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Nothing above, Nothing below: uma montanha russa de sentimentos traduzidos em música

Neste 29 de junho o álbum do Death Spells – projeto de Frank Iero com James Dewees – completa 4 anos. O Fake Your Death Brasil trouxe uma resenha da gravação e um pouco da história da banda.

Texto por Malena Wilbert
Revisão por Gabriela Reis

Uma unidade cheia de plantas gigantes escondendo o que havia por trás das janelas em um complexo de apartamentos “decadente e sombrio” em North Hollywood: é assim que Frank Iero e James Dewees descrevem o ambiente onde surgiram as primeiras notas do que seria o Death Spells. 

Isso aconteceu em 2012, quando Iero mudou-se para a casa de Dewees durante um período em que dois ainda trabalhavam juntos no My Chemical Romance. O nome “Death Spells” foi ideia de Frank, que presenciou os momentos finais de vida da avó de sua esposa. 

Em entrevista à Altpress ele explicou: “Ela [avó da Jamia] estava tendo momentos em que parava de respirar por um segundo e eu pensava: ‘Oh, meu Deus, ela morreu’, mas então ela acordava. Era como um desses feitiços estranhos –  esses feitiços estranhos da morte, em que depois ela acordava e dizia: ‘Não, só estou cansada’. Para mim, o nome da banda invoca essas pequenas introduções ao outro mundo – meio que deixando este, mas não por muito tempo, depois voltando à realidade.”

Depois do fim do My Chemical Romance em 2013, Frank estava no Leathermouth e começando a escrever o Stomachaches, seu primeiro CD do frnkiero andthe cellabration quando o Death Spells lançou algumas músicas no SoundCloud antes de sair em uma pequena turnê com o Mindless Self Indulgence. O setlist contava com 10 faixas incluindo “where are my fucking pills?”, que ganhou um videoclipe. Mas só três anos depois, no dia 29 de julho de 2016, que as músicas foram lançadas oficialmente no primeiro – e único – CD do Death Spells.

Emocional. Caótico. Visceral. Assim é o “Nothing Above, Nothing Below”. Fazendo jus ao ambiente em que nasceu e à inspiração para o nome da banda, todas as faixas da gravação têm uma atmosfera sombria, mas cada uma a sua forma. 

Uma característica que parece ser intrínseca do CD é sua natureza experimental e bagunçada. Tudo começa em “diluted”, faixa de abertura na qual  Iero recita a letra, quase em sussurros, acompanhado por sons lúgubres, porém suaves. Ela é seguida pela elétrica, enérgica e nervosa “why is love so disastrous?”, numa mudança brusca de sonoridade. Essa atmosfera de oposição entre berros em plenos pulmões e sussurros, momentos de calmaria melancólica e gritos viscerais, segue durante todo o álbum. 

A terceira faixa, “hate unconditional”, é uma amostra perfeita desse jogo de antíteses musicais: a voz baixa e sintetizada de Frank é sobreposta com gritos e uma batida pesada entre o eletrônico e o punk. O mesmo acontece nas canções seguintes, a quase dançante – embora ainda muito sombria – “choke one another” e a histérica “where are my fucking pills?”.

Exatamente na metade do álbum, na sexta faixa, as coisas voltam a se acalmar. A instrumental “quaainterlude” é uma transição para a volta aos sussurros com “end of life”, uma melodia melancólica composta majoritariamente por piano e bateria. 

Como esperado, a canção seguinte é uma oposição: “hell all-american” traz novamente a pegada agressiva que se mantém nas posteriores “hypnotic spells”, uma batida industrial que termina com gritos abafados; “fantastic bastards” que é quase alegre de uma forma debochada e abrasiva, seguida de “underneath it all”, quando mais uma vez Iero combina sussurros com gritos e por fim, “i don’t know much, but i know i loathe you”, faixa que encerra o “Nothing Above, Nothing Below” com todos os elementos que o compõe: uma mistura caótica de sentimentos, gritos, sussurros, sons industriais eletrônicos sombrios e uma notável influência punk. 

Esse padrão – ou a total falta dele – não passou despercebido pela crítica. A Alt Corner começou a resenha do álbum com a seguinte afirmação: ‘Se você gosta de sentir como se tivesse tomado uma tonelada do ácido para ser jogado em uma montanha-russa que acelera pelo inferno a milhões de quilômetros por hora apenas parando para pegar alguns dos seus piores pesadelos enquanto alguém reproduz todos os sons que podem ser emitidos em um computador em um volume ensurdecedor, apenas para gritar muito, antes de seguir para a rave mais gótica de todos os tempos […] então, o “Nothing Above, Nothing Below” é para você”.  

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Apesar desse início, o veículo não deixa de reconhecer os méritos da gravação  “É uma atitude corajosa lançar algo que é garantido para dividir as opiniões ao extremo […] Poderia ser esse o som do levante tecnológico que paira sobre todos nós? Poderia ser apenas um registro profundamente experimental de alguns companheiros musicais muito abertos?”. Mesmo na avaliação final, a Alt Corner não foi capaz de dar um veredicto, limitando-se a escrever “NO IDEA!”.

A resenha publicada no Sputnik Music, reitera esse sentimento de confusão: Em termos de produção, não sei dizer se é excelente ou horrível. Tudo parece nítido, mas ainda está uma bagunça. No entanto, apesar de ser uma bagunça desarticulada de ruído eletrônico, eu gosto muito desse álbum”.  

O site Slug Mag foi por um caminho parecido, embora tenha reconhecido mais pontos positivos: “Nothing Above, Nothing Below’ é obviamente uma experiência catártica para Iero e Dewees, libertando seus demônios a cada turno violento. O álbum é acelerado e tenta superar sua própria agressão e desafiar a beleza sempre que tenta cobrir reinos sonoros desconhecidos. Cada música é uma experiência encorpada e sensual, forçando o público a emoções novas e mais destrutivas. Pode levar algum tempo para se acostumar com os fãs dos trabalhos mais sutis de Iero e Dewees, mas não é nada senão inventivo, emocionante e cativante”.

O que todos parecem concordar é que o som do Death Spells não é feito para agradar grandes audiências, mas sim um público específico, aquele capaz de ver alguma beleza em uma bagunça caótica e sombria. Talvez, essa tenha sido a intenção da produção desde o início: oferecer uma nova perspectiva sobre os sentimentos que expressa, sobre a raiva, a mágoa e os gritos que são quase um pedido de socorro. Uma perspectiva corajosa de enfrentamento dessas sensações. 

Quando questionado por  Jason Pettigrew, da Altpress, sobre as vibrações  “muito sombrias” do CD, Iero respondeu que existe uma outra forma de encarar a sonoridade da gravação: “Deixe-me entrar agora e dizer que vejo o completo e total oposto do que você está dizendo: o título implica, e se não houvesse mais nada? Se tudo o que temos é agora? Pensei em como nos tratamos e como tratamos pessoas diferentes de nós, tudo em nome de “amor”, e o que acontece conosco depois deste mundo, e o quanto damos a mínima para o que acreditamos. Estou assumindo a posição de foder com o que está acima de nós, foder com o que está abaixo de nós – vamos falar sobre como nos tratamos agora.”   

Se você ainda não ouviu – e está aberto a uma experiência musical muito distinta e caótica – vale a pena dar uma chance ao “nothing above, nothing below”. Prepare-se para uma jornada lúgubre e confusa, mas essencialmente libertadora quando se é capaz de sentir alguma paz em enfrentar conflitos e emoções desconfortáveis. 

Eu fico por aqui, ouvindo o som do Death Spells enquanto observo minhas próprias plantas na janela. Até a próxima!

Beijos, MW!

Nota: Recentemente, James Dewees, parceiro de Frank Iero no Death Spells, vem sofrendo denúncias de abuso físico, mental e sexual de mulheres. Toda a equipe do Fake Your Death Brasil deixa registrado seu repúdio contra tais condutas, prestando solidariedade e apoio às vítimas. 

O mesmo ocorre com a banda Mindless Self Indulgence – a qual o Death Spells realizou uma turnê em conjunto. É recorrente a crítica às canções problemáticas com cunho racista, além de acusações de pedofilia contra o vocalista do grupo. Mais uma vez, nos colocamos contra qualquer tipo de opressão e preconceito. Você pode saber mais sobre nossos valores e posicionamentos lendo nosso manifesto. 

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