FAKE YOUR DEATH BRASIL

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Especial Setembro Amarelo: NOT AFRAID TO KEEP ON LIVING; A música como uma aliada à saúde mental

Texto: Malena Wilbert
Revisão: Marina Tonelli

Setembro amarelo é o mês em que nossos feeds  ficam cheios de mensagens de apoio e empatia para aqueles que sofrem com transtornos mentais. Ao mesmo tempo, já existe um movimento em resposta que reivindica uma mensagem alta e clara: esse debate precisa ser elevado e nós precisamos falar de saúde mental de uma forma mais honesta e abrangente. Esperamos que o tema ter ganhado tanta visibilidade levante questões que realmente causem mudanças na realidade atual. Precisamos falar sobre educação emocional, acesso público e gratuito à consultas e tratamentos, superação de estigmas, tabus e estereótipos. 

No terceiro especial do Fake Your Death Brasil sobre o setembro amarelo, retorno ao infame artigo do Daily Mail que culpa o movimento emo pelo suicídio de uma jovem. Pessoalmente, a publicação me incomoda de duas maneiras: como uma pessoa que lidou com transtornos de saúde mental a maior parte de sua vida, sinto-me ofendida pela maneira reducente e estereotipada a qual o veículo tratou o tema. 

Não menos, como jornalista e pesquisadora na área de jornalismo e sociedade, me revolta e decepciona que um jornal de grande alcance tenha tão pouca responsabilidade na apuração dos fatos, ignorando a potencialidade da profissão para elevar o debate público. 

Primeiramente, a publicação errou a não ouvir nenhum especialista sobre o tema, alguém que pudesse falar sobre a relação entre música e saúde mental com base em evidências e pesquisas. Foi a postura que a revista VICE assumiu em uma série de reportagens sobre música e saúde mental, que conta, inclusive, com um artigo sobre a importância do movimento emo para esse debate. 

A matéria, escrita por Emma Garland, abre uma discussão importante e que se aplica a diversos problemas sociais que enfrentamos ao longo dos anos: é preciso falar abertamente sobre os problemas de saúde mental, inadequação e tristeza, coisas que infelizmente, no geral, ainda são tratados de forma rasa, estereotipada e cercadas de tabus. 

Para escrever sobre o tema Garland entrevistou a Doutora e professora de sociologia Rosemary Lucy Hill da Universidade de Leeds, uma das maiores do Reino Unido. Em 2011 Hill coordenou uma pesquisa acadêmica sobre a relação entre música e transtornos mentais intitulada “emo saved my life”. Seus resultados desmistificam uma série de estigmas, concluindo que o movimento musical tem o mérito de trazer para o debate público um tema tão necessário enquanto fornece conforto aos seus fãs: “Acho que o emo provavelmente ajudou a tornar mais fácil falar sobre problemas de saúde mental para alguns grupos”, afirmou Hill. “Houve uma mudança mais ampla em direção a mais abertura e menos estigma nos últimos anos, então precisamos ter isso em mente também […] Bandas como My Chemical Romance definitivamente ajudaram alguns fãs a negociar seus problemas mentais de saúde. Eles não apenas forneceram grupos de apoio por meio de sua base de fãs, mas também suas mensagens líricas foram sobre como viver e aprender a viver com problemas de saúde mental, para encontrar maneiras de lidar com eles e ganhar apoio.” 

Durante a mesma entrevista para a Vice, Hill também comentou seu descontentamento com a forma que o suicídio de Hannah Bond foi tratado:

“Acho que os comentários do legista no inquérito de Hannah Bond foram absolutamente vergonhosos” disse. “Culpou a música e classificou sua saúde precária como uma ‘moda passageira’. Se recusou a levar a sério a doença e a morte dela, o que pode ser visto como parte de um mal-entendido maior sobre a doença mental. Mas também pode ser visto como parte do sexismo que reduz os interesses de meninas e mulheres jovens a nada mais do que perda de tempo frívola. ”

“NOT AFRAID TO KEEP ON LIVING”

Os resultados da pesquisa de Hill vão de encontro com as mensagens que os integrantes do My Chemical Romance vem disseminando ao longo dos anos. Por exemplo, na ocasião da publicação do Daily Mail, a banda publicou uma carta no site oficial prestando condolências e defendendo a música como um importante mecanismo de enfrentamento: “ […] My Chemical Romance é e sempre foi vocalmente anti-violência e anti-suicídio. Como uma banda, sempre fizemos disso uma de nossas missões através de nossas ações para fornecer conforto, apoio e consolo aos nossos fãs. A mensagem e o tema do nosso álbum “The Black Parade” é esperança e coragem. Nossas letras falam sobre encontrar a força para continuar vivendo através da dor e dos tempos difíceis.

Além da música, o grupo sempre usou sua voz de forma honesta e transparente, ajudando a diminuir o tabu a respeito do debate. Gerard Way já declarou que: “A diferença que queremos fazer é, em primeiro lugar, deixar essas crianças saberem que não estão sozinhas.” Esse posicionamento é particularmente importante quando consideramos que a ideologia liberal joga as questões de saúde mental para o âmbito privado, individualizando e impedindo até mesmo as pessoas de pedirem ajuda por não quererem assumir publicamente que estão passando por problemas. 

Assim como seu irmão, Mikey Way, também já abriu seu coração com os fãs, incentivando-os a procurarem ajuda quando as coisas estiverem ruins. Em uma carta publicada após sua internação para lidar com problemas de vício, Mikey contou sobre a sua experiência: “Aprendi com tudo isso que não há problema em pedir ajuda. Portanto, para todos vocês que estão lutando – procure ajuda. Diga a alguém próximo a você que você está lutando e permita que o programa faça o seu trabalho. Salvou minha vida e sou eternamente grato por isso”.

Falar publicamente sobre questões como vício e depressão pode ser muito difícil quando todos os holofotes estão sobre você. Entretanto, essa sinceridade é uma ferramenta para que as pessoas sintam-se menos sozinhas, mais aceitas e corajosas para enfrentar esses problemas na vida. Não é difícil achar relatos de como essa abertura já inspirou pessoas ao redor do mundo. 

Por exemplo, em uma matéria da Catalyst sobre o trabalho solo de Frank Iero, uma fã explicou como essa abertura e sinceridade a ajudou: “Ele me inspira porque é muito forte. Em sua música você pode deduzir os problemas que ele passou e os momentos difíceis que ele passou, mas ele ainda está aqui e avançando. Acho que posso fazer o mesmo”

Ray Toro também não deixou de se manifestar, ampliando ainda mais a discussão falando sobre quanto o preconceito pode afetar o bem estar e a saúde das pessoas. Quando dedicou a música “For The Lost And Brave” para a jovem  Leelah Alcorn  que se suicidou após anos lutando contra a transfobia, o guitarrista desabafou sobre como se sentia sobre o assunto:

 “Eu me sinto doente. Mais uma jovem vida que se foi por não ser ouvida, não ser compreendida e não ser amada incondicionalmente por quem realmente era.[..] É hora de aprender a aceitar uns aos outros como realmente somos. Ser visto, ouvido e verdadeiramente amado como nosso eu autêntico é algo que todos queremos e algo que todos merecemos. ”

Em geral essas declarações – tanto da banda quanto de especialistas – apontam para um só caminho: é preciso debater saúde mental e falar sobre isso considerando a infinidade de fatores que interferem nela. Precisamos, em primeiro lugar, fazer com que essas pessoas saibam que não estão sozinhas, mostrando que há um caminho e uma forma de vencer. No mais, é necessário aceitar nossa responsabilidade como sociedade para que todos sejam acolhidos e sintam-se seguros para procurar ajuda quando necessário. 

Eu fico por aqui, enviando boas energias para todos durante esses tempos tão difíceis.

Lembrando que caso você precise de ajuda, ou sinta que precisa conversar, os canais do CVV estão abertos para atendê-lo pelo número 188 ou pelo site cvv.org.br. Todos os voluntários da ONG são treinados para melhor assisti-lo pelos canais disponíveis na internet. A ligação é gratuita. 

Keep your boots tight, keep your mask on!

Beijos, MW. Até a próxima! 

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