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Gerard Way e Ray Toro NME/Reprodução

Especial Danger Days: Como a NME trouxe o MCR ao combate contra o esteriótipo de “rock star”

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Quando uma crítica ao disco Danger Days se transformou em ataque pessoal a aparência física do guitarrista Ray Toro, a banda se posicionou com voracidade.

Texto por: Marina Tonelli
Edição por: Ariane Santana

Apesar do talento musical do My Chemical Romance, a banda ficou conhecida pelo grande público e chamou a atenção da crítica musical quando estourou com o seu hit Helena do disco Three Cheers For A Sweet Revenge (2004). A maioria das pessoas que escutaram a música na época em que ela estava no topo de clipes mais votados da MTV – e até mesmo tocando nas rádios -, não tinha a menor ideia que se tratava de uma homenagem para a avó falecida do vocalista Gerard Way e o baixista Michael Way. O que realmente impactou a todos naquele momento, além do refrão repetitivo e dramático, foi a teatralidade e o visual da banda.

Muitos se apaixonaram e quiseram saber mais dos cinco integrantes maquiados segurando um caixão em frente a um igreja, todos vestidos de preto ao redor de dançarinos com guarda-chuvas coordenados. Mas outros tantos entraram em uma onda de críticas e zombaria sobre o visual e a choradeira do tom da canção. O fato da banda estar trajando roupas que claramente se encaixariam a um funeral, mas que também combinavam com a temática do disco o qual a música pertencia, criou uma espécie de repulsa por parte de outras vertentes do rock. O que nos faz pensar sobre como a memória dos ditos “rockeiros” é curta. 

Alice Cooper. David Bowie. Poison. Kiss. Freddie Mercury limpando a casa com um aspirador de pó, bigode, peruca e um top rosa pink. Marilyn Manson. The Cure. Misfits. Twisted Sisters… E a lista continua de músicos renomados que usavam roupas excêntricas, maquiagem e mesmo assim – apesar de alguns sustos e comentários da mídia – eram respeitados pelo rockeiros de plantão. 

Mas é claro que, quando o emo surgiu, o fato de existir um conceito, maquiagem e qualquer tipo de música ligada a sentimentos – qualquer sentimento, até porque todos nós sabemos que se tratando sobre My Chemical Romance definitivamente nós não estamos quase nunca sofrendo por amor – era muito mais fácil zombar, diminuir e entrarmos em ofensas homofóbicas. 

Estou falando isso porque quero contextualizar o fato do My Chemical Romance sempre ter chamado a atenção por ir além da música. No Three Cheers For A Sweet Revenge (2004) o conceito não ficou muito claro por trás das gravatas vermelhas, do colete à prova de balas ou do símbolo com armas. Repito, não ficou claro para quem não era fã. Tampouco para os críticos que surfavam a onda do amor x ódio que seguia essa banda de New Jersey por onde quer que ela passasse. 

Mas quando o The Black Parade (2006) chegou, por coincidência ou não, e se tratando de My Chemical Romance eu não acredito em coincidências, o conceito ficou muito claro. Seja nas músicas, seja visualmente, seja esteticamente. Ficou claro para mim, para sua vizinha, para o seu tio e os críticos musicais de todos os tipos. 

Somos uma banda conceitual. Somos uma banda teatral. Querem vocês queiram ou não.

Gerard Way - The Black Parade/ Reprodução
Gerard Way House Of Blues/Reprodução

Houve um grande hiatus. Em que muitos boatos surgiram na ausência da banda que fez história ressignificando a maneira com que a morte poderia ser vista. Um disco havia sido descartado. Não se sabia muito o que se esperar, afinal, agora que todos sabiam da natureza do My Chemical Romance, sempre havia a expectativa sobre qual seria a próxima ideia, o próximo tema, o próximo palco a ser contada uma nova história. Mas só no ano de 2010, quatro anos depois, é que o disco Danger Days: The True Lives of The Fabulous Killjoys apareceu como um raio e pegou a todos de surpresa.

O preto havia sido substituído por cores, muitas cores. Inclusive no cabelo do vocalista Gerard Way, agora vermelho como sangue fresco. Havia herois e vilões, armas futuristas, carros no deserto e jaquetas que você queria fazer uma para criar o seu próprio personagem naquele universo. Killjoys. A sonoridade havia mudado também, a amargura decepcionada havia substituída por uma estranha alegria resignada. 
Era como se estivessemos conformados com o fim do mundo, correndo para o precipício, porém cantando alto em meio a luzes coloridos. Era absurdo, catártico, estranho, empolgante, diferente, mas continuava sendo o My Chemical Romance.

My Chemical Romance como Killjoys/Reprodução
My Chemical Romance como Killjoys/Reprodução

Mas a mídia especializada não estava interessada apenas no novo conceito ou nas músicas novas com uma sonoridade bem diferente de seu antecessor, o The Black Parade (2004).A edição de 11 de novembro de 2010 da revista NME ia além. Ao comentar sobre os integrantes, o jornalista Luke Lewis – que era ninguém mais ninguém menos que o editor chefe da revista – fez questão de comentar que o guitarrista Ray Toro estava acima do peso, informação que acrescentava absolutamente nada em uma revista especializada de música fazendo uma crítica musical.

E aqui nós entramos em um tema extremamente importante. 

O emo criou um estereótipo a ser seguido que não só prejudicou milhares de adolescentes, como também – utilizando o Ray como exemplo – afetou membros de banda que não se enquadravam neste estereótipo quase sempre inalcançável, se você não fosse de origem européia ou americana. 

Afrodescendentes, latinos e outras etnias que não se encaixassem com o padrão estético de pele extremamente branca, olhos claros, magreza excessiva, cabelos lisos e traços finos, automaticamente não eram bons o suficiente para se encaixarem neste padrão estabelecido. 

Dentro do próprio movimento, pessoas com cabelos cacheados ou afro, pessoas negras, pessoas acima do peso ou que não se parecessem com garotos ou garotas que víamos no MySpace e depois no Tumblr, eram oprimidas, rechaçadas e quase sempre se escondiam em efeitos de câmera, não se sentiam confortáveis de fazer o que quisessem no cabelo ou de se vestir da maneira com que gostariam porque seriam julgadas por pessoas que deveriam estar lado a lado, visto que a sociedade já julgava o emo o suficiente.  

Até mesmo hoje vemos comportamentos como esses acontecendo. Na época, Ray Toro foi humilhado publicamente por ser o latino “diferente” da banda que não seguia os padrões estabelecidos – na cabeça do jornalista – pela própria banda, todos magros e com um estilo pré-estabelecido. 

Coisa que nunca existiu dentro do My Chemical Romance, visto que Gerard Way sempre teve problemas em manter o próprio peso desde a sua adolescência e a banda sempre falou sobre autoaceitação. Mas hoje vemos o mesmo acontecendo com Way.  Pelo fato do vocalista estar acima do peso, muitas pessoas do próprio fandom fazem piadas e comentários grosseiros sobre sua aparência sendo que o que importa nunca foi como a imagem do integrante x ou y é esteticamente, mas o que eles estavam querendo transmitir e como estavam transmitindo. 

Voltamos à 2010. Como Ray Toro é a pessoa grandiosa que conhecemos, ele deu uma resposta a altura a NME:

Mas não foi só Ray Toro que se posicionou. O My Chemical Romance foi indicado a cinco prêmios na premiação da própria NME. Muitos fãs da época acharam que a banda simplesmente não apareceria ou ignoraria a premiação, pois haveria uma apresentação ao vivo, porém, eles confirmaram presença e todos acompanharam de olhos bem atentos o que viria a seguir. Assim que subiram ao palco, todos ficaram estupefatos, pois a banda vestia ternos idênticos e máscaras de ski cobrindo seus rostos, Gerard Way logo tomou o microfone e disparou:

Nós queremos agradecer a todos os fãs que votaram por nós. Não deixem que a mídia lhe diga como seu corpo deve ser, vocês são lindos do jeito que vocês são. Keep it ugly!*

O famoso “keep it ugly” que em tradução livre seria algo como ‘não se encaixe nos padrões’, rodou twitter a fora depois da apresentação emblemática e provocativa. Frank Iero também, com poucas palavras, se posicionou quando foi perguntado por quê a banda havia se apresentado com máscaras (eles nunca entendem?):

“É sobre a música, sabe?” 

Veja a apresentação icônica:

O melhor de tudo, por fim, foi o My Chemical Romance ter ganhado os prêmios de Melhor Banda Internacional e melhor videoclipe com Na Na Na (Na Na Na). 

E esta foto:

Gerard Way com os Prêmios da NME/Reprodução
Gerard Way com os Prêmios da NME/Reprodução

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