FAKE YOUR DEATH BRASIL

Sua fonte oficial de notícias do My Chemical Romance reconhecida pela Warner Music Brasil

Especial Influências Musicais #4 – Gerard Way e a equação criativa de quadrinhos x música que criaram o frontman de mil faces

Na última matéria sobre influências musicais dos integrantes do My Chemical Romance, entenderemos como os quadrinhos foram a ponte para a criação do frontman e letrista que fundiu seu amor pelas HQ’s com a música.

Por: Marina Tonelli
Revisão: Gabriela Reis

Gerard Way nasceu no ano de 1977 e como abordamos na matéria de influências musicais do guitarrista Ray Toro, o mundo da música passava por transformações em seus diversos gêneros. Mas se o ano de 77 foi marcante, a década de 80 também se demonstraria revolucionária e um marco para a história da música. São tantos artistas e bandas que fizeram história na década que ela é considerada uma das eras de ouro por muitos críticos musicais pela riqueza e diversidade de seus lançamentos. 

Apesar dos horrores da Guerra Fria, a economia dos americanos estava em ascensão e os investimentos em tecnologia em mesas de som, técnicas de filmagem para videoclipes, novos efeitos para as músicas – os chamados sintetizadores – e o interesse de grandes gravadoras em lançar o próximo artista de sucesso, tornou a década um amplo e frutífero campo de produção em massa de sucessos. 

Começaremos falando sobre a música pop, que quebraria tabus e mudaria a forma com que toda uma geração se vestiria, se comportaria e, principalmente para as mulheres e os negros, se posicionaria perante a sociedade. Michael Jackson e Prince foram os primeiros afro-americanos a terem suas músicas e videoclipes tocados incessantemente no canal de música MTV que, na época, era o medidor da fama e importância para os artistas. 

Prince/Reprodução

A MTV revolucionou o cenário musical assim como o rádio e os disc jockeys – mais conhecidos atualmente como DJ’s – nos anos 50 quando lançavam os singles escolhidos à dedo pelas gravadoras que fariam sucesso. O canal fez com que os artistas repensassem os conceitos de suas músicas, imaginando-as em vídeo para que pudessem atingir os públicos pela TV e não só pelas rádios, criando assim uma proximidade ainda maior com o público em relação ao estilo e comportamento. 

Duas curiosidades peculiares sobre o canal de música é que ele foi lançado oficialmente em 1981 e o primeiro videoclipe a ser televisionado para o público foi da banda The Buggles,Video Killed The Radio Star” (1980), que, traduzido, “O Vídeo Matou As Estrelas do Rádio”, uma ótima ironia. A segunda peculiaridade é que o clipe só poderia ser visto pelos moradores da cidade de New Jersey, a cidade natal do vocalista da banda My Chemical Romance. 

Além de Michael Jackson e Prince, Madonna foi a mulher mais bem sucedida dos anos 80. Seu terceiro disco, “True Blue” (1986) foi o mais vendido da década por uma artista feminina e continha sucessos como “Like A Virgin”, “Papa Don’t Preach”, “La Isla Bonita” e “Like a Prayer” que ficaram eternizados por gerações. Mas Madonna não foi a única a se destacar, nomes como Whitney Houston, Barbra Streisand, Paula Adbul e, claro, a sua combatente direta Cyndi Lauper também estavam no topo de suas carreiras lançando sucesso atrás de sucesso e criando novos parâmetros de comportamento de vestimenta para as jovens da época. 

Cyndi Lauper e Madonna/Reprodução

Mas a riqueza do anos 80 também se espalhava para as bandas de rock, desde de nomes mais tradicionais como Bruce Springsteen, o “The Boss”, que estava em seu auge com a música “Born In USA”, passando por AC/DC com “Back In Black”, Def Leppard com “Hysteria” e Bon Jovi com “Slippery When Wet”. Você poderia ligar a sua TV ou ligar o seu rádio e uma música que, atualmente, consideramos um hino com certeza estaria tocando naquela época. Mas, por enquanto, nós estamos falando apenas de cantores e bandas americanas. O cenário britânico também não decepcionou no quesito hits de sucesso e estrelas que influenciaram milhares de cantores e artistas das próximas gerações. E aqui nós chegamos em uma grande inspiração para Gerard Way: David Bowie.

O vocalista do My Chemical Romance sempre exaltou o camaleão do rock em entrevistas e como sua dualidade sempre serviu como inspiração diversas vezes em sua carreira. Seja na banda ou em sua carreira solo. Em uma participação no podcast Carry The Fire, Way revisitou o passado quando estava construindo o disco The Black Parade (2006) e comentou sobre Bowie:

“Eu acho que há certa segurança quando você representa um personagem. Obviamente, eu estava olhando diretamente para os meus heróis quando o planejei (nota: ele estava se referindo ao personagem ‘The Patient’). Eu estava olhando para David Bowie, especialmente na era do ‘The Black Parade’,” ele revela. “Os planejamentos iniciais do ‘The Black Parade’ eram basicamente: e se a morte tivesse uma banda de rock? E, óbvio, tudo mudou a partir disso e nos tornamos a morte de certa maneira, a banda inteira”.

David Bowie/Reprodução

Mas se a influência de David Bowie era algo pouco explícito na carreira de Gerard Way, afinal, os fãs de My Chemical Romance estavam acostumados a ouvir sobre a banda favorita do vocalista ser Iron Maiden – incluindo uma foto icônica de Way adolescente com a camiseta da banda de heavy metal – quando ele quebrou os laços com o MCR essa influência ficou mais do que escancarada. A mídia, inclusive, começou a publicar artigos sobre o quão similar era a divulgação do disco solo Hesitant Alien (2014) se comparado ao disco “Heroes”, lançado por Bowie em 1977 (coincidência, não?).  

Way, inclusive, deu uma resposta um tanto quanto ácida a NME após tantos comentários acerca da semelhança com o ídolo: Vocês podem olhar (para o disco) e dizer ‘yeah, ele está tentando copiar o Bowie’, mas eu tenho copiado o Bowie a minha vida inteira então por que eu pararia agora?

O fato de Gerard Way ter sido um garoto tímido, sem acesso a música ou discos em sua casa fez com que ele voltasse toda a sua imaginação e criatividade para os quadrinhos. O mundo de super heróis, vilões, tramas bem elaboradas e uniformes vistosos sempre foi uma máxima em sua vida enquanto ele crescia em uma década recheada de novos talentos, experimentações e um novo jeito de enxergar a liberdade. Sua avó materna, Elena, lhe deu o empurrão em direção a música que ele precisava e essa combinação entre super heróis, identidades secretas, roupas espalhafatosas, músicas estranhas, pessoas vindas de outro planeta….

Tinha tudo a ver com David Bowie. 

Bowie tem uma carreira e tanto na música. Resumir sua história em poucos parágrafos seria difícil, ainda mais se tratando de quem vos escreve. Mas o que importa, se tratando de Way e Bowie é uma fase específica: “The Rise And Fall of Ziggy Stardust and The Spiders from Mars”(1972). 

Antes de começar a falar sobre este disco icônico, preciso comentar que antes do terceiro disco do My Chemical Romance se chamar, de fato, The Black Parade ele se chamaria “The Rise and Fall Of My Chemical Romance, acho que este fato, por si só, já demonstra o tamanho da influência de David Bowie e especificamente deste disco tinha sobre Gerard Way como músico, ser humano e performer.

Conhecido apenas como “Ziggy Stardust”, o disco – e o próprio Bowie – traz um conceito, descrito como uma ópera rock, e conta a história de um alter ego andrôgeno, “fictício”, bisexual e rock star do britânico que é enviado para a Terra como o único possível salvador com poderes de impedir um disastre apocalíptico. Ziggy, consegue ganhar a confiança dos moradores do planeta Terra e seduz todos que cruzam o seu caminho, morrendo, no final do disco, como uma vítima de sua própria fama. 

Dito isso, o personagem foi eternizado pelo icônico cabelo laranja neon, roupas extremamente coladas ao corpo e, serei prolixa, exageradamente brilhantes, botas de salto e os característicos olhos heterocromáticos de David Bowie – que ele “ganhou” devido à uma disputa por uma garota com o melhor amigo em que ele recebeu um soco e seu olho nunca mais foi o mesmo. 

Hoje em dia, pode ser normal para nós vermos um homem vestido de roupas coladas cantando sobre o espaço vestido em botas de salto. Mas nos anos 70, era como se os britânicos, a Rainha, os americanos, toda a sociedade cristã e puritana da época tivessem tomado um soco bem certeiro no estômago. Foi algo revolucionário, nunca antes visto e que serviria de inspiração para muitas bandas e cantores inovarem, experimentando, criando conceitos, diversificando e explorando a própria sexualidade.

David Bowie como “Ziggy Stardust”/Reprodução.

Voltamos a Gerard, o adolescente tímido, vendo o mundo através dos quadrinhos, que um dia encontrou na música o homem de cabelo laranja, vindo do espaço, cantando “Rock’n’Roll Suicide” que saiu do interior da Inglaterra e conquistou o mundo em roupas brilhantes gritando um belo foda-se para os padrões da Rainha do seu país natal.

Avançamos para o jovem adulto que desenhava personagens que não se adequavam aos padrões impostos pela sociedade, que sentiam-se vindos de outro planeta, e que usavam máscaras para combater os males do mundo velho britânico, agora sem os cabelos laranjas, cantando “Heroes” a plenos pulmões. 

Avançamos mais um pouco, e chegamos ao homem que criou uma banda chamada My Chemical Romance e que construiu conceitos, os destruiu, reconstruiu, tentou os matar por conta da fama – lembram-se de Ziggy? – e quando ninguém mais esperava, voltou de volta à Terra como se tivesse algo a dizer. 

Esta sou eu divagando.

Beijos mafiosos e até a próxima matéria gigante,

MT.

Deixe uma resposta

%d blogueiros gostam disto: