Sua fonte oficial de notícias do My Chemical Romance no Brasil reconhecida pela Warner Music BR. Nos acompanhe nas redes sociais e fique ligado nas novidades da banda.

Especial Revenge #2: 17 Anos de Uma Doce, Doce Vingança

Matérias

Na segunda matéria do especial Revenge, o Fake Your Death Brasil traz um dossiê completo sobre o conceito do disco, a época que foi gravado e o mais importante: como o Three Cheers for Sweet Revenge fez do My Chemical Romance uma das maiores e mais autênticas bandas dos últimos tempos.

Texto por: Gabriela Reis
Edição por: Amanda Bittencourt

O ano era 2004. O Orkut tinha acabado de começar a bombar no Brasil e era preciso receber um convite para participar da rede social, de tão exclusiva que era na época. Nesse tempo, alguns de nós já estavam na escola e assistiam religiosamente à MTV na parte da tarde ou da noite – depois de acompanhar Malhação às 17 horas -, esperando para ver se teria algo novo passando pela TV de tubo. Foi assim que grande parte de nós conheceu bandas como Fall Out Boy, Panic! At The Disco e é claro, a maior de todas, o My Chemical Romance, com seu clipe mais que aclamado da época: Helena.

Quem era pré-adolescente ou adolescente na época, com certeza vai se lembrar com emoção toda vez que ouvir os primeiros acordes de Helena sendo tocados em alto falantes ou em fones de ouvido. A estética do clipe, a igreja, os figurinos em preto e vermelho, e é claro, Tracy Phillips, nossa eterna bailarina gótica de sombra vermelha. Esse provavelmente foi o primeiro contato de muitos com o My Chem – ou podemos até mesmo dizer o mais clássico para quem não tinha acesso fácil à internet naquela época -.

Mas a porta de entrada do MCR para o estrelato e a venda de mais de mais de três milhões de cópias em todo o mundo não foi o que definiu a banda. Eles sempre foram muito, muito mais do que “os góticos que dançaram em um funeral”, até porque, o My Chem sempre usou sua forma de fazer arte como uma maneira de ter alguma coisa a dizer, e isso desde o início, principalmente com Skylines and Turnstiles, faixa 7 do disco antecessor do Three Cheers for Sweet Revenge (2004), I Brought You My Bullets, You Brought Me Your Love (2002), que fala sobre o atentado às torres gêmeas em Setembro de 2001.

Apesar de ter força, ter algo a dizer e vontade de fazer barulho, nem mesmo a própria banda sabia o que viria a seguir após eles assinarem o contrato com a Warner Music Group pelo selo da Reprise Records, apesar do produtor do disco, Howard Benson, saber muito bem que o MCR tinha uma coisa que outras bandas não tinham: uma estrela. Uma estrela chamada Gerard Way. 

Foto: Divulgação

Em uma entrevista ao podcast Pensado’s Place, Benson, que é conhecido no meio como o “salvador de projetos”, traz uma opinião interessante, que ajuda a definir o conceito que o MCR sempre quis para a banda – e talvez por isso, Benson e os rapazes fizeram um ótimo trabalho com o Revenge -: 

“(…) É engraçado dizer isso. Eu sempre acho que as pessoas olham para nós produtores como salvadores de projetos. Mas nós não somos, mesmo. Nós precisamos que o artista esteja ali para nós, principalmente se tratando de rock. Você não pode enganar as pessoas no rock. Você pode enganar no pop, pode ter cantores que não cantam, não escrevem, não tocam, que não fazem nada, mas você ainda pode transformá-los em estrelas. No rock você não consegue ir em frente com isso, é preciso ser real, sabe? É como Dylan [Bob Dylan] disse uma vez, três acordes e a verdade, digo… É o tipo de coisa que nós procuramos neste ramo. Mantenha a simplicidade, mas deixe a verdade sair”.

Ainda nesta mesma entrevista, Benson também comenta, após perguntado se ele tem o privilégio de escolher com quem vai trabalhar, que inicialmente, ele não queria produzir o disco do MCR, e que foi seu agente que pediu para que ele produzisse a banda: 

“(…) Eu não desisto de projetos tanto quanto as pessoas pensam, digo, eu não sou um árbitro do bom gosto* (nota: uma pessoa que se julga com um gosto acima da média que os demais), eu sempre achei isso um erro que produtores cometem (…). Eu não queria produzir o My Chemical Romance. Meu agente me pediu, e eu não teria os produzido se ele não tivesse chegado e dito: ‘ei, você precisa conhecer esses caras’. Eu os conheci e depois pensei, ‘cara, o último disco deles foi quase impossível de ouvir’, mas que bom que eu fui conhecê-los, sabe, esse é o tipo de coisa que faz com que você acredite um pouco no mundo lá fora (…). Essa banda, digo… Eles aceitaram mudanças no tom, mudanças no tempo (…) porque eles disseram: ‘ah, todos os outros produtores disseram que a gente tinha que diminuir o volume’, e eu disse: ‘não, vocês não precisam diminuir o volume. Vocês precisam ir para o outro lado’”.

Com o aval do produtor para experimentar (fosse em riffs, gritos ou baterias mais pesadas – ainda sob as baquetas de Matt Pelissier), o MCR mostrou a que veio, trazendo a atenção da crítica especializada, que até hoje classifica o disco como um marco do rock alternativo. Toda essa conversa fez com que a banda se tornasse ainda mais madura quando dava seus primeiros passos rumo ao sucesso. 

O poder do My Chemical Romance é tão grande, que ano passado, exatos 16 anos após de seu lançamento, o Three Cheers For Sweet Revenge teve sua volta marcada na Billboard 200, uma das listas de discos mais famosas do mundo. Poucos artistas, ainda mais depois de tanto tempo, conseguem o feito de estar (ou neste caso do MCR, VOLTAR) às paradas da Billboard.

Mas afinal, sobre o que é o Three Cheers for Sweet Revenge? Talvez você viva numa caverna, ou passou fora todos esses anos, mas a gente explica se for o caso. A história, que inicialmente era pra ser uma continuação direta de seu antecessor – I Brought You My Bullets, You Brought Me Your Love (2002) – narra a saga dos Demolition Lovers – personagens que estampam a capa desenhada por Gerard Way -. Nas palavras de Way, esse é o resumo da história: 

“O conceito do disco conta a história de um homem e uma mulher que foram separados pela morte no meio de um tiroteio, ele vai para o inferno apenas para descobrir pelo diabo que sua amada ainda estava viva. O diabo então diz que ele pode voltar para a Terra, contanto que ele lhe traga as almas de 100 homens maus. Então, o diabo entrega a ele uma arma e ele diz: ‘Eu vou fazer isso’. Essa era a ideia por trás do conceito, o disco acabou sendo muito mais sobre perda e vida real do que qualquer coisa, então eu diria que é um bom meio termo”.

Como se não bastasse, o tema escolhido para o disco tinha sido a morte em sua forma mais pura e sucinta. Não era de se esperar menos que eles fizessem disso uma reinvenção, com acordes muito mais marcados, riffs muito mais bem estruturados e uma raiva palpável que faria com que eles conquistassem milhares de corações ao redor do mundo. 

Para algumas culturas, a morte é um momento de celebração, mas a maioria de nós do Ocidente, não sabe e não entende isso. Lidar com a morte pode ser traumático para algumas pessoas (como falamos anteriormente no perfil de aniversário de Way, que pode ser relembrado aqui). Para Gerard, lidar com a morte de sua avó – Elena Lee Rush, homenageada na primeira faixa do disco – após a banda dar os primeiros grandes passos no ano de 2003, foi muito traumático, como disse em entrevista à Spin (2005): 

“Não consegui lidar com a morte dela”, diz ele, “e tomei meu primeiro Xanax. Depois disso, começou a crescer como uma bola de neve. Eu ficava bêbado em um show, então precisava desligar meu cérebro à noite – porque meu cérebro está sempre se movendo a um milhão de milhas por minuto. Os comprimidos me permitiam relaxar e dormir. Mas então a cocaína entrou em ação e tudo deu errado”.

A luta de Way contra as drogas e o álcool foi retratada durante o documentário Life On The Murder Scene, que saiu alguns anos mais tarde, em 2006, e mostrou todo o processo de crescimento da banda pós-Bullets e do amadurecimento enfrentado por eles durante as gravações do Three Cheers for Sweet Revenge – que ocorreram de Outubro de 2003 até Fevereiro de 2004, nos estúdios Bay 7, na Califórnia. Durante alguns trechos do documentário, Way fala que foi sua avó que o ensinou a pintar e a cantar – o que explica completamente sua raiva por não estar próximo dela em seus últimos momentos de vida.

Toda essa raiva e indignação, colocada por trás do conceito do disco que narra a jornada de “um homem, uma mulher e os cadáveres de 100 homens maus” não vinha apenas das fases do luto de Way. A identificação da ira adolescente em letras como “I’m Not Okay (I Promise)”, “Give ‘Em Hell Kid”, “Thank You For The Venom” e “The Jetset Life is Gonna Kill You” beira à síntese do que é ser um adolescente perdido, com raiva e sozinho. Afinal, quem nunca cantou algumas dessas músicas a plenos pulmões e sentiu-se exorcizado após um dia ruim? 

A primeira faixa, que inclusive se tornou single do disco (lançado em 13 de setembro de 2004), tem um clipe pra lá de interessante – dirigido por Marc Webb – e que mimetiza bem as lembranças de Way em sua época de adolescente (e hoje nós inclusos, com nossas lembranças provavelmente tristes do Ensino Médio e o esforço para tentar se encaixar). Em entrevista à Kerrang!, Gerard relembrou: 

“Imagine um garoto gordo”, disse Gerard, refletindo sobre sua juventude. “Eu me empanturrei, trabalhando em uma loja de quadrinhos e comendo cheeseburgers o tempo todo… No meu primeiro dia no colégio, sentei-me sozinho na hora do almoço. Era a história clássica – o garoto estranho com uma jaqueta militar, camiseta de filme de terror e cabelo preto comprido. Eu estava mais interessado em música e em ser criativo. As pessoas nunca foram realmente más comigo. Elas quase sempre me deixaram em paz. Eu acho, realmente, que eu só queria ficar sozinho.”

Toda essa verdade presente no contexto, na história e nas pequenas entrelinhas, trouxe os frutos de muito trabalho e dedicação. O Three Cheers for Sweet Revenge conseguiu desbancar até mesmo o Green Day com o icônico American Idiot (2004) durante o prêmio da Kerrang!, se tornando assim o destaque daquela noite. Este feito chamou tanto a atenção de Billie Joe e seus amigos, que o My Chem foi até chamado para participar da turnê com eles. O sonho, que antes era distante e que provavelmente só os acometia em devaneios distantes, estava chegando mais próximo.

O frenesi que tomaria conta de jovens corações estaria ali só começando. As vidas salvas. As ideias. O desfecho. O fim. E o recomeço

O pontapé foi dado bem aqui: em Junho de 2004; com as rejeições, com as críticas, com a garra e com a força. O My Chemical Romance não seria quem foi sem suas perdas traumáticas, sem as lágrimas, sem a raiva, e muito menos… sem a vingança.

O conceito que trouxe a banda para o conhecimento do público, foi o mais doloroso e o mais intenso, mas que preparou com maestria o terreno para um capítulo ainda maior: o The Black Parade. 

Peguem seus shots de tequila, e vamos brindar com três vivas para uma vingança extremamente doce e linda. 

Beijos da G. e até a próxima.

Deixe uma resposta

Continue lendo

Menu
%d blogueiros gostam disto: