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Review Especial: quais foram os acertos e os deslizes da segunda temporada de Umbrella Academy?

Resenha

A série lançada pelo Netflix chegou ao público com grandes expectativas e deixou claro que será um mundo à parte dos quadrinhos. 

Texto por: Mário Pugliesi
Edição por: Equipe Fake Your Death Brasil

Você conhece alguma família assim. Pode ser que seja a sua, a de um amigo querido, a de alguém da sua classe, do seu trabalho, mas certamente você conhece uma família disfuncional. Uma irmã é a popular que consegue tudo o que quer, mas nunca está feliz com isso. Um irmão está envolvido com drogas e não parece levar nada a sério, já o outro se sente superior a todos e leva tudo muito a sério. Por falta de um, tem dois irmãos com “daddy issues” – o complexo paterno. E tem a irmã isolada da família que não se sente parte do núcleo familiar. É real, é próximo e é fácil de se ver em uma ou outra situação que acontece com eles. Eu disse que eles têm superpoderes e eram uma equipe de super-heróis? É, tem isso, eles têm superpoderes e participavam de um grupo de super-heróis familiar. E como todo bom grupo de super-heróis, eles precisam salvar o mundo. De novo.

Vou falar aqui da segunda temporada da série que foi lançada pelo Netflix no final de julho, então se você ainda não assistiu e não está em dia, eu tomaria cuidado lendo este texto a partir deste ponto, podem ter spoilers e tirar a graça de algumas novidades. Então se você ainda não assistiu, assiste lá e volta aqui para continuar lendo depois, ok? Ok!

Na primeira temporada você é apresentado aos personagens e a como eles viriam a ser: todos nasceram espontaneamente, na mesma hora, no mesmo dia, de mães que não estavam grávidas no começo daquele dia. Um bilionário excêntrico resolve adotar o maior número destes bebês e consegue 7 deles: Luther, Diego, Allison, Klaus, Número 5, Ben e Vanya.

Quem leu os quadrinhos sabe a quantidade de coisas estranhas por página que o escritor Gerard Way, que vocês tão bem conhecem, e o desenhista brasileiro Gabriel Bá colocam. Gerard é fã confesso do trabalho do escritor escocês Grant Morrison, tendo, inclusive, colocado o escritor como vilão nos clipes de sua banda My Chemical Romance  nos singles de Na Na Na e Sing, ambos do CD Danger Days: The True Lives of the Fabulous Killjoys, de 2010. Mas a amizade vai além do texto de abertura da primeira encadernada do Umbrella Academy que é feito por Grant Morrison contando um encontro entre ambos.

Se os quadrinhos são uma aventura non-stop com mestres zumbis, monstros interplanetários e bandidos de todos os tipos, a série vai em outra direção. Há estranheza, é claro. De cara, um dos guardiões das crianças é um chimpanzé que se veste muito bem, fala com clareza e conhecimento, enquanto quem eles chamam de mãe é um robô ultra avançado. Mas as estranhezas vão sendo jogadas de maneira lenta para você enquanto o mais importante é o desenvolvimento dos personagens, aprofundando o lado psicológico e afetivo. A vida adulta é difícil e chega rápido.

Na primeira temporada visitamos os protagonistas lidando com a perda do pai, um homem ruim, distante, com temperamento difícil e que nunca estava satisfeito. Isso fez com que as crianças nunca se sentissem o suficiente, sempre querendo se provar mais e duvidando de cada uma de suas escolhas. Como adultos, eles são pessoas quebradas em situações difíceis. Luther ainda vivia segundo as ordens de seu pai; Diego havia tentado entrar para a polícia e falhado, virando um vigilante; Allison teve toda a fama que poderia querer, mas assim que parou de usar seu poder, perdeu o marido e corria o risco de não poder ver mais a filha, numa batalha por sua custódia; Klaus não consegue se manter sóbrio porque seu poder mantém a porta aberta para o mundo dos mortos e ele não sabe lidar com o sofrimento das pessoas que partiram; Número Cinco é um homem fora de seu tempo, preso em seu corpo de adolescente, um sobrevivente do fim do mundo e um assassino; Vanya é uma pária, se sentindo desimportante, isolada do mundo e de todos. Ah sim! E Ben, bom, Ben está morto.

A série aprofunda o que os quadrinhos trouxeram e, apesar de mudar pontos centrais dos personagens, entrega desfecho parecido, colocando-os em cheque, desta vez, perdidos no tempo. Um gancho e um início perfeito para uma segunda temporada. Segunda temporada, aliás, em que vamos de encontro a um outro assunto favorito de Gerard Way, o assassinato do presidente americano JFK

O trigésimo quinto presidente americano, John Fitzgerald Kennedy, vive no imaginário americano. Diversos filmes foram feitos falando sobre o assassinato, teorias e mais teorias da conspiração dizendo que as mais diferentes pessoas e instituições estavam por trás de Lee Harvey Oswald; o atirador que teria matado o presidente. Existe nisso algum fascínio para o autor, que além de se utilizar do evento como marco nos quadrinhos, até já o visitou em um ensaio fotográfico.

Ensaio fotográfico feito para a divulgação da HQ Dallas

A segunda temporada começa com os seis irmãos vivos e mais o espírito do irmão morto sendo largados em diferentes momentos do começo da década de 60, todos antes da data do assassinato, dia 22 de novembro de 1963. E aqui temos o grande trunfo da série em relação aos quadrinhos: ao aprofundar os personagens e ter feito algumas pequenas alterações na primeira temporada, é permitido que um cenário mais rico que aquele das aventuras de super-heróis seja demonstrado. Klaus que já havia passado um ano no passado e feito parte da guerra do Vietnã e lá vivido um grande amor, pôde reencontrar com seu amado antes dele partir para a guerra. A sua personalidade e seu conhecimento sobre cultura pop do futuro encaixaram perfeitamente com os movimentos hipsters da década e permitiu que ele criasse um pequeno culto. 

Os dois mais envolvidos com a fantasia de super-herói vão para lados opostos: Diego acaba em um hospital psiquiátrico por querer salvar o presidente americano, enquanto o outro vira capanga de um mais uma figura histórica, Jack Ruby, conhecido dono de uma boate que assassinou Lee Harvey Oswald e morreu de câncer na prisão antes de ter seu segundo julgamento. 

Vanya é atropelada assim que chega e perde a memória. Este é um recurso muito comum em séries de super-heróis. Sempre que o superpoder de alguém é muito forte e poderia facilmente resolver qualquer situação difícil, é necessário controlar e criar saídas para que este poder não ser usado o tempo todo. 

Quem assistiu a série Heroes lembra da quantidade de ideias furadas que foram usadas para impedir que Hiro Nakamura, Peter Petrelli e Sylar resolvessem qualquer situação num piscar de olhos. Isso acontece em uma dezena de outros exemplos e aqui não é diferente. O poder de Vanya é muito grande e precisa ser controlado cedo para que a série possa transcorrer normalmente. E vai ser justamente este poder, o problema que vai precisar ser enfrentado. 

O Número Cinco volta a ser o responsável por fazer a trama andar. Ele tem todas as chaves para todas as portas e entende melhor que os outros o que está acontecendo e o que eles precisam fazer para resolver a questão. Se ele e Vanya estão novamente em posições parecidas da primeira temporada, o desenrolar da trama é outro e trás momentos divertidíssimos, como quando Cinco encontra o eu dele no corpo velho antes deste voltar no tempo para encontrar sua família. E também permite o crescimento de outros personagens, como quando Diego entra para a agência na qual Cinco trabalha. Outro que ganha um brilho diferente e permite que compreendamos mais sobre o personagem é o próprio pai, Sir Reginald Hargreeves, visto em seu auge em meio de seus pares à época.

Mas o maior impacto da época e local é vivido por Allison. Nos quadrinhos ela é branca e tem os cabelos roxos, mas para a série foi escalada a atriz Emmy Raver-Lamperman, que é negra. A primeira temporada foi lançada e se passava em 2019, o que hoje parece uma época ainda mais longínqua. 

Sabemos que muito mudou no mundo neste período e a primeira temporada não precisou entrar na escalada das tensões raciais que chegaram ao pico após a morte de George Floyd em maio deste ano. Mas, quando os irmãos Hargreeves ficam presos na década de sessenta, a tensão racial está a flor da pele. Na década de 60 os ativistas Malcolm X, Marting Luther King Jr. e Medgar Evers estavam protestando e foram assassinados. É uma época pesada, conflituosa e de mudança e tudo isso impacta diretamente a vida da Rumor. Provavelmente uma das melhores partes da ótima segunda temporada.

A temporada é muito bem balanceada e passa ação e crescimento para todos os personagens, por isso, talvez, dois fatos chamem mais atenção de não terem sido mais bem trabalhados: Número Cinco continua a ser o puxador de carroça da equipe, levando a ação e a solução dos problemas. O responsável, mais uma vez, para unir todos. E Vanya é mais uma vez a bomba relógio que pode trazer o fim do mundo. Com um roteiro muito bem amarrado e o carisma dos personagens, a temporada funciona e não sentimos uma sensação de repetição, mas seria interessante se estes valores forem trocados para a terceira temporada. 

O que parece não ser um problema, pois o gancho para continuação é ótimo e vai direto para o fato deles terem tido tanta interação com o passado que alteraram o futuro. Vale dizer que agora série seguirá seu próprio caminho. Este final tem pouca, ou até nenhuma, ligação com o que acontece no terceiro encadernado dos quadrinhos, deixando aberto para que a série siga seu próprio caminho e explore novas facetas de cada personagem e histórias.

Eu abri dizendo que eles são basicamente uma família disfuncional, como tantas que conhecemos por aí. Mas eles demonstram nestas duas temporadas que é o amor que sentem um pelo outro, por mais quebrado que seja, combinada com a compreensão real de que cada um é do seu jeito e a contínua vontade de estar juntos que fazem deles uma família. E para fechar, deixo um questionamento da primeira temporada:

“Who cares if Dad messed us up? Are we gonna let that define us?”

“Quem se importa se o papai fodeu com a gente? Nós vamos deixar que isso nos defina?”

Até a próxima matéria sobre Umbrella Academy,

Mars.

Mario Pugliesi foi sócio da loja de quadrinhos Merlin ComicStore em São Paulo de 1997 a 2000. Tem uma coleção enorme de quadrinhos, vhs, dvds e blurays e fala de cultura pop a cada quinze dias no podcast Catching up. Para ouvir:

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