todos querem o mesmo tempo [para falar]”, continua Gerard. “É porque somos realmente uma gangue. Mas o estranho sobre essa gangue é que não há nenhum líder. Não queremos que ela se torne o ‘show’ de ninguém, porque no final das contas isso diminui nossa música. Sem citar nomes, provavelmente no último ano e meio/dois anos, certos indivíduos foram empurrados para frente das suas bandas. Talvez isso faça com que eles vendam mais discos ou talvez eles não pensem nas consequências de fazerem isso, mas esse tipo de coisa simplesmente envenena sua banda.

Qualquer coisa que a banda faça, mesmo que seja apenas o merchan, é colaborativo. Nós somos daquele tipo de caras que quando alguma coisa volta para morder nossa bunda nós sabemos que a culpa é nossa. E é assim que as coisas acabam sendo feitas. Não acho que a gente tenha sido infeliz com qualquer coisa que tivemos feito – uma camiseta, um vídeo, um disco. Eu acho que quem curte essa banda está interessada em encontrar alguém para liderá-los. Preferimos que a banda toda faça isso, não só eu somente. É muito raro no palco os outros caras falarem. Mas fora do palco, nas entrevistas, ou se o pessoal vai até eles para conversar, você vai descobrir que eles têm muito a dizer e que é extremamente relevante.

Eu não sei como os outros se sentem sobre isso,” interroga Frank. “Mas o que aconteceu com as bandas? Por que tem que ser “aquele é a estrela ou aquela é a estrela”? Se você esteve em uma banda, você sabe exatamente como é que isso funciona. Eu sempre fui um grande fã de música feita por bandas. Toda essa coisa de estrela do rock nunca me pareceu real e raramente parece artístico, sabe? É como se a maioria das bandas tivesse esse modelo: ele canta e há quatro caras feios nas costas [risos]. E ainda por cima o produtor deles provavelmente deve escrever todas as músicas. Em nossa banda, somos cinco contra o mundo. É o que escolhemos para nossa música e é assim que eu acho que devemos ser retratados se quisermos fazer as coisas de uma maneira honesta. Se você quer mostrar o lado falso da música e apenas vender uma revista ou um disco de todo jeito, então vá em frente!”. 

De fato, basta olhar para ícones de metal como o Black Sabbath, Judas Priest, Iron Maiden, Motley Crue e estrelas mais recentes como do Nightwish e Funeral For A Friend para perceber que mesmo que a pessoa que assumiu a frente da banda seja o foco, ele ou ela não representa a banda inteira. E enquanto Frank faz um bom argumento para este caso – um argumento o qual a Hammer concorda inteiramente – a Geração X do século 21 ainda tem dificuldade em aceitar certos detalhes sutis, quando eles já decidiram escolher Gerard como seu novo messias do rock. Dito isso, desde seu início – há cinco anos mais ou menos -, o My Chemical Romance concentrou suas energias em mudar essa percepção. Você só precisa estar do lado de fora dos shows antes que as portas se abram para observar as garotas gritando por autógrafos, quando Mikey ou Bob passam ou guitarristas aspirantes assediando Frank e Ray para falar sobre  “cordas, pedais e pick-ups”.

No entanto, não tem sido uma estrada fácil para os roqueiros de New Jersey e, recentemente, quase custou a banda a vida do frontman por empurrá-lo à beira do esquecimento. Infelizmente, a linha de pensamento de Gerard sobre “as pessoas estão procurando uma estrela do rock para matar” está mais próxima da realidade do que você possa imaginar. “Houve um momento para mim, há cerca de oito meses atrás, quando me senti realmente estranho por conta dessa coisa de ‘rock star”’, confessa ele. “Foi como, ‘Merda, eu não achava que isso ia acontecer’. Bem, talvez eu tenha pensado, mas não aprofundei completamente o impacto de tudo isso. Alguém me disse recentemente em uma entrevista que muitas crianças me olham como seu salvador e eu não sabia como responder isso. Foi realmente bizarro. Quando começamos essa banda, nos propusemos a ajudar as pessoas e eu não quero me contradizer, mas acho que não percebemos que havia por aí pessoas que precisavam da nossa ajuda.

Camiseta de um fã em um dos shows/ Reprodução

Basta ouvir as letras do disco Three Cheers For Sweet Revenge, para descobrir que, figurativamente falando, Gerard Way é um filhote doido de cachorro. Ele admitirá abertamente ter “tendências psicóticas” com um encolher de ombros e lista “danos ao fígado” como uma das enfermidades que sofre. 

Basicamente, quando estávamos na estrada, haveria licor antes da água e, às vezes, não haveria água nenhuma. E, como qualquer outra coisa, às vezes, essa situação ficava sem controle. Eu acordava de manhã e tinha como objetivo estar bêbado ao meio dia. Não consigo me lembrar realmente dos últimos três anos por conta disso. Era uma coisa normal para mim ficar bêbado. No fundo, eu sabia que tinha um problema, mas eu também ficava muito na defensiva sobre.

Agora eu vou a reuniões e outras coisas, eles sempre dizem que você precisa saber a data. E todos que eu conheci nesse tipo de lugar sabem a data quando eles pararem de fazer o que quer que seja. Mas eu não sei a data que eu parei, porque era muito urgente parar para mim. Vim até os caras da banda no dia que voltamos do Japão e disse: ‘Olha, eu tenho um problema e acho que vai afetar a banda’. E isso foi há cinco ou seis meses atrás. Então foi uma tomada de decisão para evitar que eu contribuísse para uma ruptura completa dessa banda. Foi para evitar qualquer tipo de drama. Foi isso.

O fato é que eu estava extremamente deprimido, estava tendo pensamento suicidas e a bebida não estava ajudando. Isso me manteve daquele jeito. Acho que não me ajudou a chegar naquele estado, mas me ajudou a ficar daquela forma. E me manteve assim por meses. É um sintoma de se estar na estrada sem ter nada para fazer durante 23 horas por dia, a não ser beber. Mas acho que você tem que ter isso em você para começar (a beber). Antes da banda eu já bebia bastante.

Ao contrário de outros anti-heróis conturbados como Kurt Cobain, do Nirvana, e Jonathan Davis, do Korn, Gerard e seu irmão mais novo, Mikey, tiveram uma educação bastante normal, embora em uma vizinhança ruim.

Todos dizem que a família é louca, mas eu não direi isso”, explica Gerard. “Nossos pais nos apoiavam muito em tudo o que queríamos fazer e tínhamos um ambiente muito agradável para crescer. Eles nos encorajavam a fazer as coisas que nos destacávamos e nos interessávamos. Eles não nos impediram de nada e isso foi ótimo”. 

O quê, o quê, o quê? Uma educação normal com uma mãe e um pai que o amava? Certamente deve haver algum engano, jovem Gerard?

Acho que como qualquer outra pessoa, nós somos um produto do ambiente em que crescemos”, continua ele. “O norte de New Jersey não é o lugar mais seguro para se crescer. Acho que estamos realmente fodidos, porque fomos forçados a viver muito em nossas cabeças. E quando se tem que viver assim, dentro da própria cabeça, é difícil lidar com o mundo real. Eu mais do que o Mikey, porque eu era o irmão mais velho e experimentei as coisas em primeira mão, como fazem naturalmente os irmãos mais velhos. Temos três anos de diferença e tive muita dificuldade para aceitar a morte. Acho que é daí que vem toda a minha cabeça fodida.

E, antes que você pergunte, não houve nenhum tipo de evento traumático, nada parecido. Eu era apenas uma criança e percebi que um dia meus pais, meus amigos, minha família e todas as pessoas que eu gostava iriam morrer. Isso acabou de me ocorrer. Eu não estava lendo Edgar Allan Poe ou ouvindo The Cure. Eu estava apenas assistindo alguns desenhos de merda e me dei conta de que todos nós vamos morrer. Então fiquei hiper-sensível a isso e ainda sou até hoje”.

É isso que acontece quando você é um borderline com mania, e é aí que reside a beleza dessa banda – nossa dualidade. Há uma dualidade para cada membro da banda, também. Há um desejo de ter esse conflito constante. Se escrevemos uma música e ela se revela mais popzinha, temos que fazer uma letra fodida. Há uma psicose em tudo o que fazemos, com certeza. Um dia, provavelmente, vamos escrever uma música pop que será sobre um massacre!”. 

No entanto, apesar das dores do crescimento de Gerard, ter Mikey na banda o ajudou a colocar a cabeça no lugar. “Nós nos damos muito bem”, sorri Mikey. “E é super carinhoso. Nosso relacionamento agora é praticamente o mesmo que sempre foi. Acho que brigamos mais antes (quando eram crianças). Nós brigávamos de forma profissional, mas a regra era não dar socos na cara!”.

Eu realmente não os imagino como irmãos,” acrescenta Ray. “Eles são mais como melhores amigos. Eu nunca vi dois irmãos terem um relacionamento como eles.”

Bob: “Se eu estivesse com o meu irmão todos os dias, dia após dia, estaríamos dia e noite na garganta um do outro, mas esses dois não são assim.”

“É mais fácil para mim e para o Mikey estarmos na estrada por sermos irmãos,” explica Gerard. “Sei que é uma coisa estranha de se dizer, mas acho que é por isso que eu e ele acordamos bem de manhã, porque parece que estamos em casa. Nós costumávamos sair e jogar videogame juntos. Fazíamos tudo juntos e agora é a mesma coisa.” 

“Gostaria que a higiene deles fosse melhor,” ri Frank. 

My Chemical Romance/Reprodução


Desde que saíram oficialmente de New Jersey em 2002 com seu disco de estreia I Brought You My Bullets You Brought Me Your Love, o My Chemical Romance teve uma rápida ascensão para o sucesso. Só no Reino Unido, eles tocaram em casas de show cada vez maiores cada vez que tocaram por aqui. E, para falar a verdade, eles venderam mais discos que o The Used, que eram vistos como os grandes superstars do screamo do momento.

Nós não estávamos cientes disso”, diz um Gerard atordoado. “Mas realmente tentamos não prestar atenção a esse tipo de coisa, acho que quanto menos você presta atenção às vendas de discos e comparações entre sua banda com outras, mais isso mantém sua banda do jeito que ela é.

Houve um momento em que nos demos conta de que se trata menos da música, mas sim, mais da indústria e o tempo que passa,” acrescenta Frank. “Fizemos uma entrevista onde as pessoas que nos entrevistaram não tinham ideia de quem erámos ou se erámos mesmo uma banda. Eles tinham acabado de nos ver na MTV ou em uma revista, algo assim, e pensava que erámos… Na verdade, nem sei o que eles pensaram o que nós erámos. Espero que esses tempos sejam curtos e se distanciem. Não é sobre isso que se trata (a banda). Nós não nos propusermos a ser apenas ícones.

Para finalizar, fazemos músicas para nós mesmos, para nos sentirmos melhor”, continua Gerard. “Mas havia o objetivo definido de ajudar as pessoas quando começamos e essa é a diferença entre nós e todos os outros, eu acho.

Frank: “Começamos com muitos objetivos e os atingimos muito rapidamente. Ainda temos muitos outros a longo prazo, mas tivemos que articular isso com as pessoas sem soarmos idiotas. É claro que quero fazer grandes turnês mundiais, etc, mas o objetivo final é apenas alçar o maior número possível de pessoas”. 

Embora o MCR se sinta como uma estilosa gang foda de rock stars combinando em preto e vermelho – até a irônica estética geek de Mikey está do lado certo da moda – no colegial eles eram menos “Laranja Mecânica” e mais “A Vingança dos Nerds”.

A coisa toda do preto e vermelho não é satânica, como algumas pessoas já disseram,” sorri Gerard. “Mas, temos um enorme amor e respeito pelo Senhor das Trevas – o Senhor das Trevas [o frontman do Alkaline Trio] sendo o Matt Skiba. Tudo isso saiu de um vídeo que estávamos fazendo, na verdade. Fizemos o vídeo para ‘Helena’ e, como tudo o que fazemos, nós o dirigimos. E todos nós começamos a gostar da maneira como estávamos vestidos naquele vídeo. Eu gostei como parecia que estávamos de uniformes. Era importante para nós, porque não só a banda tinha se tornado uma gangue, mas também precisávamos parecer uma gangue. Não era uma coisa calculada. Foi apenas um dos momentos em que você se olha e diz: ‘Eu realmente gosto da nossa aparência assim’.” 

Essa é uma das grandes coisas sobre o MCR – eles estão colocando a ‘estrela’ de volta na ‘estrela do rock’. Como todos os grandes astros do rock antes deles, o MCR tem um verdadeiro senso de espetáculo. Um senso de mística dos grunges com seu próprio ‘código dourado’ de vestimenta, o new metal com seu visual sempre arrumado e higiênico, e aquelas bandas que aparecem para um show vestindo exatamente a mesma porra de roupa que sempre usam dia após dia nos shows.

Bem, nós, hum, na verdade usamos as mesmas roupas o tempo todo“, confessa Gerard. “Eu não tenho nenhuma outra roupa, além do meu pijama ou as  ‘roupas de café da manhã’, como eu gosto de chamá-las. A maquiagem é o que nem sempre usamos. É um processo para nos prepararmos para ir ao palco. É por isso que é sempre um pouco estranho levantar de manhã e se preparar para as sessões fotográficas. Mas, sim, todos nós fazemos um esforço consciente para parecermos escrotos o tempo todo. É por isso que cheiramos tão mal!

“Quando estávamos no colegial, éramos definitivamente as crianças que não se encaixavam. Eu costumava usar muito preto e era zoado por isso. Quanto a essa vibe de “Vingança dos Nerds”, se você olhar para as crianças que vinham aos nossos primeiros shows, era exatamente isso! Acabávamos tocando após muitos shows de cenografia, mas sempre se podia dizer quem vinha assistir o My Chemical Romance, porque eles não se pareciam com ninguém. Eles não se encaixavam com mais ninguém, e todos lhes davam um olhar sujo. Eles normalmente também estavam sozinhos. Mas agora parece que me deram esta etiqueta de “frontman bonitinho”. Tipo, que porra é essa? Eu não me acho bonito de nenhuma maneira, de qualquer jeito. Só pensei que as pessoas gostam de mim porque sou um idiota louco. Isso é o mais estranho, porque nós não entendemos nada disso. Por isso que é muito estranho para nós que a gente esteja colado nas paredes das pessoas”.

Frank é um pouco mais filosófico sobre tudo isso. “Bem, se é assim que vai acontecer, então é hilariante pra caralho! Você realmente quer fotos de nós cuspindo um no outro e vomitando? Se você quiser, você está louco!”

Essa matéria foi publicada pela primeira vez na edição 138 do Metal Hammer.

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