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“Éramos considerados uma das maiores bandas emos do mundo, mas ninguém queria marcar shows com a gente por conta disso”, revela Gerard Way em entrevista de 2006

Entrevistas

Em uma franca entrevista sobre pressão que a fama causou, construção do conceito do The Black Parade e pensamentos sobre a morte, Way desabafa em uma entrevista exclusiva a Wortraub de novembro de 2006.  

Tradução: Marina Tonelli
Revisão: Ariane Santana

O mês de abril é marcado pelo aniversário de Gerard Way e o Fake Your Death Brasil traz, para celebrar os 44 anos do vocalista, uma série de traduções de algumas entrevistas emblemáticas que Way deu durante sua carreira com o My Chemical Romance.

Nesta entrevista de 2006, chamada “A Conversation With Gerard Way”, ao portal de notícias alemão Wortraub, Way fala sobre sua maneira de construir conceitos para os discos, as referências utilizadas no The Black Parade, suas concepções sobre vida e morte, a maneira com que a fama o atingiu em um momento delicado, e muito mais.

Confira a tradução na íntegra:

Essa é a transcrição original da entrevista com algumas edições aplicadas para a legibilidade. A edição tem sido usada como base para os artigos, não tendo sido publicada em sua forma original.

Wortraub: Por que você está dando esta entrevista sozinho?
Gerard: Os caras da banda estão em casa trabalhando. Eles, na verdade, estão fazendo diversas outras coisas, como a divulgação para a imprensa nos EUA, enquanto eu faço a imprensa daqui da Europa. Também sou o único sem residência fixa, no momento.  Além disso, eu gosto de conceder pausas de descanso a eles sempre que tenho oportunidade.

Wortraub: Este é “apenas” o seu terceiro disco e vocês se reinventaram do disco um para o dois. Então por que é necessário se tornar o seu alter ego “The Black Parade”?
Gerard:  Pela mesma razão que o disco um e o dois eram tão diferentes, por conta da reinvenção. Tornou-se necessário ser uma nova banda e nós realmente queríamos fazer isso em um cenário teatral. O objetivo de se tornar “The Black Parade” era proporcionar uma saída teatral para o conceito; ter uma encarnação física dele. O truque era que isso nos permitiria levá-lo a uma casa de shows pequena, também. Quando você faz um disco conceitual, você quer trazê-lo aos seus shows ao vivo igualmente. Com o My Chemical Romance e o disco “Three Cheers”, nós só começamos a desenvolver esse conceito visual em “Helena” com as janelas de igreja e o videoclipe, e assim por diante, mas nós não pudemos trazer esses elementos ao palco. Como poderíamos fazer isso? Mas com o “The Black Parade” queríamos fazer isso ao vivo também, o conceito e tudo mais. Então decidimos sobre o alter ego em um sentido teatral.

Wortraub: Então é esta ideia peculiar de sempre estar em constante mudança?
Gerard: Exato. E isso também instiga as pessoas a ficarem se questionando. Evita que sua banda se torne parte do problema da redundância, constantemente repondo as mesmas ideias. Portanto, você precisa da reinvenção também para si mesmo. 

Wortraub: Então você prefere frustrar expectativas do que cumprir com a redundância?
Gerard: Eu prefiro exceder as expectativas do que cumprir com a redundância. Ser redundante não faz bem a ninguém. O que você tem que perguntar a si mesmo, como músico, é o que há de especial sobre a minha banda. Para nós não é a agressividade em si, não é a velocidade. É o desejo de se expressar. É a maneira especial com que abordamos as coisas. Nosso modo de encarar, digamos, o folclore russo ou, no nosso útimo disco, a maneira de encarar o cabaré. Acho que grande parte da arte é interpretação. Para nós, o que nos torna especiais não é a agressividade, não é a velocidade, mas a forma como abordamos as coisas como artistas. 

Wortraub: Você mencionou o folclore russo, mas também há outros elementos no disco como folclore judeu, música carnavalesca, temas de shows e até mesmo uma valsa. De onde vem este elemento carnavalesco, estas influências?
Gerard: Eu cresci com uma dieta saudável de músicas tema e filmes como Cabaré, musicais em geral. Foi daí que essas coisas vieram, e essas são as coisas que me atraem. Além disso, alguns dos meus artistas favoritos, como Tom Waits ou Nick Cave, têm todos se encantado com esse tipo de música. Ou Alabama Song do The Doors que é obviamente um cover, mas sua participação de Kurt Well foi realmente inspiradora. Eu sei que este era um som que precisava ser reinterpretado; capturado. 

Wortraub: Mas este disco tem ainda mais influências sobre ele. Como um disco conceitual, ele está alinhado com “Ziggy Stardust” de David Bowie, “A Night Of The Opera” do Queen e “The Wall” do Pink Floyd. Por que você escolheria um tema conceitual para o disco?
Gerard: Porque todos esses discos nos tocaram antes mesmos do punk rock; esses foram discos que realmente nos pegaram. Também há este grau de inventividade que aconteceu por volta daquela época. Nós não queríamos algo similar, mas queríamos recapturar alguma daquela majestade; daquela teatralidade que eles possuem. E estes três discos que você acabou de mencionar são especificamente importantes. Vemos o disco menos como uma ópera rock, que seria algo como “Tommy”, mas mais como um conceito de rock como é o “The Wall”. O “Night At The Opera” é mais um disco temático do que conceitual, e é isso que eu gosto nele. Você pode ouví-lo como um conceito, mas também como canções individuais, e ainda faz sentido. A acessibilidade e a natureza eclética de “Night Of The Opera” combinada com o tema forte e os conceitos de “The Wall” são o que entraram no “The Black Parade”. 

Wortraub: Você mencionou influências de rock progressivo, mas você é também de uma era post-punk. Essas duas cenas eram historicamente opostas uma à outra. Como você combina essas duas abordagens totalmente opostas?
Gerard: Nós só fizemos isso. Não foi algo consciente. Nós saímos de uma era post-punk e crescemos em pequenas cenas punk que existiam em New Jersey. Isso nunca vai deixar o nosso DNA, mesmo que nós nunca tenhamos sido uma banda punk. Eu sempre senti como se nós fôssemos uma banda de rock que tinha raízes em uma criação adolescente em meio à cena punk. Acho que simplesmente combinamos tudo o que achamos bom em relação à música, mesmo que seja uma visão oposta. Nós vamos fazer com que elas funcionem, se combinadas. 

Wortraub: Você mencionou influências de David Bowie que é o mestre em se reinventar. Isso é algo que você aspira, uma constante mudança?
Gerard: Um pouco, sim. Não sei o quanto dessas mudanças ele fez para outras pessoas ou para si mesmo. Sinto que, talvez, ele tenha feito todos esses processos de se reinventar para si mesmo. Este é o motivo pelo qual nós fazemos isso, para nos mantermos interessados e desafiados. É um desafio constante criar uma persona icônica e depois destruí-la, porque você começa tudo de novo do zero. Poucos artistas querem começar do zero. Por isso que eu gosto disso, do desafio de começar do zero. Mantém você interessado e o seu cérebro em movimento. 

Wortraub: Então cada disco é uma tabula rasa para você, um espaço novo a ser preenchido?
Gerard: Sim e é por isso que existem tantas diferenças entre os discos. A única conexão entre os três são as pessoas que os fazem, o que nos dá o nosso som. 

Wortraub: O disco tem um elemento bastante orquestral, bem clássico. Isso é uma mistura natural ao rock? Quero dizer, isso foi feito pelo Queen no “A Night At The Opera” e até mesmo, ultimamente, pelo Metallica. Por que isso acontece? Será que os dois estilos tendem a ser combinados?
Gerard: Eu acho que sim, mas acho que depende do artista, também. Se você tem artistas que tendem à melodia, essa mistura funciona muito bem. Por exemplo, no Queen, com tanto movimento e melodia, ela se encaixa perfeitamente, Nós tentamos fazer o movimento dessa vez com a melodia, não tanto com a rapidez, mas ainda há rapidez o suficiente (das guitarras) no disco. 

Wortraub: Vamos falar sobre o conceito, então, é sobre a morte de uma pessoa – o paciente – que passa por suas memórias…
Gerard: … Eu gosto quando, em certa medida, é necessária interpretação. Eu gostaria que o ouvinte sentisse que o paciente ou está em seu leito de morte durante o disco ou que ele está morto e nós estamos na vida após a morte. Gosto que seja uma opção para ele permanecer vivo e ter uma segunda chance em sua vida. É a história de um homem morrendo tragicamente jovem aos trinta anos. Ele está refletindo sobre medo, arrependimento, dor, erros, e toda a sua vida, depois encontrando a The Black Parade e esses outros personagens que também possuem suas próprias histórias.

Wortraub: Como você organizou as canções? Não é um relato cronológico sobre a vida dele, parece um pouco cinematográfico…
Gerard: Sim, há uma abordagem mais cinematográfica para a construção do disco, assim como um bom fluxo. Queríamos que as faixas só se movessem com alguma razão, devido ao arranjo musical. Se tivéssemos colocado as canções cronologicamente, poderia soar estranho. “Welcome To The Black Parade” teria que ser mais à frente. Mas quando essa música entra no disco, é como apertar o reset. Eu gosto disso. Há muita coisa acontecendo, mas uma vez que “Welcome To The Black Parade” começa, é como se o disco estivesse começando de novo. Traz uma sensação de renovação.

Wortraub: Em relação ao seu conceito eu tive que pensar em Emily Dickinson que escreveu poemas sobre isso… O momento em que a morte chega e ela imaginou uma espécie de liberdade de ambos os mundos naquele momento… É esse o ponto de vista do qual The Black Parade é escrito?
Gerard: Sim, isso é fantástico. Nunca pensei nisso dessa maneira, mas no momento em que as canções um e dois se conectam, é quando você atinge uma linha plana. E, sim, talvez você como ouvinte esteja naquele ponto transcendente em que você seja capaz de olhar para todas as outras canções do disco desse ponto de vista. 

Wortraub: Isso faria com que “Famous Last Words” seja o ponto de decisão final para partir com a morte…
Gerard: … Ou, de outra forma, para ter uma segunda chance ou renascer. Eu gosto de pensar que ele teria uma segunda chance na vida.

Wortraub: … Mas uma segunda chance não tem necessariamente que significar viver. Pode ser ter algum tipo de consolo com a morte e depois seguir para o que está por vir.
Gerard: Certo. Depende da opinião das pessoas sobre o que acontece quando se morre. Se existe ou não um céu. Se você está esperando que exista…

Wortraub: Isso é algo que eu gostaria de saber sobre você. O que você acredita que acontece depois que a gente morre?
Gerard: Eu, definitivamente, gostaria de acreditar que quando você morre existe algo mais. Mas é um assunto difícil, porque há uma parte de mim que diz: “Bem, então qual é o ponto de tudo isso, então? Por que nós existismos?”. Mas outra parte de mim diz: “O objetivo é estar aqui e fazer algo especial. Você precisa ser a melhor pessoa que puder.” É esse o jeito que eu gosto de pensar. Espero que exista alguma coisa além. 

Wortraub: Por que você escolheu um tópico tão difícil quanto a morte para um conceito de um disco?
Gerard: O que nos fez escolher um tema tão grande quanto esse foi ter vivido anos difíceis e ter que crescer rápido demais, porque nós nem completamos trinta anos ainda e já tivemos difíceis lições de vida para aprender. Isso faz com que você se torne realmente triste com a sua vida; faz com que você questione o porquê de estar aqui. Especialmente como artista. Por que estamos aqui, como banda? Estávamos perguntando a nós mesmos que bem nós estamos fazendo?

Wortraub: Em seu DVD está uma biografia que mostra que você passou por uma fase de autodestruição que parecia bem intensa. Quão perto “do limite” você estava?
Gerard: Bem perto. Não quero parecer muito dramático, mas eu estava pensando sobre suicídio e sobre a morte.  Mas foi isso que me despertou. Eu tinha que parar o vício. Por sorte, o vício não era tão poderoso e eu o venci. Mas antes de tudo isso, tudo ficou muito ruim, a pressão sob qual estávamos, de repente a banda estava realmente grande e eu estava muito próximo do meu limite. Acho que cheguei mesmo no meu limite. Do tipo quando você está pensando em fazer uma viagem ao Japão e não voltar, então você não empacota nada. 

Wortraub: Então você já lidou com a morte antes, só que neste caso você está lidando com ela musicalmente e liricamente…
Gerard: Sim, dessa vez é sobre como enfrentá-la, como vê-la com verdade. É engraçado como um disco que tem tantas camadas, tanta produção, trajes, rostos e máscaras que usamos, é a maior verdade que já fizemos. É quase como se, quando colocamos as máscaras e os trajes, ficasse mais fácil de encarar a verdade.

Wortraub: Há também alguma desvantagem em se transformar em um alter ego?
Gerard: Acho que o lado negativo é o risco de forçar demais. Você não quer que isso seja apenas um truque. Você tem que ser muito cauteloso. Se você quer um alter ego, ele deve simplesmente servir a um propósito e não deve ser forjado. Por exemplo, não queríamos dar entrevistas sendo o nosso alter ego. Isso pode soar artificial, mesmo que possa soar divertido no futuro. 

Wortraub: E quanto ao risco de perder você mesmo?
Gerard: Sim, eu acho que tem isso também se você não for cuidadoso. Acho que Bowie, por exemplo, montou uma linha fina; um ato de equilíbrio perfeito. Mas você pode minimizar esse risco se você entrar nele de forma muito consciente. 

Wortraub: Você também declarou que queria mudar fisicamente para “o paciente” a fim de se tornar seu alter ego, razão pela qual você pintou seu cabelo de loiro. Qual é a sensação de ser o paciente?
Gerard: É uma sensação muito intensa.  Eu me vi como um membro da The Black Parade, mas quando eu fiz os vocais, eu realmente queria canalizar aquele personagem, porque aquele personagem específico tem muito a dizer. Há outros personagens falando com a morte encarnada ou a Mother War, há todos os tipos de personagens se comunicando, um médico, a enfermeira…. Mas eu queria estar próximo ao personagem principal e, de qualquer forma, eu parecia estranho porque eu tinha ficado tão consumido pelo disco, dormido apenas umas três horas por dois meses. Eu fiquei tão doente de qualquer maneira que cortar e tingir o cabelo era apenas o último pedaço de completar a transformação.

Wortraub: Bem, eu tenho que perguntar sobre alguns rótulos que foram colocados em você com o “Three Cheers”. Você foi bem emotivo e foi rotulado como “emo”, mas com esse disco você foi ainda mais longe. Esse disco é melodramático, uma overdose de emoção… Por quê?
Gerard: Nós queríamos cruzar essa fronteira e quebrar esse rótulo. O engraçado sobre eles é que nós nunca fizemos parte dessas cenas, mas também, foi um prejuízo para nós porque nós nunca seríamos agendados para shows. Éramos considerados uma das maiores bandas emos do mundo, mas ninguém queria marcar shows com a gente por conta disso. Por isso tivemos que lutar, dormir no chão e agarrar qualquer show que pudéssemos porque não usamos jeans, camiseta de banda e cabelo castanho desgrenhadinho. Sermos rotulados assim é absurdo. Mas voltando à sua pergunta: precisávamos ser melodramáticos da melhor maneira, mais do que dramáticos. A melhor maneira em termos de teatro, era o que queríamos fazer. Autoexpressão. Exagerado da melhor maneira possível. Esse disco é totalmente exagerado, e poderia ser classificado como melodramático porque eu adoro esse rótulo. O melodramático é uma forma definitiva de autoexpressão. Colocando as mãos na cabeça, “oooooh” *faz o gesto teatral de uma mulher desmaiando*. Eu adoro esse drama, é incrível. Foi isso que nos atraiu nesse disco. É tão dramático, intenso. Intenso ao ponto de acender o nosso fogo. Trata-se de obter reações. Nesses dias em que tudo é sempre o mesmo, qualquer reaçào é boa. 

Wortraub: Por último, algo que você deve ser perguntado em toda entrevista porque já foi dito antes: você tem Liza Minelli cantando no disco?
Gerard: Eu sou um grande fã porque ela é a artista favorita da minha avó. Além disso, o disco é bastante burlesco, e com uma pegada cabaré. E ela é a fonte, se você cair de cabeça no assunto, quem é mais cabaré que Liza Minelli? Ela estava no filme. Então ela personifica essa ideia, ela é o Cabaré, Berlin, Kurz Wiel e tudo mais. E eu havia imaginado o The Black Parade como sendo de Berlim na minha cabeça. Eu me lembrei disso do filme. Foi o que eu fiz com todas as influências. Não escutei “A Night At The Opera” ou “The Wall” enquanto eu estava compondo, eu apenas me lembrei deles. Eu também me lembrei do filme. Então fui direto à fonte e pedi para a Liza cantar. Ela recebeu o “Three Cheers” de nós, ouviu, amou e disse: “Eu topo”. Estávamos gravando ao vivo via sound board, em L.A., e ela estava em NY. Imagine Liza Minelli e depois aumente vários níveis. Ela foi maravilhosa, engraçada, com um ótimo senso de humor sobre si mesma. Ela criticou um monte de merda nossa [N.T: de brincadeira]. Ela disse: “Gerard, você pensa que está bravo, mas não está. Você é apenas fofinho e um pouco assustado, mas não bravo.” Ela me criticou, “você está só fingindo que é assustador, mas não é”. Ela viveu muitas coisas, foi isso que nos fez escolhê-la. Nós precisávamos de uma sobrevivente. 

O que você achou dessa entrevista?

Beijos mafiosos,

MT.

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