Sua fonte oficial de notícias do My Chemical Romance no Brasil reconhecida pela Warner Music BR. Nos acompanhe nas redes sociais e fique ligado nas novidades da banda.

Especial Setembro Amarelo: Como o Daily Mail tentou destruir a verdadeira imagem do My Chemical Romance

Matérias

O Fake Your Death Brasil preparou uma série de reportagens durante este mês para nos conscientizarmos sobre a importância de discutirmos sobre doenças mentais.

Para os fãs que não tiveram oportunidade de ler à época de sua publicação, a equipe do FYDBR está compartilhando, na íntegra, a tradução de um artigo publicado no tabloide britânico Daily Mail em 2008, que cita o My Chemical Romance ao noticiar o suicídio da jovem Hannah Bond, e culpa o movimento emo como fator determinante de sua morte.

Deixamos registrado que não concordamos com a forma que o veículo tratou o tema, infringindo a ética jornalística e desrespeitando manuais internacionais de noticiabilidade em casos de suicídio, um problema social complexo e multifatorial, infelizmente banalizado pelo Daily Mail na ocasião. Ressaltamos também que, por sua complexidade, a causa do suicídio não deve ser resumida apenas à participação de Hannah na comunidade emo.

Nós acreditamos no potencial de materiais informativos feitos com responsabilidade, qualidade e sensibilidade como uma ferramenta de apoio para a conscientização geral sobre problemas de saúde mental, que não validem estereótipos ou diminuam a complexidade do tema.  

Durante o mês de setembro, nossa equipe irá publicar uma série de matérias sobre esses eventos, recorrendo sempre a fontes especializadas, seguindo orientações de noticiabilidade previstas no código de ética e divulgando informações sobre canais de ajuda.

Se você, leitor, precisa de alguma ajuda ou sente que está apresentando sintomas de depressão ou outras doenças, por favor, procure uma ajuda especializada ou entre nos canais do CVV pelo número 188 ou então pelo site: cvv.org.br. 

TRADUÇÃO “Por que nenhuma criança está a salvo do sinistro culto emo”
Por Tow Rawstorne
Última atualização em 16 de maio de 2008 às 09:46

Hannah era uma garota de 13 anos feliz até ela virar ‘emo’ – parte de uma febre adolescente sinistra que romantiza a morte. Três meses depois ela se enforcou. Aqui, sua mãe devastada diz a outros pais: nenhuma criança está segura

Na noite antes de morrer, ela entrou em seu quarto, beijou a bochecha de seu pai Raymond e animadamente o disse: “Eu te amo, pai.” No dia seguinte, a mãe de Hannah, Heather, foi checar sua filha e a descobriu enforcada por uma corda pendurada na grade superior de sua cama. Ela gritou pelo seu marido, mas por mais que ele tentasse já era tarde demais: não havia nada que ele pudesse fazer para salvar a vida de Hannah.

Na desolação infinita das semanas seguintes, o casal tentou fazer o acontecimento fazer sentido. Por que sua filha – uma garota popular, inteligente e bonita – fez isso?

Eles encontraram apenas uma pista: Hannah era o que é chamado de “emo”.

Alguns descrevem como um culto ou uma seita, mas na realidade o termo – derivado da palavra “emocional” – condensa uma tendência que está se tornando imensamente popular entre as crianças britânicas. 

Uma importação transatlântica, seus seguidores se vestem de preto, especialmente com jeans apertados, camisetas, cintos com rebite e tênis ou sapatos de skate. O cabelo é muito importante: frequentemente pintado de preto e alisado, é normalmente usado com uma longa franja escovada para um lado do rosto.

A música também tem um papel importante. Emos gostam de rock com guitarra e letras emocionais. Bandas americanas como My Chemical Romance, Good Charlotte e Blink 182 são favoritas em particular.

Sem dúvida muitos adultos perguntariam: “E daí?” Na superfície, isso tudo parece tipicamente adolescente – angustiante, excessivamente dramático e tribal.

Na verdade, nada diferente da subcultura gótica que emergiu pela primeira vez na Bretanha no início dos anos 1980. Existe, no entanto, uma preocupação crescente de que há um subtom profundamente doentio no movimento emo. 

Algum tempo antes de sua morte, os pais de Hannah, que vivem em Kent, perceberam cicatrizes na parte de dentro de seus pulsos. Quando a questionaram sobre isso, honestos e abertos como sempre, ela disse que havia infligido os machucados ela mesma e que era parte de uma “cerimônia de iniciação” emo. Somente após sua morte eles descobririam como ela havia secretamente conversado com seguidores emo do mundo todo, falando sobre a morte e sobre a “black parade” – um lugar onde emos acreditam que irão após a morte. Uma olhada na página de Hannah na rede social Bebo revelou seu pseudônimo, Living Disaster, e que ela havia decorado a página com uma foto de uma garota emo com pulsos ensanguentados. Outra figura mostrava um livro de exercícios infantil rabiscado com as palavras: “Querido diário, hoje eu desisto.”

Mesmo que os machucados nos pulsos de Hannah tenham sido leves, o problema da automutilação entre adolescentes está causando preocupação crescente nas escolas britânicas.

Novos dados mostram que o número de crianças admitidas em hospitais por ferimentos auto-infligidos cresceu um terço em cinco anos. Em 2002/03 houve 11,891 dessas admissões; em 2006/07 cresceram para 15,955. Em ambos os períodos, havia três vezes mais admissões de garotas do que de garotos. Crucialmente, aqueles que se auto-mutilam são mais propensos a tentar suicídio.

Enquanto existe uma multitude de razões para essa epidemia (estresse por conta de provas e bullying, por exemplo), não é surpreendente que a emergência de uma subcultura que parece glamourizar a auto-mutilação e até mesmo o suicídio está sendo vista com alarme. Inevitavelmente, críticas contra a cultura emo são vistas como piada por aqueles que se vêem dentro dela. É só uma coisa de música, eles dizem, e qualquer um que tenta levar o debate adiante tem algo errado. “Se você ouvir as letras, vai ver que não tem nada que promove suicídio; e mesmo se tivesse, ninguém em sã consciência ouviria isso e pensaria: ‘Agora eu vou me matar’,’ um emo autoproclamado escreveu semana passada em um site de música após o inquérito da morte de Hannah. “Acho que ninguém pode dizer que há uma ligação entre emo e suicídio – é só um mito.” “O Emo se tornou um alvo fácil para o ridículo assim; mas no fim das contas emocional não significa suicídio.”

Isso é verdade, claro. Mas qualquer pai vai lhe dizer, adolescentes podem ser altamente irracionais. Eles também são facilmente influenciáveis e podem não ter a capacidade para lidar com emoções poderosas que podem ser aumentados por um senso de “pertencimento” a um sub-grupo que que se deleita com a autopiedade. 

É algo ao qual Lorraine Harrisson está atenta. Ela tem três filhas, a mais nova sendo Levi, uma garota de 11 anos que se classifica como emo. Recentemente, Levi perguntou à sua mãe: “Por que as pessoas se matam?”

“Quando ela me perguntou isso, me fez estremecer,” diz Lorraine, 46, de Alston em Cumbria. “Eu consegui manter a calma e explicar a ela que a mente das pessoas é muito perturbada, e que frequentemente elas não querem morrer. Mas por dentro eu me senti enjoada com preocupação por Levi estar pensando sobre essas coisas.”

Levi era o tipo de garota que se vestia de rosa e brincava com bonecas Barbie; agora ela só veste preto. Sua camiseta favorita tem estampa de caveiras, e ela passa horas em seu quarto ouvindo músicas do My Chemical Romance. “Suas letras parecem estar associadas com depressão e auto-mutilação, e eu entro em choque quando as ouço,” disse a mãe. “Levi pareceu deixar de ser uma garota animada que gostava de ter seus amigos por perto, e se tornou particularmente introvertida.”

Quando o tópico de suicídio apareceu, Lorraine ficou tão preocupada que ela ligou para o pai de Levi, David, de quem é divorciada. “Ele me lembrou que eu costumava ser rebelde também,” ela disse. “Eu era punk por um tempo, e ele me tranquilizou dizendo que provavelmente era só uma fase e que Levi cresceria.

“Mas eu não sinto que isso é como o movimento punk rock. Isso era sobre um entusiasmo por viver e ver a vida por um ângulo diferente. Nós não falávamos insistentemente sobre morrer.”

Os esforços de tirar Levi de seu torpor emo até agora obtiveram pouco sucesso. Antes do Natal, Lorraine comprou para sua filha um armário cheio de roupas e jeans de grife coloridas, mas elas foram usadas raramente. Ela baniu Levi de pintar seu cabelo de preto, mas está preocupada que mais repressão vai causar mais rebeldia. 

Levi insiste para a mãe que ela está se preocupando desnecessariamente. “Acho que muita preocupação sobre os emos não são justificadas,” ela diz. “Para mim, emos andam de skate bastante, usam roupas escuras e ouvem rock alternativo.

“É verdade que eles provavelmente pensam mais sobre sentimentos do que outras pessoas. Eu sou provocada por ser emo porque as pessoas na escola pensam que é só sobre suicídio e auto-mutilação. Mas acho que você já teria que ter depressão para se cortar – e eu não estou deprimida. Eu gosto de sair usando roupas emo porque causa choque. Não há muitos emos onde eu moro, então as pessoas olham para você.

“Faz você se sentir único.”

Esse senso de rebeldia e não-conformidade é algo que Jennina Taylor-Wells, de 21 anos, sente afinidade. Agora uma estudante na Universidade de Oxford Brookes, ela se tornou emo aos 16 anos. Para ela, também era um posicionamento. “Eu estava passando por um período triste na escola,” ela relembra. Eu cresci na área rica de Cheshunt em Hertfordshire, e estava rodeada de crianças ricas e mimadas. Eu sentia que ser emo definia a minha individualidade.” Olhando para trás, ela reconhece que o “culto”, como ela chama, era fortemente ligado à auto-mutilação e à depressão. Muitos de seus amigos na verdade tomavam antidepressivos. “Em retrospectiva, eu consigo ver que envolver-se com um culto como esse pode ser perigoso se você tem uma personalidade vulnerável. Existe um lado muito sombrio em ser emo, que é sobre vestir preto e ouvir músicas com letras muito profundas. Isso poderia empurrar uma pessoa vulnerável do precipício.”

Em anos recentes, o crescente alcance da internet e das redes sociais como MySpace, Facebook e Bebo significa que as influencias às quais os adolescentes se expõem não são mais controladas por mera geografia. Apesar dos efeitos positivos, o professor Stephen Briggs, um clínico no departamento adolescente da Clínica de Tavistock diz que também pode afetar negativamente o jeito como os adolescentes se desenvolvem.

“Com celulares, a internet e o Facebook, você pode criar um mundo virtual que significa que você não precisa ficar sozinho nunca,” ele diz. “Quer dizer que você nunca tem que estar fora de vista – e isso não permite que o adolescente experiencie o sentimento de estar um pouco separado,  de se encontrar. Significa que você não tem a chance de amadurecer sozinho, de saber quem você é.”

Especificamente o que dirigiu o comportamento de Hannah Bond naquela trágica noite de setembro jamais saberemos. No inquérito em Maidstone, Kent, Vanessa Everett, professora chefe da Escola Secundária de Mascalls onde Hannah estudava, admitiu que há problemas com emos se auto-mutilando. Everett adicionou que ela achava “provável” que Hannah tenha sido influenciada por outra garota emo na mesma escola que havia tentado se suicidar um ano antes. De acordo com um estudante, ela era amiga próxima de Hannah e de um grande número de alunos emos.

“A quantidade de garotos e garotas que parecem gostar disso é incrível,” a adolescente disse ao Mail. “Acho que 15 a 20% dos alunos são emos. Um garoto na minha aula recentemente entrou nisso e mudou completamente. Ele era normal mas agora ele se corta, ele pintou seu cabelo de preto e usa roupas escuras e um casaco preto muito longo. Ele tem um monte de emplastros nos braços e cortes e marcas. Eu tentei perguntar pra ele sobre isso mas ele me ignorou.”

Também emergiu que nos meses antes de sua morte, Hannah havia começado a usar mais a internet, secretamente surfando na web com o laptop da família. Sua mãe disse sobre o inquérito: “Por volta de um mês antes [da morte de Hannah] eu percebi que ela estava viciada [na internet]. Houve uma mudança definitiva em seu desejo de estar online.” 

Na noite de sua morte, Hannah havia passado a tarde na casa de um amig – também emo e que também se auto-mutilava, dizendo a sua mãe: “Nós somos emos, todos nós fazemos isso.” Hannah queria dormir na casa dele e estava triste de ter que ir embora. Quando chegaram em casa, a Sra. Bond disse a Hannah para ir para a cama, adicionando que elas discutiriam o problema de manhã. A adolescente virou para ela e disse: “Eu quero me matar.”

Chorando, Sra. Bond disse ao inquérito: “Acho que eu disse: ‘Não seja boba – nós vamos falar sobre isso de manhã.” Uma hora depois, a Sra. Bond entrou no quarto da sua família na casa em East Peckham, perto de Maidstone, e encontrou o corpo sem vida de Hannah pendurado na grade de metal do beliche de cima. Dando o veredito de suicídio, o legista Roger Sykes disse: “Ela estava fissurada na moda emo e era usuária da internet, o que a permitiu contato com outros emos do mundo inteiro, particularmente da América. Mas ela era uma garota adorada, que tinha muitos amigos e ia bem na escola. Nas palavras da mãe, ela tinh ‘tudo pelo que viver’. Os subtons emos sobre morte e associando-a com o glamour é muito desconcertante. Não é glamouroso; é simplesmente a perda trágica de uma vida tão jovem.”

Os 200 amigos e familiares que foram ao funeral de Hannah sem dúvida se juntarão a esse coro. Mas nem todos parecem ter aprendido a lição. Em um livro de tributo feito na escola de Hannah, um aluno deixou a seguinte mensagem: “Espero que você aproveite a black parade.”

Inocente, mal-orientado ou apenas estúpido. Mas esse sempre foi o problema com alguns adolescentes. E o perigo do emo.

Deixe uma resposta

Continue lendo

Menu
%d blogueiros gostam disto: