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Muito além da banda: Gerard Way e o mundo dos quadrinhos

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O artista participou de um painel na Comic-Con@Home 2020 e contou um pouco mais sobre sua relação com os quadrinhos e o processo criativo por trás de suas obras

Texto por: Ariane Santana

Com a pandemia do coronavírus, o distanciamento social virou norma no ano de 2020. Grandes eventos foram cancelados em todo o mundo, incluindo a Comic-Con, uma convenção de cultura pop que ocorre em diversas cidades dos Estados Unidos e mundo. A solução? Comic-Con@Home 2020: painéis online pré-gravados através de conversas por vídeo entre os participantes que estão sendo exibidos no canal do YouTube da Comic-Con International. Um dos painéis apresentados no evento online foi o Dark Horse All-Stars, segmento que contou com a presença de três quadrinistas da editora Dark Horse: Nnedi Okorafor (co-criadora de LaGuardia), Matt Kindt (co-criador de Bang!) e, claro Gerard Way

No painel, o mediador Anthony Mauro conversou um pouco com os três artistas sobre como foi o contato deles com os quadrinhos, como se dá o processo criativo de cada um e sobre as vantagens dos quadrinhos quando comparados com outros tipos de mídia. Confira a seguir a tradução dos segmentos do Way:

“Como você chegou nos quadrinhos?”

G: Quando eu estava na terceira série eu tive que tirar minhas amígdalas, e eu também tinha muito problema nos ouvidos, então eles falaram que eu teria que tirar as amígdalas. Fui ao hospital e eles me prometeram sorvete, mas quando você acorda da cirurgia isso é a última coisa na sua cabeça, você não quer nem falar por causa da dor. Enfim, eu estava no hospital e minha avó veio me visitar e ela me deu esse Super Pickle e três quadrinhos. O único que eu lembro é um número aleatório do Capitão América. Foi assim que eu meio que conheci os quadrinhos, e comecei a ir na loja de quadrinhos, e o principal que eu comprava era os X-Men, do Chris Claremont e do Mark Silvester. Me senti atraído por esses quadrinhos, pois eram sobre excluídos e tal. Então eu ia lá toda hora procurando novas edições dos X-Men. Foi meio que assim que começou, aí eu comecei a desenhar os meus próprios quadrinhos.

“De onde as ideias para Umbrella Academy vieram?”

G: Muitas pessoas antes do lançamento de Umbrella me conheciam como vocalista de uma banda, mas eu tinha uma história longa com quadrinhos, publiquei [o primeiro] aos quinze anos, usava a máquina de escrever da minha avó e tal. Eu me formei em Artes Visuais em NY e me especializei em quadrinhos. No meu último ano na faculdade eu estagiei na DC, e depois por alguns anos, me frustrei tentando entrar nos quadrinhos mainstream. Eu não me encaixei muito nos quadrinhos mainstream, eu era muito influenciado por quadrinhos europeus que eu descobri na faculdade. Enfim, acabei fazendo design de brinquedos em uma loja chamada Funhouse em Hoboken, quando fiz design de coisas da Marvel e tal. E esse pequeno projeto, a banda, começou a dar muito certo e decidimos largar nossos empregos e fazer uma turnê. Nós não tínhamos moradia, só íamos de cidade em cidade, dormindo no chão e fazendo mais shows, tentando sobreviver. A banda cresceu e ficou mais famosa, mas o tempo todo eu sentia falta dessa parte da minha vida que eu tive que deixar para trás, sentia muita falta dos quadrinhos, eu sempre amei quadrinhos. Uma das coisas que me inspirou muito foi quando eu estava em turnê e a DC relançou Doom Patrol do Grant Morrison e do Keith Giffen. Eu já tinha lido alguns números quando tinha 15 anos e trabalhava numa loja de quadrinhos, mas era uma nova experiência, pude ler todos os números assim que eles saíam, e eu disse pra mim mesmo “Eu tenho que fazer um quadrinho”. 

Especificamente como eu cheguei ao Umbrella Academy, eu gosto de materializar coisas que eu acho que deveriam existir, esse é o meu método, fiz isso com a banda e com outras coisas. Não existia nada como UA porque os quadrinhos mainstream se preocupavam muito com continuidade e tal, e eu queria apenas jogar os leitores dentro da história. Tecnicamente, o primeiro volume de UA poderia ter sido o volume 70. Eu comecei a criar os personagens durante as turnês, formei uma ideia e mandei para a Dark Horse, que era a companhia pela qual eu queria publicar porque eu gostava do que eles estavam lançando, tipo Hellboy, e eu amava Screw-on Head, que também foi uma grande influência para UA. Senti que a Dark Horse não tinha um quadrinho de super-herói e eles precisavam de um. Era algo que eu queria materializar. Eu fiz uma grande lista de interesses e foi assim que eu criei os personagens, sabe. Escrevi “vidente, sessão espírita, ouija, Weekly World News [tabloide ficcional com notícias sobrenaturais], histórias estranhas”, essas coisas. Foi assim que os personagens foram criados, e a história foi sendo feita a partir dos personagens. Na minha opinião, a história vem dos seus personagens, sabe.

“Por que vocês acham que suas histórias são criadas a partir dos personagens?”

G: Acho que é por conta do que eu falei antes, que a história sai dos personagens. Você cria o personagem primeiro e a história cresce a partir do personagem e em volta dele, o mundo cresce em torno dos personagens. Por isso eu sempre começo com os personagens, e o mundo cresce em volta deles. É o que eu acho. 

“Como você entra na mente dos personagens para que eles se tornem indivíduos diferentes, mesmo que todos venham de você. Especialmente no caso de Bang [quadrinho de Matt Kindt] ou de UA, que tem todo um elenco de personagens que têm personalidades diferentes, vozes diferentes, desejos diferentes, como conseguem habitar a mente desses personagens quando sentam para escrever um roteiro, um número, ou seja lá o que estiverem escrevendo?”

G: Originalmente, como Matt disse, você começa escrevendo através da sua perspectiva, ao longo do tempo isso se torna chato. Eu tive que encontrar um jeito de escrever a família de UA, mas eu tive muitas referências da minha própria vida. Como o quadrinho é sobre uma família disfuncional, estar numa banda é praticamente a mesma coisa; tem todas essas personalidades diferentes na banda, cada um cumpre um papel diferente, alguém é o pai, alguém é a mãe, e há conflitos se você tem várias personalidades fortes. Claro que eu amo os rapazes, mas eu tive experiências que eu pude usar. E com o elenco de UA eu pude usar algumas experiências pessoais e colocar um aspecto de mim mesmo em cada um dos personagens. Klaus é um ótimo exemplo, ele representa meus problemas com vício. Allison é a mais humana, ela é tão complexa, e é a que eu mais me divirto escrevendo. Todos eles tem pequenas partes de mim. Mas quando você chega nos vilões e em outros personagens com os quais você não tem muita experiência, aí começa ficar mais divertido e você sai da sua zona de conforto, nem todo personagem tem que representar um aspecto de você mesmo. Você pode escrever, sonhar, fingir, sabe.

“Acho que Stephen King disse em um de seus livros sobre escrita que não importa qual ele acredite que seja o rumo da história, os personagens sempre acabam sendo os que decidem onde a história vai. Vocês acreditam que às vezes vocês têm uma ideia do rumo da história mas os personagens acabam decidindo que querem fazer outra coisa? Descobriram isso no processo de escrita?”

G: Sim isso com certeza acontece, já notei que acontece. Acho que uma das coisas que Nnedi [Okorafor] falou é que isso surpreende tanto o leitor quanto nós mesmos. Como ela mencionou, existe um roteiro para as histórias, mas eu tento deixar espaço no roteiro para descobertas, e é assim que os personagens te surpreendem e fazem coisas que você não achava que eles fariam.

Eu percebi que quando estava escrevendo Doom Patrol é diferente, existem pessoas que são donas dos personagens então você tem que levar certas coisas em consideração como o que os personagens fizeram no passado, como eles se comportaram, e ao mesmo tempo você também está tentando surpreender o público. Mas é muito mais legal escrever seus próprios personagens no seu próprio universo.

“Todos vocês são criadores, escritores, quadrinistas, de vários jeitos, como prosa, roteiros de série e de quadrinhos, música… Como é o processo criativo nesses gêneros diferentes, nessas mídias diferentes? É similar, é muito diferente, como foi a experiência de vocês?”

G: Acho que escrever um romance é algo que eu quero fazer um dia, é um grande desafio para mim e eu amo me desafiar. Mas uma das minhas coisas favoritas são trabalhos que precisam de todas as minhas habilidades. UA é muito divertido para mim pois eu desenho os personagens e aí mando para o Gabriel [Bá] e ele reinterpreta os personagens. Começo fazendo o design e o conceito dos personagens, e é interessante porque meus roteiros são muito densos e tem muita direção de arte neles, eu sou muito descritivo, é como se eu tivesse explicando a página, pois eu amo a linguagem dos quadrinhos. Obviamente Gabriel sendo meu colaborador vai mudar, melhorar, estender coisas, enfim. É um dos motivos pelos quais eu fiz a Young Animal na DC, porque envolve tantas habilidades diferentes: eu escrevo, eu faço o marketing, faço o conceito de personagens e colaborando com muitos artistas, é algo muito divertido pra mim. Mas eu sempre gosto de escrever para o artista específico, eu gosto de saber quem vai desenhar antes de escrever, isso ajuda bastante.

“Por que escolheram quadrinhos para essas histórias específicas? O que faz as histórias se destacarem nessa mídia especificamente”

G: Para mim, quadrinhos são tão ilimitados. Não possuem o orçamento que um filme de alto orçamento tem. Você pode fazer qualquer coisa nos quadrinhos. Eu também gosto de começar por eles porque, como autor, eu acredito que são mais livres, especialmente se você está criando suas próprias ideias e não está trabalhando para uma corporação, não tem ninguém para te dizer qual é a história, ou o que você pode e não pode fazer. 

Claro que nós temos nossos próprios parâmetros para o que queremos e podemos fazer nas histórias, mas não há limites. Como Matt disse você participa quando lê um quadrinho, há uma mágica que acontece entre os painéis, seu cérebro junta ideias, e assim os quadrinhos conseguem fazer o que tantas outras mídias não podem. Eu sempre preferi quadrinhos. Já tentei escrever um episódio de uma série, mas eu não gostei, eu não era bom nisso, era divertido. Mas eu gosto do controle e da liberdade criativa que há nos quadrinhos.

“Querem adicionar mais alguma coisa, ou recomendar algo para os espectadores já que estamos num momento de quarentena e distanciamento social e vamos continuar assim por um tempo?”

G: Eu estou no modo de pesquisa, minha coisa preferida de fazer para relaxar é ler, e eu faço isso antes de dormir. TV é meio difícil pra mim porque eu me sinto preso quando assisto TV, mas livros me permitem relaxar, o que é ótimo, mas eu pulo entre várias coisas. Agora eu ando lendo manuais antigos de RPG, tipo de Dungeons & Dragons e tal, é o que eu tenho lido. Mas eu ando pesquisando, então não tenho muitas sugestões. Tenho lido bastante quadrinhos antigos tipo da era de ouro, da era de prata etc.

O que achou do debate? Gosta de HQs? Já leu Umbrella Academy? Conta pra gente nos comentários sua relação com o mundo dos quadrinhos.

Lembrando que você pode assistir o painel na íntegra aqui.

Beijinhos da raposa!

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  • […] Vale a pena também conhecer os quadrinhos:as ilustrações de Gabriel Bá são lindíssimas e o roteiro de Gerard Way não deixa a desejar. Se quiser saber mais sobre as HQ’s, de onde vieram as ideias e quais foram as influências, confira a tradução da participação de Way no painel na Comic-Con@Home 2020, feita com exclusividade pelo Fake Your Death Brasil (link aqui). […]

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