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XØ: Raiva, cacofonia e uma visita do serviço secreto americano

Hoje o primeiro e único disco da banda LeATHERMØUTH, em que Frank Iero foi vocalista, completa 12 anos. Permeado de polêmica, a gravação indigesta foi um grito bem alto, e sem filtros. 

Texto por: Malena Wilbert
Revisão por: Gabriela Reis 

Frank Iero é versátil. Além de se aventurar em diferentes posições – como compositor, frontman e guitarrista rítmico – ele também já provou que não tem nenhum problema em transitar em experiências musicais distintas. Para quem não conhece sua trajetória, é difícil associar que o vocalista da dançante “Medicine Square Garden” é o mesmo homem que lidera a agressiva LeATHERMØUTH. 

Embora as raízes de Iero no punk rock estejam presentes em todos os seus trabalhos, é aqui que ele as usou de forma mais crua. Talvez esse tenha sido um de seus projetos mais ousados, competindo até mesmo com o caótico e sombrio Death Spells.  Só que, enquanto este último é uma obra introspectiva e experimental, o LeATHERMØUTH destaca-se como uma versão moderna de clássicos como Black Flag e Sex Pistols. 

Podemos dizer que ao contrário das vezes em que Frank usou a música como uma válvula de escape para seus conflitos internos, desta vez ele estava gritando bem alto sobre os problemas do mundo. 

Para mim, LeATHERMØUTH é como posso desabafar sobre todas as besteiras que vejo acontecendo no mundo que me deixam doente“, ele explicou no perfil da banda para o site da gravadora independente Epitaph Records.Tento aprofundar os tópicos que as pessoas querem esquecer que existem. LeATHERMØUTH é onde posso vomitar toda a agressão que se acumulou por dentro. Depois de gravar ou tocar com a banda, sinto-me vazio de todo aquele ódio que foi reprimido, é um experiência agradável e catártica. Estou envergonhado com minhas emoções e originalmente queria manter anônimo… mas foda-se, nenhum de nós é perfeito, o mundo está uma merda e alguém tem que dizer isso.”

Sim, existe muito ódio e revolta no primeiro e único disco da banda, o, lançado no dia 27 de janeiro de 2009. Frank e os outros integrantes da banda não colocaram nenhum filtro nas músicas, apenas despejaram seus sentimentos da forma mais agressiva possível. Tanta sinceridade não passou despercebida pelo Serviço Secreto estadunidense, que fez uma visita a Frank Iero para conversar sobre a quarta faixa do CD, “I Am Going To Kill The President Of The United States Of America”. 

“O governo vai à sua casa, vasculha tudo e fala com sua esposa por horas”, Iero contou para a revista AltPress. “Então você tem que conseguir um advogado muito caro para mantê-lo fora da prisão por cinco anos. Tive uma longa conversa com os cavalheiros do Serviço Secreto. Eles vestiam  ternos escuros, óculos escuros, tipo homens de preto, pensei que eles iriam apagar minha mente [como no filme].

Frank disse aos agentes que escreveu a música do ponto de vista do resto do mundo (na época, ele estava em turnê internacional com o My Chemical Romance, e teve a oportunidade de ver diversos protestos), que clamava insatisfeito com os posicionamentos da chamada “Doutrina Bush”, um documento publicado em 2002 que dava aval para o exército invadir territórios estrangeiros e causar guerras. Durante o governo de George W. Bush os Estados Unidos se envolveram na Guerra do Iraque (cerca de 4.500 mortes) e na Guerra do Afeganistão (cerca de 2.400 mortes).

Então, quando os agentes lhe perguntaram se ele acreditava que a música incentivaria pessoas a tentar matar o presidente, Frank respondeu: “É como dizer a todos que lêem A Modest Proposal de Jonathan Swiftvai (um panfleto satírico do século XVIII que fala sobre canibalismo) vai comer um bebê. Eles não acharam isso muito inteligente [a resposta], então disseram: ‘Bem, se você relançar o álbum com a música ou tocá-la ao vivo de novo, você será preso'”. 

Ele não protestou. Sua justificativa foi a família, a mulher e os filhos, razão pela qual não quis se meter em mais problemas. Mas “I Am Going To Kill The President Of The United States Of America” ainda está disponível no youtube e spotify para quem quiser ouvir.

Embora essa tenha sido, de longe, a canção mais polêmica, todo o CD é permeado por assuntos complicados, mas de grande relevância. Tudo começa com a faixa de abertura,  “5th Period Massacre”, gritos e guitarras nervosas falando sobre os frequentes tiroteios em escolas norte-americanas. 

“Catch Me if You Can”, enérgica, dolorosa e extremamente perturbada, fala sobre um serial killer, mais especificamente inspirada em Jack, o Estripador.  A exata mesma vibração segue em “This Song Is About Being Attacked By Monsters”, em que Frank quase rasga suas cordas vocais gritando “We need a doctor, a fucking doctor! […] We need a plan.”

Em seguida, a fatídica “I Am Going To Kill The President Of The United States Of America”. Musicalmente, ela é mais organizada e faz mais sentido que suas antecessoras, podemos ver um pouco mais de ritmo e técnica aqui. Porém, ainda é LeATHERMØUTH. Ainda existem muitos, muitos gritos e riffs caóticos. “Murder Was The Case That They Gave Me”, logo depois, segue na temática sangrenta: “They don’t care who you are, they just care how sweet the blood.”

Chegamos na sexta música da gravação,  “Sunsets Are For Muggings” que é sobre as visitas de Iero ao psiquiatra e sua relação com tratamentos e casos familiares. Um desabafo pessoal, mas que reflete uma epidemia que vivemos, a [falta] de saúde mental nas populações e o descaso dos médicos e sistemas de saúde com esse tipo de problema. “My Lovenote Has Gone Flat”, sua sucessora, continua falando sobre esse tema, entrando na complexa questão do suicídio. 

Your Friends Are Full Of Shit” e “Body Snatchers 4 Ever” parecem as faixas mais introspectivas do disco, mas apenas no sentido da sua temática. Elas são sobre vingança, traição e rancor, tudo isso da forma mais caótica e barulhenta possível, um nítido colapso em torno desses sentimentos com a aura LeATHERMØUTH de gritos em plenos pulmões. 

Por fim, “Leviathan”, uma música que, da forma mais esquisita possível, é sexy. Iero, entre gritos, gemidos e sussurros entre os dentes, pergunta: “Who’s the killer?” A gravação termina com essa mistura, uma energia sexual e raivosa, como se você se sentisse tão usado e perdido que começasse a confundir seus sentimentos. 

Como uma obra completa, o é muito coeso e fiel a sua proposta. Obviamente, um disco com raízes punks tão cruas não é facilmente digerível, tampouco feito para grandes audiências. Ele é um colapso, um desabafo, um grito de socorro. É onde Frank foi livre para expurgar seus demônios. 

“Este não é o Frank Iero que conhecemos. Em My Chemical Romance ele é um guitarrista que entretém arenas, em LeATHERMØUTH ele é um cantor que destrói porões.”  Definiu a RockSound. “Se com  o My Chemical Romance ele voa de primeira classe, no LeATHERMØUTH ele faz o passeio noturno na van. Para o My Chemical Romance ele tenta escrever as maiores e melhores canções de rock. Na  LeATHERMØUTH ele está preocupado apenas com o mais feio e o mais desagradável. ‘XØ’ é o som de um homem coçando sua coceira forte até sangrar”.

Como vocês já sabem, a redatora aqui tem uma queda gigantesca por experiências catárticas, então é uma grande responsabilidade escrever sobre LeATHERMØUTH. Fico por aqui, stay sane and stay safe.

Give ‘Em Hell, Kid.

Beijos, MW.

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