FAKE YOUR DEATH BRASIL

Sua fonte oficial de notícias do My Chemical Romance reconhecida pela Warner Music Brasil

Especial Setembro Amarelo: Qual foi o impacto do movimento emo na vida dos adolescentes?

No último artigo da série de matérias do mês de prevenção ao suicídio, o FYDBR entrevistou a psicóloga Caroline Vilaça para debater questões que ainda permeiam o movimento musical e cultural.

Por: Marina Tonelli
Revisão: Gabriela Reis

TW: Essa matéria contém informações ou descrições que podem causar gatilhos em pessoas sensíveis a certos temas retratados.

Quando o movimento emo surgiu nos anos 2000, ninguém sabia muito bem o que ele representava. Aliás, ninguém sabia ao certo nem como ele realmente havia surgido. E ainda existe uma grande controvérsia entre o emo que nós conhecemos e o emocore que se originou das bandas de post-hardcore lá na em Washington D.C no meio dos anos 80.

Naquela época, no auge do movimento punk e do hardcore visceral, surgiram bandas consideradas como emotional hardcore por tratarem sobre temas mais sentimentais, porém, mantendo as guitarras, a energia e a agressividade vinda do hardcore. Bandas como Rites of Spring e Embrace não tem absolutamente nada a ver com o que nós consideramos emo na atualidade. Inclusive, ai de nós compararmos essas bandas respeitadíssimas de emotional-hardcore com o nosso emo, não é mesmo? 

Agora em 2020 é muito mais fácil você brincar, postar nas redes sociais e dizer em alto e bom tom que a banda que você gosta é emo. Mas não era bem assim lá em 2004. Se alguém te chamasse de emo era um xingamento. Não um xingamento leve, mas um xingamento humilhante. 

Você precisava mentir, inclusive discutir que a banda que você gostava não era emo porque isso significava que ela era péssima e você não tinha bom gosto musical, só fazia parte de uma moda passageira. Imagem que a mídia começou a explorar de forma vexatória como você pode conferir nesse vídeo exibido no programa do Gugu em 2007.

Se os xingamentos e as humilhações já eram motivo de preocupação, já que aconteciam dentro da sua própria casa, no colégio e até mesmo na rua, quando isso escalonou para algo além do verbal, ficou muito pior. Um ponto de encontro que ficou conhecido por ser o lugar preferido em que os emos frequentavam em São Paulo, a Galeria do Rock, se transformou em um campo de guerra. 

Metaleiros, góticos, punks e até mesmo pessoas que não faziam parte de nenhum movimento começaram a fazer mais do que simplesmente xingar ou humilhar os grupos que apareciam para se encontrar por ali. Começou a se tornar físico. Agressões se tornaram frequentes e, é claro, que os skinheads não ficariam fora disso. Abaixo é apenas um exemplo das milhares de agressões (faça uma pesquisa rápida no google) ocorridas de skinheads contra emos.

O cenário já não era positivo para quem fazia parte do movimento e ter que se esconder, ser hostilizado pela sociedade e correr o risco de ser agredido não contribuiu para um grupo que já estava mais suscetível a abraçar a tristeza, ainda mais em um período como a adolescência. Aqui no Brasil, a exaltação da tristeza aconteceu, mas em escalas menores do que em outros países. 

Por nossa cultura ser mais voltada para a sociabilidade era muito mais fácil encontrar grupos reunidos utilizando este contato como suporte para compartilhar experiências e lidar da melhor maneira possível com o cenário da época. Mas não foi o que aconteceu em outras culturas.

Nossa psicóloga entrevistada, Caroline Vilaça, conta sobre o cenário internacional:

Lá fora a exaltação da tristeza, que sempre existiu na nossa cultura, ganhou uma nova roupagem com o movimento emo. Vários adolescentes que precisavam de ajuda e que eram desencorajados por esse esteriótipo, iam procurar o pai, a mãe ou qualquer pessoa responsável que pudesse ajudá-los pagando uma terapia ou um psiquiatra que indicasse remédios, mas não conseguiam esse amparo pela perpetuação desse estereótipo. Porque as pessoas diziam ‘não, isso é frescura, você é adolescente’. Aí que morava o problema, porque essas pessoas que tinham transtornos, como não conseguiram ajuda com quem deveria ter dado suporte a elas, procuravam pessoas que também tinham problemas e que também estavam exaltando a tristeza.” 

Algo que também que difere bastante o cenário emo brasileiro do internacional, é a comunicação nos fóruns. Aqui, no ápice do movimento, o que estava em plena ascensão era o Orkut, mas as comunidades eram utilizadas para conversar sobre as bandas preferidas, os scraps e depoimentos para comunicação entre amigos e até mesmo a onda do fake que teve bastante popularidade em meados de 2006 para 2007.

“No cenário internacional os adolescentes se juntavam em fóruns compartilhando suas próprias tristezas e chegou ao ponto em que quanto mais triste você era, quanto mais negativo, mais popular você ficava. Aliás, até hoje isso acontece, um pouco também por causa desse lance do trap, do Lil Peep etc. Temos adolescentes postando foto como se estivessem sendo enforcados e compartilhando foto de automutilação enquanto os outros ficam exaltando isso. Então temos pessoas que precisam de ajuda, que procuraram por ela, mas não encontram, então elas vão se refugiar com essas pessoas que têm o mesmo problema porque de acordo com elas recebem empatia porque naquele ambiente todos passam pela mesma coisa”, relata Caroline. 

Um problema muito recorrente, que também ocorreu aqui no Brasil, eram fotos de cortes auto-infligidos na pele, às vezes nos braços ou nas pernas, com inscrições das bandas que as pessoas em questão gostavam. Muitas dessas pessoas tinham, sim, transtornos psicológicos graves e que deveriam ter um acompanhamento médico adequado, mas uma estranha tendência de moda por esse tipo de foto perpetuou por um tempo nas redes sociais da época como o Twitter e o próprio Orkut. Um comportamento problemático que poderia induzir pessoas que não tinham o transtorno a realmente tê-lo.

“Tudo perpetuava em um ciclo de tristeza; um ciclo de pessoas que se ajudavam a se matar e que ao invés de falarem uma para as outras para ficarem firmes, incentivavam esse tipo de comportamento. São pessoas com diversos tipos de transtornos, temos os borders, os com depressão maior, os com toc, com ansiedade, fobia social e eles vão se misturando e se incentivando, criando um cenário cada vez pior”, completa. 

Em relação à forma com que a mídia noticia assuntos que abordam saúde mental, fica claro a cada dia em que assistimos os noticiários da TV aberta, que a ética jornalística há muito tempo perdeu a sua importância. 

Da mesma forma com que o jornalismo esqueceu o código de ética dentro de um armário escuro por dinheiro, a sociedade normalizou assistir e se interessar por casos que deveriam ser chocantes ou causar mobilizações para mudanças na maneira com que as pessoas com transtornos são tratadas.

Voltamos à maneira anti-ética com que o Daily Mail noticiou a morte de uma adolescente de 13 anos fã de My Chemical Romance e Caroline Vilaça comenta sua visão como profissional sobre a abordagem: 

“Quando você noticia alguma coisa relacionada a suicídio e a um nicho específico, no caso do Daily Mail, você faz ao menos uma pesquisa. O jornal publicou a matéria de uma forma completamente irresponsável e estereotipada, contribuindo para a manutenção desse ciclo de embelezamento e endeusamento do sofrimento. As pessoas que estão no meio jornalístico, muitas vezes, não estão interessadas em saber a verdade, elas só querem noticiar porque tragédia dá dinheiro; dá audiência. A gente não precisa ir muito longe em relação à mídia, porque nós consumimos filmes de terror e filme de terror é basicamente você assistir pessoas sendo assassinadas e torturadas. Nós estamos dessensibilizados há muito tempo com o sofrimento humano, seja ele real ou não. Quando você convive com isso e sofre essa dessensibilização qualquer tipo de tragédia é entretenimento.” 

Além disso, ainda se tratando do Daily Mail, o jornalista Tom Rawstorne esqueceu os princípios básicos do jornalismo que é ao menos pesquisar a fonte sobre a qual você está escrevendo uma matéria. Sabemos que a notícia sobre um suicídio de uma adolescente de 13 anos deveria ser tratado com seriedade, ainda mais se associada a uma banda em ascensão no cenário musical da época, porém, criar histeria em pais ao redor do mundo, explorar a imagem de um casal em luto e sequer procurar entender o que a banda em questão teria a dizer à respeito, demonstrou graus elevados de insensibilidade e oportunismo.

“A pesquisa do Daily Mail foi muito rasa, porque eles simplesmente não se interessaram em saber o que realmente aconteceu, porque informação sobre isso tinha em qualquer lugar. Tem prints do Life On The Murder Scene do Gerard falando para as pessoas procurarem ajuda, tem reportagens dele falando sobre os próprios transtornos, então não é como se fosse uma coisa difícil de ser encontrada. Eles associaram o estereótipo do movimento e ao suicídio da adolescente ao My Chemical Romance por pura falta de apuração aos fatos.” 

Em relação ao movimento emo e como ele se desenvolveu ao redor do mundo através das letras mais profundas das diversas bandas que surgiram ao longo dos anos (que ainda geram debates infinitos sobre quais se encaixam ou não nesse segmento), à criação de um espaço para compartilhar sem medo de julgamentos a exposição nua e crua de seus sentimentos, cabe uma reflexão sobre como continuar a existir um espaço seguro para esse compartilhamento, mas sem a exaltação de comportamentos auto-destrutivos.

“Nós não podemos nos isentar da culpa, todos que fizeram parte do movimento emo e que amplificou o movimento independente do país, que aqui no Brasil pode ter sido mais ‘tranquilo’, reproduzia desinformação. Ao invés de indicar a pessoa a procurar uma ajuda especializada, a gente incentivava e exaltava aquela tristeza. Quanto mais triste, quanto mais ela compartilhava foto de automutilação e suicídio, mais ela ficava famosa dentro do movimento. Não podemos nos isentar da culpa porque tem muita gente daquela época que morreu porque realmente cometeu suicídio ou teve overdose. Isso também era algo que acontecia muito, as pessoas que se drogavam eram incentivadas a se drogarem ainda mais para terem forças para aguentar o dia e muitas vezes tinham overdose de várias substâncias. Acho que admitir que a gente tem culpa é importante porque a gente só consegue mudar depois que a gente admite que estamos errados, diz Caroline. 

Com a “volta” do movimento emo com mais força do meio de 2019 para 2020, essas questões são importantes virem à tona para que os erros cometidos no passado não sejam repetidos e não afetem quem queira fazer parte neste momento. Assuntos relacionados a saúde mental estão em alta nos dias de hoje e é muito mais fácil ter acesso a informação, porém, a romantização dos transtornos psicológicos continua, assim como a romantização do uso contínuo de remédios controlados. 

“Vivemos em sociedade que romantiza a tristeza e tivemos um movimento que deu uma nova forma a essa romantização em que era incentivado as pessoas a se mutilarem, se drogarem e fazerem o uso exacerbado de remédios controlados. Não era o caso de metanfetamina, cocaína, maconha etc, era mais remédios controlados por conta da poetização da overdose e pela faixa etária ser de adolescente gerava uma movimentação de manada. O movimento gerou muitos frutos, porém muitas coisas ruins também. Muitas pessoas morreram e muitas pessoas se aproveitaram disso.”

No momento em que vivemos hoje temos a oportunidade de começarmos a dar novos caminhos para um movimento que deveria ser acolhedor e oferecer amparo desde o início. Principalmente se tratando do fandom o qual a banda que esse site é dedicado. O My Chemical Romance desde seu início sempre nos transmitiu mensagens de amparo, aceitação, força e pela busca de nossos objetivos.

Apesar de nossas histórias pessoais – e as histórias pessoais dos integrantes da banda – terem momentos de dificuldade em que todos nós temos vontade de desistir, sempre há um caminho. Ajuda profissional é indicada em absolutamente todos os casos, mas se você precisar sorrir sempre existirá um vídeo do Gerard rebolando em Teenagers, sempre existirá um vídeo do Frank virando o microfone do Ray para que ele não consiga fazer o backing vocal, sempre existirá o vídeo em que o Gerard cantou “way down” em Cemetery Drive e o Mikey pulou e caiu. 

Para finalizar, Caroline Vilaça completa o que deveria ser os próximos passos do movimento emo:

“Acho que deveríamos aproveitar que o movimento está em evidência de novo e reestruturar esse movimento e fazer com que ele fosse tão acolhedor quanto ele deveria ser na época em que ele começou. Agora que boa parte das pessoas que fizeram parte dele já são adultas e têm profissões, eu, no caso, tenho uma profissão relacionada à saúde mental, tem como oferecer suporte para as outras pessoas que precisarem que é uma coisa que não aconteceu. Nós precisamos parar de incentivar as pessoas a se foderem. Nós precisamos parar de incentivar as pessoas a ficarem tristes. Nós precisamos parar de incentivar as pessoas a se drogarem. Nós precisamos parar de excluir as pessoas que não se drogam. O acolhimento é a resposta para as coisas.”  

Lembrando que caso você precise de ajuda, ou sinta que precisa conversar, os canais do CVV estão abertos para atendê-lo pelo número 188 ou pelo site cvv.org.br. Todos os voluntários da ONG são treinados para melhor assisti-lo pelos canais disponíveis na internet. A ligação é gratuita.

Beijos mafiosos,

MT.

Sobre a entrevistada:
Caroline Vilaça tem 24 anos e é formada em psicologia pela Universidade Estácio de Sá, aprovada com o TCC “O Comportamento da Mulher Em Relação a Sociedade Brasileira”. Atua como Psicóloga filiada ao Conselho Regional de Psicologia do Rio de Janeiro, seu público alvo são adolescentes e jovens adultos. Gerencia uma página no Instagram onde posta conteúdos de psicologia adaptadas a linguagem simples.

One thought on “Especial Setembro Amarelo: Qual foi o impacto do movimento emo na vida dos adolescentes?

Deixe uma resposta

%d blogueiros gostam disto: