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Tradução da Live-Entrevista de Gerard Way: Unwound & Unplugged

Entrevistas

Em uma rara aparição, o vocalista do My Chemical Romance falou sobre seu afastamento das redes sociais, saúde mental e a fama. 

Tradução: Marina Tonelli e Amanda Bittencourt
Revisão: Amanda Bittencourt

Aparentemente teremos que ficar atentos com aparições repentinas dos membros do My Chemical Romance. O vocalista Gerard Way que não fazia uma aparição pública desde o show do Return, participou de uma live nesta terça-feira (02/03) chamada Unwound & Unplugged: A Mental Health Benefit Concert & Panel (Destemido e Desplugado: Um Concerto sobre Os Benefícios da Saúde Mental & Painel). 

Way foi muito sincero sobre seu afastamento das redes sociais, a maneira com que prioriza sua saúde mental e como a fama repentina do My Chemical Romance o afetou, principalmente, na era Danger Days. 

Confira a tradução na íntegra da conversa que o vocalista teve na live de ontem: 

Agora temos a companhia de Gerard Way, cantor, compositor e quadrinista. Muitos de vocês conhecem Gerard como o vocalista e cofundador da banda de rock My Chemical Romance. Mas ele também é cofundador da Young Animal, um selo da DC Comics. Só que aqui, em minha casa, ele é o escritor da série de quadrinhos vencedora do Prêmio Eisnerd “The Umbrella Academy” que foi adaptada como série para a Netflix. Minha família assistiu religiosamente, então obrigado, Gerard, por conversar comigo e por me fazer parecer legal na frente da minha esposa e dos meus filhos. 

Dr. Mike Friedman: Então, Gerard, vamos começar com: como você tem se sentido durante a pandemia? 

Gerard: Oh, cara, wow. Eu acho que me sinto provavelmente como muitas pessoas, sabe, passando por muitas emoções. Estávamos prestes a sair em turnê quando a pandemia atingiu o seu ápice. Então, obviamente, como todo mundo, tipo, nossas vidas meio que mudaram completamente e, você sabe, há aquele período de ajuste, quero dizer, há aquele momento no início do completo desconhecido e você fica tipo: “o que está acontecendo?”. E, coisas como: “poderemos parar com essa situação?” ou “poderemos nos livrar do vírus? Podemos isolá-lo?” Todo esse tipo de coisa, então, sabe, houve um período de não saber o que estava acontecendo, não saber ao certo e também nós olhamos para o mundo e vemos – assistimos, tipo – como a verdade é como uma estrada de duas mãos nesses últimos quatro anos* (nota: *Gerard está se referindo ao Trump e todos os escândalos sobre fake news nos Estados Unidos). Você não sabe no que acreditar. Você não sabe de onde está vindo aquele fato… Quero dizer, acho que você poderia ter confiado em muitas fontes, mas, sabe, houve dias muito difíceis para minha família e eu, todos nós. Há alguns dias em que isso simplesmente te atinge, isso que está acontecendo, e você fica tipo “oh meu deus, não posso acreditar que estamos nessa situação”, sabe?

Dr. Mike Friedman: É interessante a forma com que você está falando sobre a pandemia, porque eu consigo ver os paralelos dela com as doenças mentais, sabe? Começa com uma espécie de questionamento parecido: “isso é repentino e inesperado, não gosto” e o primeiro pensamento que todos têm é: “posso me livrar disso?”. Sabe, depois vem esse fator sobre o qual você estava falando sobre a confiança nas fontes de notícia, tipo, “em quem posso acreditar?” e “meus amigos me apoiam? Será que eles entendem? Será que os médicos entendem?”. E tentar chegar àquele lugar onde você se sente de alguma forma aconchegado ou estável, em um contexto tão inacreditavelmente instável, se parece muito, penso eu, com o que as pessoas com doenças psicológicas passam o tempo todo. 

Gerard:  Sim, sim, com certeza. Eu concordo com isso. Sim, permanecer estável, esse é o objetivo, você sabe, ser equilibrado e coisas assim. Eu estive na terapia, aliás, faço terapia, provavelmente – acho que até este momento – há uns oito anos e durante toda a minha vida… Acho que desde que entrei na casa dos vinte – que foi quando eu comecei a ver um terapeuta pela primeira vez – porque cheguei a um ponto em que percebi “tudo bem, algo não está certo”, sabe? Este tipo de depressão que estou passando, este “não sair da cama”, este “não participar da vida”, a terapia deve ajudar nisso. Então comecei a terapia há muito tempo e a banda meio que estourou e ficou super ocupada, então eu fiquei muito anos afastado das sessões, provavelmente nos anos em que eu mais precisava delas. Em meio a este mundo selvagem, sabe? Mas foi quando chegou o fim da banda que eu… Precisei, eu precisava de terapia, eu realmente precisava. Eu tinha, sabe, tanto para processar, tanto para trabalhar em mim, tanto para descobrir, conhecer sobre eu mesmo e tantas coisas que eu precisava fazer, então tenho trabalhado duro na terapia e sou um grande apoiador da terapia da fala, sabe, um grande apoiador mesmo. A medicação é um outro fator totalmente diferente e, como eu sei, funciona para algumas pessoas, mas sei que não funciona para outras e também há os efeitos colaterais, então, eu sou muito cuidadoso com a medicação, mas ela me ajuda e me mantém equilibrado. Já a terapia de conversação, acho que seja a coisa mais importante. 

Dr. Mike Friedman: Sabe, uma das coisas que é tão interessante na música para as pessoas que não são artistas é que é a primeira vez que temos a chance de, de alguma forma, desestabilizar, nos aventurando em estados emocionais com os quais talvez não estejamos familiarizados ou que talvez nos fizessem sentir desconfortáveis. Quando você está falando de terapia, estou sentindo que existe um conceito muito semelhante que é a ideia de, até certo ponto, quando você está em terapia, você precisa se desestabilizar, começar a falar sobre coisas que são difíceis, sabe, e quando você está fazendo algo criativo, por definição, vocês estão fazendo coisas fora da caixa do que as pessoas normais estão pensando – pessoas que são os fãs, digo. E como você sabia quando entrar naquele espaço desestabilizador, terapia versus criatividade, e que depois fosse como… “Espere um segundo, recue um pouco e volte pra realidade”?

Gerard: Bem, em termos de criatividade eu sinto que, pelo menos para mim, eu faço isso quando preciso, sabe? A arte começou como uma terapia para mim e especialmente a banda foi como uma mais ou menos. Foi definitivamente para mim a terapia da arte, sabe? Mas o que acontece é que você chega a um ponto meio cedo demais, onde você começa a perceber que ao ir para aquele lugar escuro você acaba com alguns de seus materiais mais poderosos. Mas uma das coisas mais perigosas que eu acho, para os artistas, é meio que ficar preso nessas armadilhas de que você precisa ficar chateado e miserável, deprimido e todos esses sentimentos ruins. Você precisa disso para criar arte e levou muito tempo para que eu percebesse que eu não preciso de tudo isso para criar arte e que eu poderia chegar a gostar das coisas que eu fiz, e eu acredito que mais ainda, quando eu estivesse mais estável, sabe?

Dr. Mike Friedman: Uma das coisas que você está dizendo agora que entra nessa ideia da estabilidade e fazer arte, mas não poder estar em turnê é: sua música ainda está se conectando com as pessoas e, como você e eu já conversamos, a Umbrella Academy certamente está se conectando com a minha casa. E como você interage com a tecnologia agora, com essa mesma coisa em mente, tipo, “Eu quero me conectar com as pessoas, mas às vezes pode ser demais”?

Gerard: Eu não interajo muito com a tecnologia, sabe? Eu deixei o Twitter há uns cinco anos e foi realmente, para, sabe, beneficiar a minha saúde mental. Minha saúde mental melhorou drasticamente depois que eu parei de usá-lo. Eu tenho todo tipo de pensamento sobre tecnologia e coisas assim… Então, eu tenho um Instagram e, ocasionalmente, eu uso isso, mas, você sabe, basicamente a maneira como eu comecei a ver as coisas como o Twitter era…na verdade, todas essas corporações e provavelmente isso se aplica ao Facebook e outras redes sociais também. As empresas precisam de engajamento e é disso que se trata, sabe, eu comecei a perceber que o conflito era uma forma realmente lucrativa de engajamento para essas empresas e é por isso que elas passaram tantos anos sem fazer nada sobre assédio e coisas do tipo. E falando de assédio, por quê eles não estavam fazendo nada, digamos, com os neonazistas ou pessoas assim. Então, sabe, eu percebi que é um tipo de jogo e eles precisam desse conflito e o conflito é o que os impulsiona, muito parecido com as notícias da mídia, eles precisam que você tenha medo, porque é esse tipo de coisa que gera mais engajamento. É isso: engajamento e conteúdo. E quando você percebe que, sabe, o conflito é o engajamento e é também o verdadeiro conteúdo, eu não vejo nenhum ponto em usar essa rede social. 

A partir daqui eles começam a conversar com a Romy e a Julien, então a partir deste ponto só terá as traduções das respostas do Gerard:

(…)

Quando eu digo, tipo, que me desliguei em grande parte das redes sociais, eu percebo que estou dizendo isso desde um lugar muito privilegiado, sabe, tenho um público que não precisa ouvir de mim (nota: que ele lançou algum quadrinho, disco, etc.). Basicamente, eu cheguei a um ponto em que eu decidi, tipo, vou ser um canal de informação para fora e não quero absorver nenhuma. A verdadeira razão pela qual fiz isso, não foi apenas pela minha saúde mental, mas foi para manter a arte muito pura e meio afastada de qualquer tipo de influência, boa ou ruim. Sabe, alguém diz algo bom sobre seu trabalho, vai influenciar você; alguém diz algo ruim, também vai. Então, eu estava tentando manter as coisas mais puras possíveis, talvez até correndo o risco de falhar, quem sabe, porque eu estava realmente afastado, tipo, do que estava acontecendo socialmente. Mas eu não achava que estava perdendo nada. (…) A coisa com que mais eu tive que lutar contra foi com o fato de que se você não usa as redes sociais, parece que você não existe. 

(…)

Gerard: Basicamente se resumiu a “ok, o que é mais importante?”. Sabe, dizer às pessoas que tenho uma nova história em quadrinhos ou minha saúde mental? E eu disse: “sabe de uma coisa? Minha saúde mental é mais importante” e se isso significa que menos pessoas lêem meus quadrinhos ou menos pessoas escutam minha música, eu estou bem com isso, sabe?

(…)

Gerard: Não vejo isto falado com frequência e talvez eu seja uma frágil e delicada flor ou um floco de neve, mas achei a fama extremamente traumática. Eu achei que depois de toda a experiência de estar no My Chemical Romance – e ela meio que explodiu  de uma forma que nunca foi intencional – que eu precisava dos últimos sete anos para processar essa experiência, sabe, porque ela terminou fazendo com que eu não quisesse estar perto de pessoas, fazendo com que eu não quisesse muito estar no mundo exterior. Isso fez com que eu me isolasse, sabe? Na estrada era extremamente difícil para mim… Como hotéis, como se o quarto de hotel acabasse sendo este tipo de lugar escuro e quando chegávamos a eles, eu basicamente fazia uma barricada lá dentro e nunca saía. Eu não deixava, sabe, a limpeza do hotel entrar, e eu tinha, tipo, as cortinas fechadas e era apenas este lugar realmente frio, escuro, e era assim que eu existiria na estrada, quando eu estava lutando durante o Danger Days com, tipo, algum tipo de depressão e ansiedade muito ruim.

(…)

Não é algo exclusivo da gente, tipo, em nossas vidas. Independentemente de qualquer sucesso que tenhamos tido ou de qualquer arte que tenhamos feito; qualquer atenção que tenhamos recebido, sabe, tipo, é algo com o qual acredito que todos podem se relacionar (…) Eu acho que todos passam por isso. “Por que eu compartilho?” e “quanto eu dou de mim mesmo”? Isto é algo que todos experimentam com as mídias sociais, eu acho. 

Uma entrevista dessa, bem Wayzística, estávamos morrendo de saudades, não é?

Das Gerard Stans do FYDBR,

MT e AB.

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