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Especial Setembro Amarelo: A irresponsabilidade jornalística

Na segunda matéria especial sobre o tema, a redatora e editora do Fake Your Death Brasil, Gabriela Reis, vai analisar como o Daily Mail infringiu regras importantíssimas de ética e responsabilidade jornalística ao relatar a morte da jovem Hannah Bond em 2008. Gabriela é jornalista formada pela USCS e o tema do seu trabalho de conclusão de curso, foi uma análise jornalística sobre o suicídio de adolescentes na mídia. 

Texto por: Gabriela Reis
Edição por: Equipe Fake Your Death Brasil

Durante muito tempo, o suicídio foi um tabu. Mesmo com estudiosos, filósofos, psicólogos e psiquiatras abordando o tema por anos a fio, o tema continua sendo ocultado pela mídia mainstream e é romantizado em livros, séries, filmes e até expressões culturais. 

Talvez eu torne esta matéria um pouco mais pessoal, uma vez que o tema sempre me trouxe fascínio e curiosidade, e por este motivo, meu trabalho de conclusão do curso de jornalismo foi justamente sobre esse assunto. Mas, em resumo, a posição do Fake Your Death Brasil é estimular o debate e visibilidade sobre o tema. Defendemos que isso deve ser feito de forma responsável, séria e com toda a sensibilidade que o assunto exige.

O suicídio na mídia:

Em 2017, a série da Netflix, 13 Reasons Why, chegou ao streaming trazendo uma roupagem problemática ao mostrar com detalhes o suicídio da personagem principal. Depois de meses, descobri que esta cena “singela”, estava infringindo normas sérias previstas no manual do CVV, Centro de Valorização à Vida, uma ONG com atuação em todo o mundo que ajuda na prevenção e combate ao suicídio.

 Ao noticiar casos de suicídio, jornalistas são orientados a seguir o manual do Centro de Valorização à Vida, um acordo internacional de noticiabilidade.

É importante afirmar também que após a exibição da série, o número de buscas sobre suicídio no Google chegou a 1,5 milhão em um curto período de duas semanas. O fato comprova que, ao ser tratado sem o cuidado necessário, o tema pode sim resultar em uma reação em cadeia.

Graças à internet, hoje podemos ter acesso a meios de prevenção de forma mais rápida, mas, ao mesmo tempo, outros estímulos podem ser encontrados facilmente nas redes sociais, como foi o caso recente de uma live onde um rapaz comete suicídio ao vivo, que viralizou Facebook a fora.

Segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS), a cada 40 segundos uma pessoa comete suicídio ao redor do mundo. Mesmo que os anos tenham passado e as pessoas estejam falando um pouco mais sobre o tema graças às campanhas como o Setembro Amarelo, ainda é um número expressivo, salientando a necessidade de tratar o assunto com responsabilidade e seriedade. 

Antes de começarmos a análise do artigo publicado pelo tablóide britânico, peço por gentileza que se você não acompanhou o artigo traduzido pela equipe do Fake Your Death Brasil, pare por aqui, leia o artigo e depois volte. A partir daqui, vamos contextualizá-los sobre o assunto pela perspectiva social e filosófica. Depois, vamos debater sobre os erros do veículo.

Um dos motivos que levam a mídia a não noticiar casos de suicídio está ligado a uma reação em cadeia, o chamado Efeito Werther. Ele foi observado pela primeira vez  após a publicação do livro “Os Sofrimentos do Jovem Werther”, escrito por Goethe no ano de 1774. O romance aborda o sofrimento de um rapaz que, ao perder sua amada, se suicida com um disparo de arma de fogo. 

Durante a época de lançamento, seu frenesi foi tanto que vários jovens cometiam o mesmo ato usando roupas parecidas e até o mesmo método, causando assim uma espécie de efeito dominó. Isso  fez o livro ser proibido em inúmeros países durante anos. Muito desse medo se reflete hoje em dia na maneira como os jornais e programas de TV tratam o suicídio: ou o ignoram completamente, como se não fosse um problema social e de saúde pública, ou o usam como uma maneira de vender a tragédia, fazendo as páginas escorrerem sangue, tal qual era o extinto jornal Notícias Populares, famoso por suas matérias sensacionalistas e sanguinárias.

É aqui que apontamos o primeiro erro do tablóide: além de noticiar o método que a jovem Hannah Bond usou para cometer seu suicidio, o veículo mostra trechos de diários, que vai totalmente na contramão do que psicólogos e psiquiatras recomendam. 

No livro “O Acerto de Contas de Uma Mãe”, Sue Klebold (a mãe de Dylan Klebold, um dos atiradores do massacre de Columbine, em 1999), relata que durante suas pesquisas ouviu de muitos psicólogos, psiquiatras e estudiosos a importância de não citar métodos, não divulgar cartas de suicídio, notas ou quaisquer diários ou cadernos. Essas pequenas divulgações trazem certas identificações com a pessoa que cometeu o ato, e por isso, ativam gatilhos em pessoas que precisam de ajuda. 

Fica claro que, além da falta de ética e sensibilidade ao abordar o assunto e fazer do sofrimento da família um modo para gerar mais visualizações e compras de jornais, o Daily Mail foi totalmente antiético ao não procurar nenhum especialista sobre o assunto para fazer o contraponto da matéria. 

Em termos jornalísticos, o artigo foi imparcial e totalmente tendencioso, culpando a banda My Chemical Romance – que já tinha um histórico de lutar e falar sobre suicídio e temas mais profundos desde sua criação em 2002 – e o movimento emo como um todo pela morte de uma garota que, visivelmente, sofria com problemas de depressão em uma fase onde o índice de suicídios costuma ser consideravelmente expressiva. Além de não procurar uma fonte especializada sobre o tema – uma das primeiras lições que aprendemos nas aulas de apuração jornalística – o veículo banalizou um assunto extremamente complexo, multifatorial e urgente. 

O veículo britânico culpou a banda e a música emo enquanto, na verdade, o suicídio é um problema multifatorial e complexo

O Código de Ética dos Jornalistas Brasileiros – um documento com valor legal – prevê que o jornalista não pode publicar informações que sejam de caráter mórbido, sensacionalista ou contrário aos valores humanos, especialmente em cobertura de crimes e acidentes. Sob essa análise, claramente o Daily Mail foi irresponsável, assim como outros diversos veículos brasileiros já fizeram em outras ocasiões (como foi o caso do Cidade Alerta onde o apresentador informou a mãe da vítima que a mesma tinha falecido ao vivo).

Um problema multifatorial e social

Segundo o sociólogo Émile Durkheim, o suicídio está além das barreiras individuais dos seres humanos; é um problema social, com camadas e características peculiares. Schopenhauer por sua vez, alega que o suicídio se dá quando o ser humano encontra-se em um estado profundo de tédio ou desilusão. 

O filósofo também segue a máxima de que a vida é dor, e sem dor, não poderíamos superar nossos obstáculos e continuar tendo estímulos para continuar vivendo. Com base nisso, presume-se então que Hannah precisava de ajuda e já estava em sofrimento, não foi influenciada por um culto “emo” que romantizava doenças psicológicas ou suicídio. 

Em uma das citações, o jornalista que assina o artigo, Tow Rawstorne, frisa um comentário de um dos colegas de Hannah, que disse para ela aproveitar a “black parade”. Sem nenhum aprofundamento, o jornalista coloca isso como uma espécie de culpa ao icônico CD do MCR, o The Black Parade, lançado em 2006. Como já comentamos anteriormente no Emocast, a obra trata a morte como uma alegoria, trazendo até mesmo uma certa carga emocional comparada por alguns críticos ao Dia dos Mortos, feriado latino comemorado no México. 

Existe uma grande diferença entre se romantizar a morte e vê-la como algo natural que se resume a passagem de todos pela Terra. O erro do tablóide foi entrevistar apenas jovens, sem embasamento algum, fazendo-os expressar suas reações ao movimento emo da época, que ganhava cada vez mais força, e trazendo um sério preconceito com relação às bandas e aos participantes do movimento. Essa compreensão errônea também aconteceu com o movimento gótico anos antes, que também era associado à um culto pela morte.

Um ponto importante e que precisa ser citado aqui é justamente a falta de diálogo que temos em torno deste assunto tão importante. Segundo a OMS, 9 em cada 10 suicídios poderiam ser evitados se a conversa fosse mais aberta e franca. Quais meios senão a comunicação em sua forma pura para ajudar nesta tarefa tão árdua que assombra a sociedade durante anos?

O CVV alega que até hoje o suicídio e o tratamento para doenças mentais é negligenciado pela sociedade. Mesmo o artigo sendo de 2008, podemos ver o quão frio o tablóide foi ao noticiar a morte de uma adolescente, culpando uma banda cujo o intuito sempre foi salvar vidas, incluindo a de seus próprios integrantes, como Gerard Way já cansou de dizer.

Acredito que, o ponto onde mais machuca lendo o artigo, é imaginar a dor dos enlutados entrevistados, no caso a mãe de Hannah Bond, que concedeu algumas aspas ao jornalista. Segundo o CVV, este tipo de atitude da mídia não é coerente, uma vez que não foi respeitada a morte da jovem e muito menos a dor de uma mãe que acabou de perder a filha.

No mais, fica para nós a reflexão sobre os motivos do qual a mídia ainda não quer abordar o tema com seriedade e responsabilidade. Talvez o jornalismo tenha medo de causar um efeito manada em mais pessoas ou ainda se prenda ao contrato de cavalheiros feito há anos desde o primeiro “Efeito Werther” em 1777.

Independente do que seja, nós do Fake Your Death Brasil acreditamos que a comunicação é extremamente importante nesses casos tão delicados, e por isso, seguimos com a nossa programação com as matérias pertinentes ao tema durante o mês de Setembro. 

Lembrando que caso você precise de ajuda, ou sinta que precisa conversar, os canais do CVV estão abertos para atendê-lo pelo número 188 ou pelo site cvv.org.br. Todos os voluntários da ONG são treinados para melhor assisti-lo pelos canais disponíveis na internet. A ligação é gratuita. 

Fiquem bem e se cuidem. 

Beijos da G., e até a próxima.

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