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Review Especial: Aniversário de 13 anos de lançamento do Umbrella Academy

Como o “quadrinho do vocalista do My Chemical Romance” se tornou um quadrinho respeitado por nomes influentes do meio artístico

Texto por: Mario Pugliesi
Edição por: Gabriela Reis e Marina Tonelli

Começa com o knockout de uma lula espacial gigante

Em setembro deste ano foi comemorado o aniversário de 13 anos do lançamento do primeiro fascículo do arco Apocalypse Suite do Umbrella Academy, escrita por Gerard Way, conhecido por ser vocalista da banda My Chemical Romance, e desenhada por Gabriel Bá, quadrinista brasileiro e ganhador do Eisner – a maior premiação para área de quadrinhos. 

O quadrinho, que começou sendo fortemente rotulado como “o quadrinho do vocalista da banda My Chemical Romance”, hoje é um fenômeno que abrange 3 coleções encadernadas (e já sabemos que estão trabalhando na quarta), action figures, mochilas, canecas, camisetas, botas, casacos, funko pops e até meias, além, é claro, de duas temporadas muito bem avaliadas no Netflix. E, para comemorar seu aniversário, o FYDBR me pediu para escrever essa coluna.

A música e os quadrinhos se misturam na vida de Gerard Way. Às vezes você encontra alguma mídia dizendo que ele queria ser guitarrista, começando cedo com um violão que ganhou da avó aos 8 anos de idade e depois abriu caminho para as artes gráficas, acabando por encontrar espaço nos quadrinhos. Já em outros sites especializados, você encontra o inverso. 

Seja começando como guitarrista para se descobrir vocalista ou lançando seu primeiro quadrinho aos 16 para depois cursar bacharelado em artes na School of Visual Art em NY e aí estourar com uma banda, não importa a ordem em que as coisas aconteceram. Suas histórias se misturam e, sorte a nossa, ambas funcionaram muito bem.

Mas aqui, para variar um pouco o que esse site faz tão bem, não vamos falar de música. As perguntas são outras: como nasceu The Umbrella Academy? Por que trabalhar em quadrinhos? Quais as influências? E, finalmente, o que é Apocalypse Suite?

Gerard Way conheceu os quadrinhos durante uma ida ao hospital para tirar suas amídalas. Para passar o tempo, ganhou alguns quadrinhos, que acabaram o levando a se jogar nas comic stores e se apaixonar pelos X-men do Chris Claremont. Pouco tempo depois ele passou a trabalhar em uma destas lojas, onde pode experienciar os mais diversos títulos, jogar RPG com o pessoal da loja e, infelizmente, sofrer um assalto armado.

Do tempo da loja, ficou o amor pelos quadrinhos, pelo RPG e as amizades. Foi nesta época que ele conseguiu um acordo para lançar seu primeiro quadrinho, On Raven’s Wings, provavelmente fortemente influenciado pelos quadrinhos do Corvo. Dali ele seguiu para se formar em artes na School of Visual Arts e fazer estágio na DC Comics. Mas quando fazia estágio no Cartoon Network, tudo mudou. Os ataques às torres gêmeas aconteceram em 11 de setembro de 2001 e Gerard disse um adeus para as artes gráficas e se jogou de vez na música.

Enquanto o My Chemical Romance acontecia, voltou a crescer a vontade para contar diferentes histórias. Entre uma viagem e outra ele começou a desenvolver os personagens para uma história em quadrinhos e, finalmente, colocou o primeiro número no papel, não só escrevendo, como desenhando também e enviou para a Dark Horse Comics. Com um ok da editora, o brasileiro Gabriel Bá foi chamado para compor a arte dos quadrinhos, redesenhando e colocando sua própria visão em cima das criações de Gerard. Assim nasceu Umbrella Academy.

A versão encadernada de Apocalypse Suite, versão que junta os seis primeiros números tem uma introdução escrita por Grant Morrison e existe motivo para eu comentar sobre ele aqui. Morrison é grande influência na carreira escrita de Gerard. Ele criou e escreveu a série “The Invisibles”, que é influência para grandes produções do final dos anos 90 e início dos anos 2000, como por exemplo, a trilogia do Matrix. Também teve uma sequência que mudou grande parte de como as pessoas enxergavam os personagens principais dos X-Men. Fez o mesmo com uma série antológica do Super Homem, o “All-Star Superman’

O escocês esteve envolvido com quase tudo de importante que aconteceu nos quadrinhos mainstream desde o meio da década de 90 e ainda achou tempo para trabalhar em livros autorais e estranhos. No meio disso tudo, ele fez uma das sequências mais comentadas da Patrulha Destino (Doom Patrol). E esta sequência teve um impacto profundo em Gerard. Os dois acabaram se aproximando e trocando figurinhas diversas vezes. Gerard convidou Grant para participar de alguns clipes de sua banda, Grant escreveu a abertura da primeira encadernada do The Umbrella Academy. A amizade evoluiu.

Quem conhece o jeito acelerado e cheio de loucuras da escrita de Grant Morrison vai poder encontrar um pouco disso nas páginas do Umbrella Academy. E a estranheza inicial vai se transformando em normalidade a cada nova página, a cada novo quadro, diálogo, explosão. A história que segue é a seguinte: em um dia, 43 mulheres que não estavam grávidas quando o dia começou, passam por toda a gravidez, trabalho de parto e dão à luz a crianças saudáveis em questão de minutos. 

Um bilionário excêntrico, super premiado e ganhador de medalha de ouro em uma olimpíada, tenta adotar o maior número deles possível. Consegue adotar 7. Seis destas sete crescem e desenvolvem poderes, a sétima é ordinária; comum. Ele monta um super grupo com o objetivo de salvar o mundo. 20 anos depois, um deles morre e eles todos se separam. É quando seu pai adotivo morre, forçando a todos a voltarem se ver.

É uma história de super heróis, é uma história de família, é uma história de cada um destes personagens e como eles lidam com as dores e alegrias de se crescer e amadurecer neste planeta que vivemos. A única diferença é que o planeta que eles vivem é um pouquinho mais estranho do que o nosso. 

Tem aliens, super vilões, viagens no tempo, realidades paralelas, fazedores de zumbis, robôs assassinos, superpoderes, violinos e orquestras, uma lula gigante espacial e, claro, um evento cataclísmico que irá destruir toda a vida na Terra. Isso em seis edições que parece não ter freio e nem tempo para te explicar cada uma das estranhezas que acontecem. Entre no carro, eu te explico no caminho.

Umbrella não pede desculpas pelo o que é, ao contrário, é um quadrinho que sabe muito bem quem é e o que está vindo te trazer. A história não espera por você, ela te leva junto, de uma maneira em que enquanto você lê, tudo faz sentido, e quando você acaba, fica só a saudade dos personagens bem construídos e das loucas aventuras que eles ainda vão se meter.

Claro, vale dizer, que se você chegou aqui por causa da série do Netflix, vai precisar se aclimatar. Steve Blackman, que assumiu para desenvolver a série a partir dos quadrinhos, percebeu a força que os personagens tinham e abaixou alguns decibéis das estranhezas que aumentavam de uma página para outra. 

A velocidade da história muda muito de uma mídia para outra. Enquanto a série leva seu tempo desenvolver os personagens e sua psique, os quadrinhos mudam o tempo todo, quase de um quadro para outro, aprofundando aqui e ali os personagens, mas muito mais focado nas histórias que está contando. Tudo é usado, tudo é rápido, e assim que passa, fica para trás e já estamos em outro problema.

Os quadrinhos são convidativos, os desenhos são lindos, os personagens são complexos e interessantes, as cores são icônicas, a velocidade da história é terminal e a escrita criativa faz tudo parecer importante. Abra a primeira página e entre por sua conta e risco, sabendo que você pode nunca mais querer sair.

It starts with a knockout in a giant space squid, and it ends like it should end. It ends with a boom.

Começa com um nocaute em uma lula gigante espacial e termina como deveria. Termina com um boom.

Até uma próxima sobre Umbrella Academy, 

Mars.

Mario Pugliesi foi sócio da loja de quadrinhos Merlin ComicStore em São Paulo de 1997 a 2000. Tem uma coleção enorme de quadrinhos, vhs, dvds e blurays e fala de cultura pop a cada quinze dias no podcast Catching up. Para ouvir:

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