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“Com essa banda, eu nunca desisti”, diz Gerard Way para jornal taiwanês em 2008

Entrevistas

Em entrevista exclusiva para o jornal Taipei Times, Way fala sobre o sucesso alcançado com The Black Parade, o impacto que os acontecimentos de 11 de setembro tiveram em sua vida e os motivos pelos quais rejeita veementemente o uso do rótulo “emo” para definir sua banda. 

Tradução: Amanda Bittencourt
Edição: Marina Tonelli

Seguindo com nossa série especial de tradução para o mês de abril em comemoração aos 44 anos de Gerard Way, trazemos uma entrevista dada pelo vocalista em janeiro de 2008 ao jornal taiwanês Taipei Times. Dias antes dessa entrevista, o My Chemical Romance havia se apresentado diante de mais de 3.500 pessoas em Taiwan, uma das paradas da turnê asiática de The Black Parade. 

Na entrevista, Way fala sobre o sucesso da banda, sobre os acontecimentos de 11 de setembro, sobre lidar com um episódio desagradável que ocorreu em um show na Inglaterra, entre outras questões.

Confira a entrevista na íntegra:

 

A estrada de Gerard Way para o sucesso

O vocalista do My Chemical Romance, Gerard Way, fala sobre o sucesso de sua banda, sobre ter sido atingido por uma garrafa e porquê ele não gosta da palavra ‘emo’.

Nem o sucesso da crítica, nem a adoração de milhares de adolescentes subiram à cabeça do cantor do My Chemical Romance Gerard Way, ou assim parecia quando ele adentrou a suíte Platinum do Far Eastern Hotel sem assistentes pessoais na noite de sábado, precedido apenas por seu irmão mais novo e baixista da banda, Mikey. My Chemical Romance – que tocou diante de 3.500 fãs em idade universitária no National Taiwan University Athletic Stadium no domingo – está se aproximando do fim da turnê de um ano para divulgar o disco de platina The Black Parade; um disco conceitual descaradamente honesto sobre um paciente moribundo com câncer obcecado por redenção e vingança.

Sentado com as pernas cruzadas, usando Ray Bans escuros que lhe obscurecem os olhos, Way começa a entrevista medindo o sucesso do disco, que foi comparado com o épico The Wall do Pink Floyd. “Para nós, o Black Parade foi o melhor disco daquele ano”, 2006. “É assim que nos sentimos quando o estávamos fazendo; ainda nos sentimos assim. Mas algo como The Wall é extremamente ambicioso. Não sei o que é preciso para fazer um disco como este. Acho que você tem que fazer um grande sacrifício na sua vida de várias maneiras e não acho que ninguém nesta banda esteja preparado para isso.”

Ron Brownlow: Nessa turnê, até muito recentemente, você aparecia e dizia que vocês eram a Black Parade, pelo menos na primeira hora (de show). E então você parou no mês passado.

Gerard Way: Estávamos filmando um show no México e, talvez 10 minutos antes de começarmos, decidimos que aquele seria o último (show). Sentimos que tínhamos feito tudo o que podíamos como a Black Parade e realmente queríamos voltar a ser simplesmente o My Chemical Romance. E isso significa ser apenas uma boa banda de rock.

RB: Então parte disso foi porque vocês estiveram na estrada por tanto tempo que estavam cansados de fazer isso?

GW: Na verdade, uma pequena parte foi isso. Isso nos prendeu. Mas a maior parte foi, eu acho, que queríamos nos desprender de tudo ligado a ser a Black Parade e queríamos seguir em frente.

(Way se identificou tanto com o personagem do disco, conhecido apenas como o Paciente, que até recentemente assumiu a persona no palco. Ele cortou o cabelo e tingiu de loiro prateado para, segundo ele, “parecer branco e moribundo.” Os membros do My Chemical Romance usavam uniformes pretos combinando e a banda tocava em cada show sob o pseudônimo de The Black Parade.)

RB: Então, ainda podemos falar sobre o Paciente?

GW: Sim! Claro.

RB: Como está o paciente agora?

GW: (Rindo.) Eu sempre gosto de pensar que aquele personagem em particular foi criado para que todos pudessem se identificar com ele. O mais provável é que todos eventualmente se tornem pacientes e essa será a última vez que você será um paciente. Você meio que perde seu senso de identidade e se você não tem nenhuma família ao seu redor, você tem menos identidade ainda. Mas eu gosto de pensar que, no final desse disco, o personagem ganha uma segunda chance, que você raramente tem, sabe? Eu gostaria de pensar que, quer o personagem morra ou não, ele de fato escolheu viver.

RB: Eu li uma história no New York Times que dizia que o Paciente é o homem comum americano reformulado, doentio e com cicatrizes de violência.

GW: Eu diria que está bem perto. É definitivamente um homem comum. Mas não acho que seja muito americano. Procuramos fazer um registro universal e só o fato de estarmos aqui hoje prova que o fizemos. É interessante. Nós realmente não pensamos em nós mesmos como uma banda de Nova Jersey. E também não nos consideramos uma banda americana de muitas maneiras. Nós nos sentimos mais como uma banda do mundo ou de algum lugar como o Reino Unido. Nós nos sentimos mais como uma banda de rock britânica do que qualquer outra coisa.

(Nascido em 9 de abril de 1977, Gerard Way cresceu no município proletário de Belleville, Nova Jersey, a cerca de 15 km de Manhattan. Quando ele era adolescente, foi detido sob a mira de uma arma. De acordo com um artigo da revista Rolling Stone, Way narrou que uma Magnum .357 foi apontada para sua cabeça, e ele foi “colocado no chão, como se fosse ser executado”. Ele se formou na Escola de Artes Visuais de Nova York e estava trabalhando na indústria de quadrinhos da cidade quando, em 11 de setembro de 2001, terroristas derrubaram dois aviões de passageiros no World Trade Center. Quando mencionamos o 11 de setembro, sua voz falha.)

RB: Você viu os aviões baterem no World Trade Center?

GW: Eu estava pegando um trem. Não vi nenhum dos aviões atingirem os prédios, mas os vi caindo, e eu diria que bem de perto. Era como estar em um filme de ficção científica ou algum tipo de filme de catástrofe – era exatamente esse tipo de sentimento. Você não acreditava. Você se sentia como se estivesse em Independence Day. Não fazia sentido. Seu cérebro não conseguia processar isso. E para mim foi um pouco diferente. Eu sou muito empático e meio que um canal de emoções, então eu absorvo muito as coisas. Havia cerca de trezentas ou quatrocentas pessoas ao meu redor – e eu estava bem no limite. Todas essas pessoas atrás de mim, todos eles tinham amigos e família naqueles edifícios. Eu não. Então, quando aquele primeiro prédio foi destruído, foi como se uma bomba atômica explodisse. Era exatamente essa a emoção que te deixava enjoado. Um dos primeiros pensamentos que eu tive quando os prédios caíram foi: “O que isso significa?”

RB: Como isso levou à criação da banda?

GW: Uma das outras coisas em que pensei quando o primeiro prédio desabou foi: “Tudo o que você está fazendo agora é meio sem sentido”. Eu estava envolvido com arte comercial em Nova York, tentando lançar um desenho para o Cartoon Network, o que foi extremamente frustrante porque eu estava lidando com uma empresa que parecia estar mais interessada ​​em que o desenho fosse transformado em brinquedos, fronhas e merdas assim, e foi realmente desanimador. Essa foi a primeira vez que experimentei criar algo e vê-lo decolar um pouco – e não me senti bem. Naquele momento eu estava tipo, “Isso não significa nada. Isso tudo é lixo. Tudo isso é uma merda. Eu preciso fazer algo que realmente signifique algo, ou minha vida não significará nada. Assim como este desenho animado não significa nada.”

RB: Você acha que encontrou significado através disso (da banda)?

GW: Acho que criamos algo especial juntos. Eu acho que isso significa alguma coisa. Significou algo quando começou, meio que disse o que tinha a dizer, e essa é uma posição interessante de se estar, porque não acho necessariamente que o próximo disco que faremos precise significar algo. Acho que meio que finalizamos esse aspecto. Portanto, será interessante ver o que faremos a seguir porque, entre aspas, em relação a “a missão” ou “o objetivo”, eu me sinto muito completo.

(Way e My Chemical Romance são figuras polarizadoras. Em uma votação da revista Kerrang!, a banda foi eleita a melhor e a pior banda de 2006. Quando tocaram no Reading Festival daquele ano na Inglaterra, Way, conhecido por sua maneira exagerada no palco, foi bombardeado com uma garrafa de urina e outros objetos jogados pelo público. Nesse mesmo ano, “Welcome to the Black Parade” alcançou o número um na UK Singles Chart, assim como nos EUA. O disco foi Platina em ambos países.)

RB: Ser atingido por uma garrafa. Qual foi a sensação?

GW: Foi estimulante e extremamente desafiador. Não há nada como isso para humilhá-lo e também fazê-lo saber que ainda há algo pelo que lutar.

RB: Você se sentiu estimulado?

GW: Sim! Acho que quando tudo estiver dito e feito, as pessoas vão olhar para aquele show específico e dizer que foi o show mais importante da carreira dessa banda, porque eles chegaram lá enfrentando uma tremenda quantidade de oposição e conquistaram uma multidão inteira, fizeram isso com uma câmera em sua direção e com todo mundo olhando para eles. Eu acho que é por isso que é importante, porque realmente resume a banda em 40 minutos. Não foi fácil. Foi o arremesso, e depois tudo simplesmente parou e então houve aplausos, entusiasmo e positividade. Uma corrente através do público. É incrível assistir as imagens capturadas pela BBC.

RB: Você disse que a banda começou como sua terapia, e então se tornou a terapia da banda, e então se tornaram a terapia de outras pessoas.

GW: Foi uma espécie de terapia para mim no início por causa do 11 de setembro, e depois para a banda porque, de alguma forma, nós, em nossas próprias vidas, éramos as pessoas que não se encaixavam ou não eram como as outras pessoas – ou seja, não propensas à violência. Não éramos sobreviventes dessa forma. Éramos sobreviventes de uma maneira diferente. E então, quando íamos a esses shows, começamos a conhecer uma galera que era exatamente como nós. E isso foi quase como uma sessão de terapia de grupo. Isso foi realmente emocionante. Estávamos todos trabalhando nisso. Já que somos pessoas tremendamente adeptas da não violência em nossa vida cotidiana e nossos fãs são praticamente da mesma forma. Eles são normalmente solitários, tímidos e silenciosos. E você tem que ter um lugar onde possa extravasar tudo isso. Nossos shows eram o lugar para isso. Um dos equívocos mais comuns sobre a cena punk rock é que você pode ir e vai se encaixar pelo simples fato de ser punk rock. Mas na verdade não costuma ser assim. Eu não acho que muitas pessoas falem sobre isso. Era o mesmo que estar no colégio com os atletas. Eu ia a clubes de punk e era empurrado por skinheads porque eu não era como eles, o que era o mesmo que levar um empurrão de atletas vestindo uma camisa dos Ramones.

RB: Você falou sobre o fracasso. Você disse: “Eu falhei muito na minha vida com tudo o que tentei fazer. Eu era um artista falido. Eu era um animador falido, entre outras coisas… Eu sempre estive muito perto, mas eu nunca chegava lá. “

GW: Talvez não seja tanto uma questão de fracasso e sim de não seguir em frente, de desistir. Acho que eu fui mais uma pessoa que desistiu do que uma que fracassou. Eu não tinha o que era preciso naquele momento, porque estava muito propenso a desanimar muito rapidamente e parar de fazer o que estava fazendo. Com essa banda, eu nunca desisti.

(Embora o My Chemical Romance cite como suas influências desde Queen, Thursday e Iron Maiden a Morrissey, Black Flag e Smashing Pumpkins, é frequentemente referido como uma banda emo, uma etiqueta que a banda questiona vigorosamente. Originalmente usada como abreviatura para o subgênero “hardcore emocional” do punk que se originou em Washington, DC, agora se refere a um gênero vagamente definido de indie rock e punk gótico cujos seguidores adolescentes são estereotipadamente tímidos, angustiados e propensos à depressão e automutilação. Way se referiu ao emo como “um monte de merda”, mas o estilo dramático do My Chemical Romance se conecta com uma intensidade de emoção muito adolescente. Em entrevistas, Way e outros membros da banda discutiram abertamente seus problemas de saúde mental, e sua tendência a usar jeans justos e delineador faz com que eles se aproximem bastante da estética (emo))

RB: Vocês realmente odeiam ser chamados de banda “emo”. Por que vocês desprezam tanto esse termo?

GW: Não gosto de nenhum termo que me pareça preguiçoso ou um termo fácil para algo que não é fácil de descrever. E eu também acho isso frustrante. Éramos tão opostos às bandas emo que não podíamos agendar shows, porque havia essa cena emo em ascensão, e saímos em turnê literalmente com bandas de metal cristão, ou outras bandas que não podiam ser rotuladas. Basicamente fomos criados em oposição a tudo isso. Éramos como a resposta para o que estava acontecendo.

Não nos encaixamos nesse tipo de bobagem de cabelos desgrenhados e choramingar sobre uma garota. Eu só queria que as pessoas percebessem que o que acontece com o My Chemical Romance é completamente exclusivo de qualquer outro tipo de música. O que temos é extremamente especial. E trabalhamos muito para chegar aqui. Portanto, é um termo insultuoso pelo fato de que somos taxados juntamente com bandas que não criaram nada disso. Eles não trabalharam e não se esforçaram para criar algo que fosse único para nós e nossos fãs. É algo que é só para nós e para nossos fãs, para mais ninguém. Se o grupo de fãs for enorme, isso é incrível. Se for pequeno, é a mesma coisa.

Todo o fenômeno da banda não tem nada a ver com o que as pessoas estão chamando de emo. Não é nada assim. Não foi fundado da mesma forma. O sangue que nutriu tudo isso é diferente. [Emo] não tinha saliva, não tinha força para isso. Não é único. É apenas pop-punk de novo. É pop-punk com delineador. Tudo isso é chato e realmente redundante. É por isso que é frustrante, porque foi difícil para nós começarmos, porque não éramos nada parecido a isso.

RB: O que você vislumbra no horizonte após essa turnê?

GW: Vejo nossa primeira pausa prolongada. Vamos nos comprometer a tentar ter pelo menos seis meses de folga antes mesmo de falarmos sobre fazer outra coisa. E então, quando chegarmos a esse ponto, esperaremos, teremos vivido o suficiente para fazer alguma coisa. 

Esta entrevista foi condensada e editada.

 

 

 

look alive, soldiers.

xx

AB

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