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A Summoning: Uma análise das referências do vídeo promocional da turnê norte americana do My Chemical Romance

Editorial

Hoje completa um ano do lançamento do vídeo A Summoning…, um curta metragem que anunciou a turnê – até então cancelada devido à pandemia do Covid-19 – que marcaria a volta oficial do MCR aos palcos.

Texto por: Gabriela Reis
Colaboração: Marina Tonelli e Malena Wilbert
Revisão por: Marina Tonelli

29 DE JANEIRO DE 2020, SÃO PAULO

Era um dia de verão em São Paulo, o sol brilhava e poucas nuvens salpicavam o céu azul acinzentado entre os arranha céus. Ninguém sabia o que 2020 se tornaria até então, e, para mim, era apenas mais um dia normal de trabalho. O ar poluído e quente da Faria Lima – uma das avenidas mais movimentadas da capital paulista – invadiu meus pulmões assim que eu saí do metrô, a caminho do ofício.

O meu coração palpitava conforme as batidas incessantes dos meus fones de ouvido e minha mente já vagava pelas memórias inesquecíveis do Return, por mais que já houvesse se passado um mês. Aquele era o dia do grande anúncio do MCRXX, que, até então, era uma incógnita para todos nós do fandom. O Twitter estava insandecido, as teorias borbulhavam em cada tweet e a hashtag com o nome do My Chemical Romance estava praticamente brilhando aos nossos olhos.

O vídeo só sairia ao meio dia – no horário de Brasília -, e como a pessoa ansiosa que sou, eu já estava metralhando a Marina (nossa outra redatora aqui do site) com 1001 mensagens, bem similar ao surto que tive no dia 31 de Outubro do ano anterior, mas um pouco mais certa de que viria algo bom dali. 

Metade do fandom estava esperançoso, esperando um disco novo com novos conceitos e novos personagens, afinal, não é de qualquer banda que estamos falando, não é mesmo? Conforme o horário se aproximava, a adrenalina aumentava a cada clique e tweet enviado. O coração de todos estava batendo num ritmo só, principalmente quando o timer no YouTube apareceu na tela. 

Era possível sentir, da mesma forma como sentimos no Return, a energia que emanava em cada canto do mundo simultaneamente. Todos esperando algo icônico, algo que traria a esperança de volta em nossos corações de ver nossa banda favorita ao vivo mais uma vez – ou pela primeira vez, como é o caso de alguns (eu inclusa). 

Quando o vídeo começou, todos os corações perderam mais de uma batida. Os olhos se encheram de lágrimas e elas escorreram involuntariamente, porque era real, estava acontecendo.

O garoto do vídeo é a representação de todos nós voltando para casa; voltando para os braços de quem sempre nos acolheu. Estávamos todos correndo ao mesmo tempo para os braços de quem nos fez sentir em casa, durante tantos e tantos anos.

Era um abraço apertado de quem não víamos há muito tempo, de quem achávamos que tinha sumido entre a escuridão dos backstages e as luzes ofuscantes dos holofotes dos palcos. Literalmente, a volta dos que não foram.

Esteja pronto para adentrar no Hotel Bella Muerte e entender o significado de cada pequeno detalhe colocado estrategicamente para, apenas, nos fazer chorar. Esteja pronto para entender os conceitos e o amor existente por esses quatro rapazes de Jersey, que expurgaram todos os sentimentos possíveis em seus anos de carreira. 

Esteja pronto para conhecer intimamente o My Chemical Romance.

O vídeo começa com um garoto – ainda sem mostrar seu rosto – em um plano mais próximo quando o mesmo amarra os tênis. Podemos ver que ele usa um Converse All Star surrado (item que faz parte do guarda-roupa de qualquer emo que se preze). Em seguida, podemos ver no canto esquerdo do vídeo uma guitarra branca do modelo Les Paul, com adesivos em seu inferior onde podemos ler o nome “Pansy”

A guitarra é uma referência a mesma usada por Iero durante a era Revenge, como podemos ver abaixo:

Imagem: Reprodução Warner Music/Reprise Records

A câmera então acompanha o garoto e podemos ver um olho desenhado em um painel com várias coisas penduradas. Este olho é o mesmo presente no novo logo usado pelo MCR durante os stories misteriosos que antecederam o Return. Também podemos ver um caixão com um fundo vermelho, um elemento já muito usado pelo My Chem em outras ocasiões. Outro detalhe interessante é o pentagrama desenhado, mostrando uma referência à bruxaria. 

O pentagrama, ou pentáculo, teve muitos significados ao redor do mundo, sendo utilizado (e comumente reconhecido) como um símbolo relacionado à bruxaria moderna ou à religião Wicca – por mais que sua origem venha de séculos atrás. A estrela de cinco pontas que forma o pentagrama simboliza a união dos quatro elementos ao quinto, chamado por alguns de éter. Ele também pode ser considerado para alguns como a representação do feminino (por meio da deusa Afrodite).

Imagem: Reprodução Warner Music/Reprise Records

Podemos ver então um pouco da cozinha do jovem enquanto ele vai fazer um cafébebida favorita do vocalista, Gerard Way. É interessante pontuarmos que a caneca usada pelo garoto, mostra a estampa: NJ DEP. OF CORRECTION, que em tradução livre seria: “Departamento de Correção de New Jersey”. Sabemos que “You Know What They Do With Guys Like Us in Prison”, faixa presente no disco Three Cheers For Sweet Revenge (2004), é uma história narrada dentro da cadeia, uma referência que faria muito sentido se olhada com mais atenção.

Enquanto seu café fica pronto na cafeteira, o garoto vai então para seu armário onde podemos ver algumas jaquetas e blusas penduradas. Olhando com atenção, vemos a jaqueta usada por Jet Star (personagem interpretado durante a era Danger Days pelo guitarrista solo Ray Toro) – com a bandeira dos EUA colada nas costas e também com a aranha símbolo do disco Danger Days: The True Lives Of The Fabulous Killjoys (2010). Há também uma jaqueta muito similar às usadas pela banda durante o show no México do DVD The Black Parade is Dead! (2008): o famoso uniforme marcial com botões dourados.

Ele então passa por um cabideiro e podemos ver de relance um pijama de esqueleto bem parecido com o pijama que Way chegou a posar durante alguns shows da turnê do Revenge. Em seguida, nosso personagem principal durante o curta se veste com um manto preto, aparentemente de cetim, o mesmo usado pelos personagens mascarados do pequeno vídeo também promocional“An Offering” (que convenhamos, é papo pra outra análise).

Enquanto ele fecha a janela, para impedir que a claridade entre – vampiros não gostam de claridade, não é? – podemos ver uma máscara de gás pendurada em uma das paredes. Uma das personagens do conceito presente no disco The Black Parade, usa uma máscara de gás.

Em seguida, o rapaz vai até uma pilha de vinis e escolhe – dentre alguns discos presentes – o I Brought You My Bullets, You Brought Me Your Love (2002), disco de estréia da banda e um dos mais icônicos entre os fãs. Abaixo, podemos ver que ele também possui em sua pilha a coletânea May Death Never Stop You (2014), que conta com a faixa inédita “Fake Your Death” (canção que inspirou o nome deste belo site que vocês lêem hoje).

Após “Romance”, a primeira faixa do disco encher nossos ouvidos bem baixinho, a sonoplastia faz o trabalho impecável de captar exatamente o momento em que o fósforo é riscado para acender as velas no altar do garoto. Neste pequeno santuário podemos ver várias caveiras e algumas fotos antigas em porta-retratos. A impressão que passa é uma referência leve ao feriado mexicano “Dia de Los Muertos”, em mais uma referência ao DVD ao vivo da banda. 

Ainda neste mesmo altar, podemos ver de relance a foto de um cachorro – aparentemente a Sweet Pea, cachorrinha de Frank que já faleceu, mas que era muito presente em suas redes sociais – e também a “Our Lady of Sorrows” (ou em português, a “Nossa Senhora das Dores”), em mais uma referência ao Bullets, que possui uma faixa de mesmo nome. Quando ele passa de novo para levar a vela para outro lugar, podemos ver um pequeno quadro com o desenho de Gerard Way que está presente dentro do disco “Revenge”.

Arte por Gerard Way. Reprodução: Warner Music/Reprise Records

A câmera dá mais um close e podemos ver uma foto de uma garota, alguns outros rostos – incluindo uma foto muito parecida com o avô do Frank. Em uma das fotos, vemos Lauren Valencia, a manager da banda, que morreu de câncer em 2019. Gerard escreveu sobre ela em suas redes sociais e também a homenageou durante o show do Shrine. Podemos ver também outros cachorros e uma outra imagem católica no canto direito da tela.

Imagem: Reprodução Warner Music/Reprise Records

No chão, o garoto tem um pentáculo (sim, ele mesmo) desenhado com tinta preta. Com todos os CDs da banda posicionados em cada ponta e com uma tábua ouija posicionada, ele ajusta as velas de forma em que fiquem uma acesa para cada disco. Para quem não sabe, a tábua ouija é uma das maneiras de se comunicar com mortos. Ela consiste em um alfabeto de A a Z, com números de 1 a 0 em baixo e as palavras: “sim”, “não”, “olá” e “adeus”. Uma das camisetas oficiais do My Chemical têm o mesmo desenho dessa tábua: 

Tábua Ouija original: Mundo Estranho | Estampa: Hot Topic/Divulgação

A origem deste tipo de comunicação com os mortos é bem antiga e sua popularidade foi grande durante muito tempo, incluindo sua mística. No Brasil, a brincadeira do copo e a do compasso trouxe muitas polêmicas durante algum tempo, e eram relacionadas a espíritos ruins e até mesmo bruxaria. O mesmo ocorreu com este jogo de tabuleiro que virou até mesmo tema para filmes de terror e horror durante muitos anos, ainda persistindo no imaginário das pessoas.

Enquanto ele “brinca” com o tabuleiro, a TV desligada a sua frente começa a demonstrar certa estática e os símbolos já conhecidos por nós do Return: Clareza, Coragem, Sacrifício e Devoção aparecem na tela, junto com o outro símbolo também presente na comunicação nova da banda. O ponteiro com uma serpente desenhada em sua superfície começa então a se mexer sozinho. Em um breve take, vemos a caneca caindo sozinha no chão e se quebrando, com o café dentro dela.

O símbolo então se forma na tela e o ponteiro forma a palavra “corra”. Em seguida, batidas fortes são ouvidas na porta. Ao olhar pelo olho mágico, o garoto se depara com três draculóides em sua porta, um dos vilões do universo do Danger Days. A trilha sonora então toma um tom um pouco mais tenso, com algumas distorções, mostrando certo desespero. O garoto então se depara com uma porta vermelha, com símbolo da vela, que simboliza clareza

Na mesma hora em que ele corre para a porta, os dracs conseguem arrombar a entrada. Podemos ver no chaveiro que está pendurado uma pequena inscrição: “Hotel Bella Muerte, 519”, com uma figura da morte segurando uma foice. A referência é do disco Revenge, diretamente da faixa “The Jetset Life Is Gonna Kill You”.

Ao adentrar pela porta, nosso herói (que representa os fãs da banda que pediram para que eles voltassem, e enfim, os evocaram de volta à vida), encontra um grupo de vampiros em um bar, clara referência a “Vampires Will Never Hurt You”, da era Bullets. Na parede pichada atrás do garoto, podemos ver duas coisas que chamam a atenção, as incrições “XoXo”, que faz parte da assinatura de Gerard Way e a frase: “Saints protect her now”, uma quote direta a faixa “Interlude”, do disco Revenge.

Imagem: Reprodução Warner Music/Reprise Records

Ao passar por uma TV ligada no bar, podemos ver que a câmera foca rapidamente no que está passando na tela, que é nada mais nada menos que um trecho do clipe de “The Ghost of You”, da era Revenge. Quando os vampiros do bar notam que ele é um humano não pertencente àquele cenário, podemos ver os draculóides novamente, e na parede onde eles aparecem, vemos mais pichações como “Die in The Desert”, referência ao Danger Days, e a frase “Ghosts in The Snow”, uma das partes sussurradas do final de “Vampires Will Never Hurt You”.

A mesma porta vermelha, agora com o símbolo da Coragem aparece novamente. Para fugir dos dracs, ele então entra por ela e se depara com outro cenário. Ao passar por um corredor com velas, o rapaz encontra uma igreja, muito parecida – apesar de menor – com a igreja do clipe “Helena (So Long & Goodnight)”, sendo mais uma referência ao Revenge. Na frente do altar, ele encontra os “Demolition Lovers”, o casal protagonista da história do Revenge e também capa do disco ao vivo e documentário, “Life on The Murder Scene”. No banco da igreja, ele encontra os panfletos de “Helena”. A música então toma um clima mais lírico, enquanto uma bailarina vestida com as roupas utilizadas no videoclipe de “Helena”, entra dançando na direção do casal e do rapaz.

Não demora até que os dracs alcancem o garoto e, para fugir deles, ele entra em um confessionário escuro. Para iluminar seu caminho, ele tira um fósforo com os escritos: “Fire at Will”, referência a música “Thank You For The Venom”, também da era Revenge. Ele sai então de dentro de um caixão, para chegar diretamente em um hospital. 

Antes de explorar o local, ele encontra um papel que podemos considerar como uma referência à máscara do personagem Rorschach, do filme e dos quadrinhos de Watchmen, indicando uma relação com o clipe de “Desolation Row”, trilha sonora do filme. Podemos também ouvir aparelhos respiratórios e ver alguns quartos de hospital, uma referência ao “The Patient”, personagem da era The Black Parade.

Ele caminha até um quarto e encontra um paciente deitado em uma cama, totalmente coberto por um lençol, respirando com ajuda de aparelhos – referência ao início do clipe “Welcome to The Black Parade” e a música “The End” que tem sua introdução com o mesmo som de aparelhos respiratórios. Quando ele retira o lençol, não há ninguém deitado na maca e os aparelhos deixam de funcionar – dando a entender que o paciente morreu. 

Outra porta vermelha se abre e revela novamente os dracs atrás do garoto, no mesmo hospital. Ao correr dos dracs, outra porta se abre, agora com o símbolo de Devoção. O garoto então caiu de dentro do Trans AM, o carro do Danger Days, no meio do deserto da Califórnia. O começo de “Na Na Na (Na Na Na Na Na Na Na Na Na)” é ouvido. Logo em seguida, o carro arranca em direção ao nada e não sabemos quem está dirigindo. O carro dá um cavalo de pau na areia e continua seu caminho – com a música tocando ainda.

Uma explosão então atinge os dracs – que ainda estão no encalço do garoto – no mesmo momento em que outro portal aparece, desta vez com o símbolo de uma lua e uma estrela – ainda misterioso para nós (em breve falaremos sobre algumas referências desses novos símbolos). O garoto então se depara em um círculo com velas ao redor e quatro pessoas – todas trajadas de mantos pretos. Ele então passa por uma porta – desta vez preta e em um caminho de velas se depara com um estádio, onde então seria o primeiro show após o Return que o MCR faria, se não fosse a pandemia do COVID-19. 

Após as datas, podemos ver um esqueleto vestido com a roupa marcial bem parecida com a do clipe “Welcome to The Black Parade”. As roupas dos draculóides também estão jogadas, como se seus corpos tivessem sumido. E assim, apontando a câmera para o céu azul, acaba o vídeo.

Reprodução: Warner Music/Reprise Records

Ainda há muito o que se falar sobre este pequeno museu sobre a banda, ainda há muito o que se chorar (as redatoras que o digam) assistindo a este pequeno curta que é um soco no nosso estômago após um abraço apertado. Ver todas as eras reunidas em um só curta metragem é muito emocionante para todos nós. Por enquanto, nos resta a esperança (e os feitiços) para que uma turnê aconteça no Brasil e que um novo disco esteja entre nós em breve. 

Realmente, não é fácil fazer parte deste MCRmy.

Não é fácil perder noites em claro esperando por notícias desses queridos (para não falar outra coisa) que pouco nos fornecem informações, mas é de coração cheio e lágrimas nos olhos de orgulho deles que estamos aqui fazendo textos, pensando em ações e demonstrando nosso grande amor por eles em pequenas demonstrações diárias. 

É com muito orgulho que fazemos isso tudo, com orgulho de fazer parte de algo maior, importante, cheio de conceito e beleza, que nos ajudou durante tantos anos a expor nossos sentimentos em forma de arte.

É por isso que o Fake Your Death Brasil existe, é por isso que estamos aqui, fincados com os pés no chão com Coragem, Devoção, Clareza e Sacrifício (e bota sacrifício nisso). Mas tudo é com responsabilidade, carinho e acima de tudo, muito amor. 

Quando pensamos no My Chemical Romance, pensamos em amor, em coragem, em devoção e também sacrifício. Saber que eles estão de volta entre nós acende uma pequena centelha que pode roubar um fogo para brilhar ainda mais forte.

We stole the fire, and it’s burning bright.

Keep running, MCRmy.

A gente se vê no fim do deserto.

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