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The Black Parade Is Alive Forever: 14 anos do lançamento do disco conceitual que marcou gerações

Em uma mansão mal assombrada em Los Angeles, o My Chemical Romance criou o inimaginável: o grandioso sucessor que provaria que eles eram maiores do que o Three Cheers For Sweet Revenge.

Texto por Marina Tonelli
Revisão por Gabriela Reis e Ariane Ribeiro

O My Chemical Romance começou de modo tímido em uma gravadora independente de New York chamada Eyeball Records. O primeiro disco I Brought You My Bullets, You Brought Me Your Love, lançado em 2002, conquistou o cenário musical de New Jersey nas suas pequenas e tumultuadas casas de show. O som visceral, as letras sombrias e a paixão demonstrada por seus integrantes no palco conseguiu chamar a atenção não só de um público que ansiava por uma banda que parecia respirar e viver as próprias canções, mas também de um selo maior: a Reprise Records, pertencente a uma das maiores gravadoras do mundo: a Warner Music Group.   

O que parecia um sonho ou uma maneira de mudar o mundo através da música após uma tragédia como os atentados às Torres Gêmeas em 11 de setembro de 2001 se tornou uma realidade de extrema responsabilidade. Assinar com uma gravadora do porte da Reprise Records significava que ou a banda daria realmente certo ou estaria fadada ao fracasso. E em 2004, o disco Three Cheers For a Sweet Revenge foi lançado ao mundo.

As mudanças acontecerem rapidamente. Logo um dos membros fundadores, o ex-baterista Matt Pellisier, foi substituído por Bob Bryar e a pequena van dada pela avó de Gerard e Michael Way havia sido substituída por um luxuoso ônibus bem equipado de turnê e aviões direcionados para diversos continentes.

O My Chemical Romance se tornou grande, uma banda com selo de platina em menos de um ano após de seu disco ser lançado e com singles como “I’m Not Okay”, “Helena” e “The Ghost Of You” atingindo o topo dos videoclipes mais vistos da MTV. O single “Helena” foi um sucesso à parte e eternizado, tocado incessantemente, também causando uma revolução estética através de seu videoclipe. Mas, após todo esse sucesso, o que viria depois? O sucesso se resumiria a um disco?

Essa fórmula teatral se repetida daria certo novamente? O que seria do My Chemical Romance depois do Three Cheers For a Sweet Revenge? O que seria o My Chemical Romance após um sucesso tão marcante quanto Helena?

My Chemical Romance (2004) / Reprodução

My Chemical Romance will not be able to take the stage due to “unforeseen circumstances”

(My Chemical Romance não poderá comparecer ao palco devido à “circunstâncias imprevistas”)

Já no primeiro semestre de 2006, enquanto a banda ainda colhia os louros de sua turnê mundial e toda a popularidade que havia conquistado ao redor do mundo com sua estética única combinada perfeitamente com as letras que moviam multidões de adolescentes, um ambiente de tensão e ansiedade sobre o lançamento do próximo disco começou a ser criado.

Não havia muitas informações, apenas alguns rumores com a promessa de um disco conceitual, épico e com exageradas pitadas de teatralidade. A mídia e os fãs – já acostumados com a postura do My Chemical Romance se tratando deste quesito teatral –  acompanhavam cada detalhe com extrema atenção, afinal, o último disco havia sido um fenômeno incontestável. 

Mas no dia 22 de Agosto de 2006, alguns pedaços do quebra-cabeça começaram a ser revelados. Enquanto os fãs aguardavam a banda em um show em Londres, algo totalmente diferente aconteceu. Ao invés de entrarem ao palco como de costume, um anúncio se fez ouvir dizendo: o My Chemical Romance não poderá comparecer ao palco devido à ‘circunstâncias imprevistas’.

Apesar disso, os fãs continuaram com os conhecidos gritos de “MCR! MCR!”  e quando o enorme pano caiu ao chão para revelar o palco, Gerard Way, que sempre fora reconhecido por seu corte de cabelo escuro e longo como a noite, surgiu ao palco com cabelos curtíssimos e platinados em uma roupa marcial como o restante da banda.

Eles se apresentaram como sendo a “The Black Parade” e abriram o show com uma música inédita chamada “Welcome To The Black Parade”. O setlist incluia músicas inéditas e do disco anterior, sendo um deleite para os fãs e os críticos presentes no local

Você pode ouvir o show na íntegra aqui:

Neste show Way revelou em entrevista que o conceito do disco se tratava da história de um personagem chamado “The Patient” e que sua mudança capilar não havia sido puramente estética, mas sim para que ele pudesse se parecer com o personagem, podendo desta maneira transmitir as emoções e a história com mais intensidade e veracidade através de sua voz durante os shows.

Também impressionou com declarações sobre como o processo criativo do disco havia sido sombrio e que ele, juntamente com os outros integrantes da banda, precisaram se unir ao máximo para aguentar este processo, precisando, até mesmo, criar uma nova banda. Reiterou que eles permaneciam sendo o My Chemical Romance, mas que o alter ego criado seria o carro chefe dali em diante. 

Como obviamente todos estavam curiosos sobre o que significava a tal da “The Black Parade”, Way sanou as dúvidas, explicando na mesma entrevista:

The Black Parade é a premissa básica do disco, significa que quando você morre… E eu gosto de pensar que a morte aparece para você do jeito que você quiser,” Way diz. “Sinto como se fosse (a morte aparecendo para você) a sua memória mais forte, pode ser da sua infância ou da sua fase adulta, e, particularmente para este personagem do disco, a memória mais forte dele é de ser uma criança e o pai dele está levando-o a um desfile. Então, quando a morte aparece para ele, ela aparece na forma de uma ‘Black Parade’”.

The Black Parade
Encarte The Black Parade/ Reprodução

Mas se os fãs e a mídia acharam que aquela seria a aparição bombástica do My Chemical Romance, ou, no caso, a The Black Parade, estavam muito enganados. A data prevista para o lançamento oficial do disco era no dia 23 de outubro de 2006 e cerca de 9 dias após o memorável show em Londres, estava marcado o tradicional MTV Music Awards.

O evento era transmitido mundialmente e, para os mais novos, um programa para ser assistido com muita atenção por conta das performances e premiações que aconteciam durante o evento. Porque naquela época o acesso ainda era muito restrito em relação a assistir premiações online pela internet e o YouTube ainda dava os seus primeiros passos, então qualquer oportunidade de ver o seu artista favorito aparecendo em uma premiação era aproveitada ao máximo. 

É claro que os fãs esperavam que alguma coisa pudesse acontecer no VMA, afinal, a premiação era conhecida por ser palco para lançamentos e para apresentações grandiosas. Mas ninguém realmente estava esperando o que estava por vir. Deixando um pouco de lado a seriedade com que escrevo e falando mais como fã, quando eu vi essa apresentação no VMA foi como se meu coração fosse parar a qualquer instante. Eu congelei observando a tela do computador e tentei gravar na memória cada instante daquele momento.

É uma das melhores lembranças do My Chemical Romance que eu tenho, e quando eu quis escrever essa matéria, automaticamente quis incluir este vídeo para que todos que fossem ler vissem também. Sei que já faz muito tempo, mas eu espero que quem não tenha visto também sinta o que eu senti. A grandiosidade, a força que contagia cada pedacinho do seu coração e o orgulho de ser fã dessa banda. Me emociono até hoje, tantos anos depois, e espero que faça a diferença que fez para mim para vocês também.

Assista o vídeo da apresentação no VMA de 2006:

The Paramour Mansion

A mansão famosa por ter sido a moradia dos integrantes do My Chemical Romance durante o período de criação e gravação do disco The Black Parade foi construída em 1923. Pertencia a estrela do cinema mudo Antônio Moreno e sua esposa herdeira de uma fortuna provinda do petróleo, chamada Daisy Canfield Moreno. Ambos viviam de forma exuberante, dando festas aos domingos para a alta sociedade e os grandes nomes do cinema de Los Angeles da época. Porém, em 23 de Fevereiro de 1933, Daisy morreu devido a ferimentos que sofreu quando seu carro afundou no mar em um acidente na volta para casa depois uma festa. 

Após sua morte, a mansão com 22 quartos têm sido utilizada para diversos fins. Desde internatos à convento de freiras franciscanas, até ser vendida em 1998 para Dana Hollister – que modificou seu nome original The Canfield-Moreno Estate para The Paramour Mansion. O imóvel já foi palco para filmagem de filmes e gravações de discos, não apenas do My Chemical Romance, mas também de bandas como o Papa Roach que, assim como o MCR, não teve uma experiência muito agradável no local.

O boato é que a antiga dona da casa, Daisy Canfield Moreno, foi enterrada na propriedade e seu espírito continua vagando pelos cômodos, abrindo e fechando portas, assim como abrindo as torneiras das banheiras dos quartos. Além disso, filmes de terror como: Halloween H20: 20 Years Later (1998), Scream 3 (2000), Halloween: Resurrection (2002), The Neon Demon (2016) e Under The Silver Lake (2018) não contribuem muito com a ambientação da casa. 

The Paramour Mansion/Reprodução

Mas o My Chemical Romance estava decidido a ter uma ambientação que os inspirasse a ter um disco conceitual que quebrasse as barreiras do inimaginável. Talvez a ideia fosse muito boa quando combinada previamente, contudo, quando os integrantes começaram a passar tempo demais dentro daquela casa, a ambientação e o clima pesado – quase palpável – não era saudável para a saúde mental para pessoas que já haviam dito publicamente que tinham questões psicológicas que precisavam de devida atenção.

Toda a pressão interna e externa de se criar algo grandioso, sem se importar com limites e excessos, elevou o clima à um ponto perigoso não só para a banda, mas também o produtor Rob Cavallo e o engenheiro de som Doug McKean que os acompanharam na estadia da mansão. 

Rob Cavallo era um produtor musical conhecido na época por ter trabalhado com a banda Green Day nos discos Dookie (1994), Insomniac (1995), Nimrod (1997), Shenanigans (2002) e, o trabalho mais aclamado até aquele momento, o American Idiot (2004). Não era por acaso que a banda havia escolhido trabalhar com ele, tendo em vista que após terem feito a turnê do American Idiot com o Green Day quando ainda estavam divulgando o Three Cheers For a Sweet Revenge (2004).

Gerard Way dizia para quem quisesse ouvir que “aquela era a maior oportunidade que tinha acontecido com a banda” e que o Green Day teria sido o responsável por ele ter tentado aprender guitarra em sua adolescência. 

My Chemical Romance e Green Day em turnê do disco American Idiot/Reprodução

Cavallo e McKean fizeram mais de 400 horas de gravações no período em que estiveram com o MCR na mansão Paramour, e estas gravações incluíam demos, assim como todo o processo criativo sobre como as músicas do The Black Parade, e foram ganhando forma e se modificando – no quesito instrumental ou letra – até chegar no resultado final que conhecemos há 14 anos.

Estas gravações se transformaram no CD especial lançado em comemoração aos 10 anos do lançamento do The Black Parade, o Living With Ghosts. Nele não há qualquer edição ou mixagem, apenas o processo criativo cru e exposto exatamente do jeito com que aconteceu. O produtor comentou sobre este material em entrevista a Alpress, em 2016

“A maneira com que eu trabalho, a regra número um é: a luz de gravação está sempre acesa.”, diz Cavallo. “No caso do The Black Parade, pedi para Doug (McKean) montar uma mesa de som e seis à oito microfones realmente bons. Enquanto estávamos montando as coisas, você já pode começar a ter alguns insights do processo criativo.” O produtor é rápido ao complementar que o que você escuta em ‘Ghosts’ não está ‘arrumado’ com efeitos de pós-produção: “As faixas foram remasterizadas para que o volume não ficasse baixo. Nós estamos dando aos fãs do jeito com que nós ouvimos. Passamos de 8 à 10 noites gravando. As 11 canções do disco são eliminadas a partir da número 23. Deve ter umas 400 horas de gravações,” ele começa a rir. “Eu não sei quem quer ouvir essas 400 horas, mas o My Chemical Romance escolheu as músicas certas.”

Com certeza, muitos fãs gostaram e gostariam de ouvir, mas o Living With Ghosts é uma conversa para outra matéria. Ouça na íntegra o disco:

Mas nem tudo foram flores e os problemas dentro da mansão começaram cedo. Michael Way que já estava passando por uma fase complicada já no fim da turnê do disco Three Cheers For a Sweet Revenge em 2005 foi o primeiro a sentir os efeitos da casa.

A ansiedade causada pela rapidez do crescimento da banda em escala mundial havia escalonado para uma profunda depressão. Ele começou a se afastar do mundo real e a se aprisionar dentro de própria mente, se questionando se havia ou não talento suficiente para fazer parte de uma banda tão grande quanto o My Chemical Romance.

Questões como essa, são de extrema dificuldade para compartilhar, por mais que você esteja rodeado de amigos confiáveis e até mesmo seu irmão mais velho. Ansiedade e depressão são doenças sérias e sorrateiras que invadem sua mente, plantando sementes que crescem e dão um nó em sua perspectiva sobre a realidade, então Michael enfrentou inseguranças e seus próprios monstros em silêncio, afastando a atenção de si mesmo às vezes com timidez, às vezes com arrogância. 

Dentro da mansão Paramour, a situação se tornou insustentável. O irmão mais novo dos Way pensou em deixar a banda e permaneceu por um tempo tentando contornar seu estado psicológico, à beira de um colapso, bebendo ou tomando remédios controlados, porém, o fato de a casa não ter telefone, TV ou aquecimento só piorava cada vez mais a sua situação. Além disso, o quarto em que ele dormia era apenas iluminado por uma deprimente luz azul.

Após um forte ataque de ansiedade, o baixista resolveu deixar em definitivo a mansão Paramour para investir em sua recuperação mental, fazendo terapia e acompanhamento médico. Mas nunca mais passou nenhuma noite na casa, apenas voltando por alguns períodos quando não estava em tratamento para acompanhar e contribuir no processo criativo e de gravação do disco. 

Michael Way/Reprodução

O fato do irmão ter deixado a mansão mexeu com Gerard Way, que também não estava tendo uma das melhores estadias na casa. O vocalista estava tendo sérios problemas para dormir e tendo experiências de paralisia de sono enquanto tinha pesadelos.

Em uma noite, ao finalmente conseguir dormir, Way acordou sobressaltado sentindo como se estivesse sendo enforcado por alguém que segurava seu pescoço com as duas mãos. Essa experiência, inclusive, foi a inspiração para a música “Sleep”. Gerard gravava algumas de suas experiências sobrenaturais que aconteciam durante a noite e alguns de seus pesadelos. Parte dessas gravações foram utilizadas na introdução da música:

“They are these terrors, and it’s like

It feels like as if somebody was gripping my

They’re theses terrors and it’s like

It feels like as if somebody was gripping my throat

Like last night, uh, they’re not like tremors

They’re worse than tremors they’re, they’re theses terrors

Like last night, uh, they’re not like tremors

They’re worse than tremors they’re, they’re theses terrors

And it’s like

It feels like as if somebody was gripping my throat

And squeezing and

And it feels like as if somebody was gripping my throat”

“Eles são estes terrores, e é como
É como se alguém estivesse agarrando o meu
Eles são estes terrores e é como
É como se alguém estivesse agarrando o meu pescoço
Como noite passada, uh, não são como esses estremecimentos

Eles são piores que esses estremecimentos eles, eles são estes terrores
E é como
É como se alguém estivesse agarrando o meu pescoço
E apertando e
E eu sinto como se alguém estivesse agarrando o meu pescoço”

O disco ter sido gravado nesta mansão especificamente, também mudou os rumos do conceito e do nome que ele seria intitulado. O clima e a tensão entre os integrantes fez com que eles criassem uma sala específica para que pudessem conversar sobre o que estavam passando ou simplesmente colocar os pensamentos sombrios que a casa os induziam a ter.

Este quarto ficou conhecido como “Heavy Room” e era o lugar mais frequentado por Way, onde ele fazia anotações – muitas vezes sem nexo e até mesmo bizarras – e um dia, em uma dessas anotações, ele escreveu: “we are all just a black parade” (“nós somos apenas uma marcha negra”). E o nome do disco que previamente seria chamado de “The Rise And Fall Of My Chemical Romance” foi descartado.

Apesar da sala ajudar a manter um pouco da sanidade entre os presentes da casa, não foi só Way o único afetado diretamente pela saída fixa de Michael da mansão. Ray Toro também demonstrou um comportamento fora do comum. O guitarrista, conhecido por seu bom humor e carisma, começou a apresentar um comportamento mal-humorado e soturno, algo que quase gerou uma discussão com Way uma noite.

O vocalista ouviu Toro tocando uma mistura de solos de músicas do Ozzy Osbourne ao invés de estar treinando as músicas novas que a banda deveria gravar e se irritou, pois sabia que se o guitarrista estava tocando justamente aquelas músicas era porque estava chateado ou incomodado com alguma coisa. Fato que demonstra o quanto os dois tinham proximidade, afinal, quem é que não sabe qual a música que o melhor amigo escuta quando está triste, feliz ou “in a bad mood”

O que viraria uma discussão, se tornou uma música. Way se sentou com Toro e os dois escreveram uma música que depois ficaria conhecida como “Famous Last Words”, inspirada pelo fato de Michael ter deixado a mansão. No dia seguinte, quando o mais novo do Way voltou a casa para os afazeres do dia, os dois mostraram a letra que haviam composto e o ânimo criativo, assim como de união, melhorou dentro da mansão Paramour. Confira o verso em que fica claro sobre a falta de Michael na canção:

“I know that I can’t make you stay, but where’s your heart?
And I know, there’s nothing I can say to change that part
To change
(…)”

“Eu sei que eu não posso te fazer ficar, mas onde está o seu coração?
E eu sei que não há nada que eu diga que possa mudar esta parte
Para mudar
(…)”

A música teve um motivo especial para ser composta e não foi uma surpresa quando virou um single com direito a um videoclipe extremamente intenso e catatônico. Toda a ambientação utilizada no videoclipe de “Welcome To The Black Parade” pode ser vista pegando fogo no decorrer do vídeo, mas apesar do resultado final ter sido impactante, a execução não saiu como o esperado.

Após a gravação, o My Chemical Romance cancelou a participação que faria no festival Street Scene em San Diego e diversas especulações rodaram a internet – especificamente, pelo MySpace, rede social que era utilizada na época para espalhar boatos sobre bandas, artistas e afins – sobre o vocalista Gerard Way ter quebrado o tornozelo e o ex-baterista Bob Bryar ter sofrido queimaduras de terceiro grau ou na gravação do videoclipe de uma música que poderia ou não se chamar “The Black Parade” (nota: o disco ainda não havia sido lançado ainda, quando o videoclipe de Famous Last Words foi gravado) ou em um acidente de carro.

Como todos nós conhecemos o fandom que fazemos parte e, ainda mais em 2006, época onde o My Chemical Romance ainda usava o site como forma de comunicação com os fãs e dava notas eventualmente sobre esclarecimentos, a banda publicou o seguinte comunicado em seu site oficial:

“Existem toneladas de rumores e alegações falsas rodando por aí e queremos esclarecer as coisas para vocês. Estes são os fatos e saibam que nenhum dos ferimentos sofridos foram permanentes ou intencionais. Na semana passada, enquanto filmávamos um novo videoclipe para o nosso novo disco… Gerard rompeu alguns ligamentos de seu tornozelo e Bob teve uma queimadura grave na parte de trás da perna. 

Estes ferimentos foram sofridos na noite de quinta-feira. Na sexta-feira de manhã, dirigimos para San Diego para nos preparamos para a nossa performance. Depois de vermos os médicos, decidimos nos esforçarmos ao máximo e ensaiar na sexta-feira à noite. Isto se mostrou impossível. A dor foi esmagadora e não poderíamos nos forçar muito além sem piorar o estado em que já estávamos. 

Então, aí está, não houve naufrágios, ataques de monstros ou raptos de alienígenas, mas houve ferimentos graves que exigiram que este fosse o caminho. Odiamos cancelar shows, especialmente agora que terminamos de gravar e só queremos tocar. Sentimos falta de todos vocês e nos veremos em breve”.  

Gerard Way no videoclipe de “Famous Last Words”/Reprodução

O Conceito e Os Personagens

Acho que ninguém melhor do o criador para explicar a sua obra. Em dezembro de 2006, o My Chemical Romance lançou uma versão limitada do disco The Black Parade que acompanhava um livro em que Way narrava desde o início como foi compor, produzir e construir o The Black Parade. Também há a participação, porém mais curta, dos outros integrantes, mas como há detalhes interessantes vou compartilhar uma parte da tradução do livro com vocês em que ele explica o conceito e os personagens do disco:

“(…) Nós precisávamos de um herói. Este herói tornou-se um paciente. The Patient. 

Eu vejo o paciente como este pequeno homem frágil, alguém que morre antes do tempo, alguém que nunca se deixou amar verdadeiramente, alguém um pouco triste e um pouco patético. Eu o vejo como um personagem que todo mundo pode se relacionar.  Outros personagens que se mostraram bastante importantes para a narrativa quanto ele foram a Fear (medo) e a Regret (arrependimento), que são as gêmeas. The Soldiers (os soldados). The Scape Artist (o artista plástico), Mother War (a mãe guerra)… Estes são os personagens que ele vai conhecer em sua jornada para a perdição ou a paz eterna.

Tudo isso começa em um hospital…

O conceito básico é: quando você morre… Como a morte aparece para você?

Eu gosto de pensar que quando isso acontece, ela aparece para você do jeito que você quiser, como se estivesse em seu subconsciente, (ela) encontra algo forte dentro de você e se transforma nisso.

Uma memória. A sua memória mais forte.

(…)

Nós somos apenas uma Black Parade.
Desolador, eu sei, mas é alguma coisa nova. Alguma coisa totalmente nova para mim. E trazia junto tantas imagens: procissões de funerais, Macy’s Day (nota: é o dia de graças em que ocorre um desfile, o ‘parade’), santos, balões, trombones, Dia De Los Muertos, morte. Soou como algo que nós precisávamos.

E se a memória mais forte do The Patient fosse uma de sua infância?
E se o seu pai tivesse o levado para assistir a um desfile?
E se fosse assim que a morte aparecesse para ele? O que é The Black Parade?  

Neste disco, para nós, The Black Parade representa algumas coisas. Na história, representa a morte. Representa a marcha final do The Patient para uma forma desconhecida que a morte assume. 

Como banda, pareceu que o nome The Black Parade serviu melhor para nós do que My Chemical Romance. Representava tudo o que nos consagrou: a ironia, o humor sombrio, a natureza celebrativa da nossa música apesar da escuridão ao mesmo tempo. A coesão e a rebeldia. A irmandade. Se tornaria nosso alter ego para este disco. Nós precisávamos nos tornar uma nova banda a fim de enfrentar o que a vida jogou para cima de nós, as dificuldades, os tumultos, o medo. Arrancamos nossa pele e expusemos os ossos. Nós nos tornaríamos uma banda reconhecida como The Black Parade. Não uma carcaça, mas uma declaração:

Vocês não podem nos destruir.

Eu não tenho medo de viver.

Nós seguiremos em frente.

Como pessoas, isso resumia os nosso fãs. Nossa conexão com os fãs é muito importante para nós. Sempre fomos nós contra mundo e nós sabemos o desfecho dessa piada sombria. Qual o melhor jeito de demonstrar isso do que fazê-los participar disso?”

My Chemical Romance, Mother War, Fear & Regret e The Patient/Reprodução

The Black Parade Is Dead!

Devido a tanto empenho, dedicação e envolvimento emocional o The Black Parade atingiu a certificação de platina triplo, ou seja, 3 milhões de cópias vendidas, marca que havia sido contabilizada até o ano de 2018. O sucesso “Welcome To The Black Parade” se tornou um hino mundialmente aclamado e, superando até mesmo barreiras infundadas no quesito de estilos musicais, uma música que não passa despercebida ou ignorada quando é tocada em algum lugar.

A música permaneceu em 9º lugar no Hot 100 Chart da Billboard por 26 semanas consecutivas e os singles “Famous Lasts Words”, “I Don’t Love You” e “Teenagers” também conquistaram seu espaço, sempre entrando entre os videoclipes mais votados e mais vistos da MTV.

Mas nem tudo se resumiu a glórias e premiações. Infelizmente, o caso trágico do suicídio de uma adolescente fã de My Chemical Romance na Inglaterra repercutiu em uma onda infundada de ataques do tablóide Daily Mail acusando a banda de ser um “culto emo suicida.

O FYDBR abordou o caso em um especial de matérias que você pode ler aqui em que explicamos a maneira com que o jornal foi irresponsável ao tratar de um assunto tão delicado quanto saúde mental de uma maneira tão sensacionalista, sem respeitar os pais da adolescente.

Também falamos sobre como a música é uma grande aliada quando precisamos cuidar de nossas mentes, além de entrevistamos a psicóloga Caroline Vilaça, para conversamos sobre como o emo influenciou nossa adolescência e como podemos mudá-lo a partir de agora, para que neste revival do movimento, antigos hábitos autodestrutivos sejam substituídos por apoio e conscientização. Um assunto muito importante que você também pode ler aqui e conferir o podcast recém lançado sobre o assunto aqui.

Além dos ataques do Daily Mail, a banda também sofreu ataques físicos em uma apresentação no festival Download Festival em 2007. Assim que a banda entrou no palco para se apresentar a platéia do festival começou a jogar qualquer coisa que estivesse por perto, de lixo a garrafas com urina.

Havia uma pequena parcela de fãs de My Chemical Romance espremidos na grade – o que não passou despercebido por Way – e o vocalista não se intimidou pela multidão, provocando e sendo sarcástico o tempo todo. Em um momento, perguntou: “Vocês querem que eu me foda? Pois que já estou fodido.” Sinceramente? Nestes momentos, não há nada que pare sassy Gerard Way.

Assistam ao belíssimo vídeo:

Após o período de turbulência e shows memoráveis, o My Chemical Romance decidiu colocar um fim em seu próprio alter ego. Nada melhor do que ser em uma cidade com uma tradição tão marcante quando se trata da morte: o México. O país comemora o Día de Los Muertos onde as famílias costumam ir aos cemitérios visitar os túmulos dos seus entes queridos para preparar altares com alimentos, velas, flores e elementos que eles julguem especiais para quem já se foi.

A lenda conta que somente neste dia as almas podem voltar do além para ficarem próximas de quem amam. O feriado, que é de origem indígena, existe desde a época dos Astecas e dos Maias, sendo muito tradicional para os mexicanos. Algo muito característico e usado são as caveiras de açúcar, que mundo afora são reconhecidas como “caveiras mexicanas”. A banda inclusive utilizou como estética no lançamento do DVD The Black Parade Is Dead Limited Edition. O FYDBR comentou sobre o DVD na integra no nosso podcast você pode ouvir aqui.

Na visão da lenda do Día de Los Muertos, a morte é vista como uma celebração, não com a visão mórbida e triste dos países predominantemente cristãos. Por ser um reencontro com quem você ama e que já se foi, é um momento para se fantasiar, decorar as ruas, as casas, cozinhar com grande fartura e o símbolo das caveiras representa a igualdade entre todos perante a morte independente da classe social.

A caveira foi incorporada à tradição devido aos Astecas, pois era parte da representação do deus Mictlantecuhtli, governante do submundo asteca.

Neste local tão emblemático, o My Chemical Romance colocou fim a uma era. Na verdade, eles pensaram ingenuamente que estavam colocando um fim ao que quase havia os destruído. Mas não funcionou. O The Black Parade nunca morreu de verdade e tentar colocar um fim nesta história, neste alter ego, não impediu o inevitável anos depois. O My Chemical Romance sim chegou a um fim.

Era palpável o quanto o esforço, a intensidade, a entrega e os altos níveis de pressão haviam desgastado aqueles garotos – que agora eram homens – de New Jersey. Mas nós sempre nos convencíamos do contrário, não queríamos ver. O cansaço no palco era porque a turnê estava longa demais. A falta de sintonia no palco era uma fase. Foram tantos sinais. Outra era chegou, mas assim como veio, ela partiu sem maiores explicações. 

Mas agora, em 2020, 14 anos depois, eu pude escrever esse texto e terminá-lo dizendo que The Black Parade is alive forever. Assim como o My Chemical Romance. Porque eles estão juntos de novo; nós estamos juntos de novo e sabemos que isso é para sempre.

Até a próxima bíblia emo!

Beijos mafiosos,

MT.

One thought on “The Black Parade Is Alive Forever: 14 anos do lançamento do disco conceitual que marcou gerações

  1. Adorei a matéria. São 14 anos de um álbum que tem muito a dizer ainda, que antecipou-se à sua própria época. Os caras eram visionários mesmo.

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