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A Ascensão e a Queda: Bert McCracken x Gerard Way

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O início de uma amizade e a causa de uma das brigas mais comentadas dos anos 2000.

Texto por: Marina Tonelli
Edição por: Gabriela Reis

Para alguns, atualmente, fica difícil de imaginar que Bert McCracken, vocalista do The Used, seja um dos artistas mais empolgados com o retorno do My Chemical Romance, o que, na verdade, é uma situação um tanto quanto conflituosa. 

Uma parcela de fãs que ainda se lembram da amizade e a ruptura do vínculo entre as bandas – com direito a farpas trocadas via mídia – foram pegos de surpresa com tantas declarações de afeto vindas de McCracken. E a outra parcela, que acabou conhecendo os dois já afastados, se pergunta: eles sempre foram amigos? 

Há um ponto em comum entre ambos os lados: muitos questionamentos.

O mais surpreendente é que não é tão recente assim que McCracken tem falado abertamente sobre o My Chemical Romance e uma possível turnê entre as bandas. Em dezembro de 2018, ele concedeu uma entrevista ao The Music em que afirmava com mais esperança (e certeza) que muitos fãs de My Chem sobre o retorno da banda, deixando claro que o elo entre ele e Gerard Way havia sido restabelecido:

Ao aparecer nos bastidores do podcast The Music no festival Good Things deste mês, McCracken falou sobre uma reformulação do MCR quando perguntado se o The Used tem alguma turnê planejada em breve. “Continue mandando mensagens (para o Gerard Way) e põe o My Chem de volta na estrada com o The Used”, McCracken disse com uma gargalhada. “Tenho trabalhado nisso há algum tempo, cara, confie em mim. (…) É só uma questão de tempo,” disse McCracken sobre a volta do My Chemical Romance. “Eu acredito fielmente nisso. É só uma questão de tempo. A banda se dá bem, eu acredito que não haja nenhum problema em relação a isso. Eu acho que (Gerard) estava explorando a sua criatividade e eu tenho 95% de certeza de que é um fato de que eles irão voltar”.

Parece que, de fato, tínhamos um forte aliado para que o retorno do My Chem acontecesse. Mas como é que tudo começou? Como que de fã e melhor amigo, McCracken passou a ser desafeto para retornar a ser um apreciador?

O My Chemical Romance conheceu o The Used através do manager da banda, Brian Schechter, em 2002. Como Brian havia construído uma boa relação com Gerard e Bert era como se fosse seu irmão mais novo, ele resolveu apresentar os dois porque acreditava que ambos se dariam bem. Logo de cara os dois criaram uma grande identificação e mantiveram contato. As bandas se apresentaram juntas na Warped Tour de 2004 e a amizade entre os dois se tornou mais forte, assim como as bandas começaram a ganhar mais notoriedade no cenário musical.

2004 é um momento crucial para o The Used e o My Chemical Romance. As bandas lançaram discos que mudaram o patamar de suas carreiras musicais, e junto disso, a amizade entre Gerard e Bert se tornaria influência para, inclusive, composições de letras. Como é o caso de You Know What They Do To Guys Like Us In The Prison (Three Cheers For A Sweet Rrevenge, 2004) em que Bert não só serviria de inspiração como participaria dos backing vocals na versão original do disco.

 O jornalista Andy Greenwald comenta em uma matéria de 2013 a história por trás da música:

“(…) Uma noite os dois (Gerard e Bert) me mantiveram com eles no quarto de hotel até o amanhecer enquanto eles esvaziavam o frigobar, mandavam o concierge (nota: concierge é tipo um serviço de quarto mais personalizado, para pessoas com dinheiro) buscar cigarros e faziam visitas cada vez mais frequentes ao banheiro. Gerard me disse mais tarde que aquela zona (do quarto de hotel) foi a inspiração para a música You Know What They Do To Guys Like Us In The Prison, potencializada na parte “você tem as chaves do hotel/porque eu vou colocar fogo naquele filho da puta”.

A menção de Bert em suas letras foi um pouco mais explícita, como em Take It Away (In Love And Death, 2004) “e eu perdi todas as minhas dúvidas em um romance químico”. Estava tudo caminhando muito bem, com a venda de discos e a amizade, mas o comportamento de Way e McCracken juntos e separados era autodestrutivo. Para os fãs de My Chemical Romance, a Revenge Era está marcada não só pelo debut da banda para o grande público, mas também pelo vício de Gerard Way em remédios, bebidas e cocaína; o que era acompanhado de forma voraz por McCracken.

Andy Greenwald descreve bem a personificação dos dois naquela época:

“(…) Arremessando meleca de nariz e rindo alto como uma alma penada, Bert usava a fama como um casaco de couro. Ele se move rápido e empertigado, assumindo naturalmente o papel de um front man perigoso estando com um microfone na mão ou não. Gerard – um assustado e sensível aspirante a quadrinista que formou uma banda ou por depressão ou por desespero após o 11 de setembro – vestia a jaqueta de couro como uma armadura.”.

De certa forma, Bert e Gerard possuíam personalidades complementares. McCracken fazia com que Way se soltasse mais em relação a fama, bem como se portar dando entrevistas e em outros aspectos, já Way acrescentava em Bert um toque mais artístico e sensível. Uma entrevista histórica dos dois juntos concedida à MTV em 2004, exemplifica muito como era a dinâmica entre os dois. Confira na íntegra:

Mas apesar da amizade e das drogas, os comportamentos impulsivos que ambos nutriam juntos pioravam com o passar do tempo. Way utilizava remédios controlados para dormir e cocaína para ter o pique necessário para um show, mas o combo com bebidas alcóolicas não ajudava muito. O front man do My Chemical Romance enfrentava uma depressão que se arrastava desde a morte de sua avó Elena (inspiração para o hit Helena, Three Cheers For a Sweet Revenge, 2004) e o fato de sua natureza reservada ser colocada a prova devido a recente fama adquirida, o abuso de substâncias servia como uma válvula de escape.

Gerard comenta sobre o assunto em uma entrevista à revista Spin de 2005:

“Não consegui lidar com a morte dela (Elena),” diz Gerard, “e tomei o meu primeiro Xanax. Depois disso tudo se tornou uma bola de neve. Eu ficava chapado para o show e precisava desligar o meu cérebro à noite – porque o meu cérebro sempre está a um milhão de quilômetros por minuto. As pílulas (nota: Xanax é um remédio de uso controlado para distúrbios de ansiedade) me permitiam relaxar e dormir, mas depois disso entrou em jogo a cocaína e tudo saiu do controle.”

McCracken também não teve um passado fácil. Vindo do estado americano de Utah e de uma família mórmon, o front man do The Used perdeu a noiva grávida devido a uma overdose. Ambos estavam corroídos pela perda, fragmentados, e ultilizavam meios para fugir da realidade enquanto realizavam os próprios sonhos. Nesta entrevista de 2004 ao Contact Music, McCracken fala um pouco sobre a perda e da música que escreveu para a noiva:

“Penso que a morte de Kate teve um impacto enorme na forma como gravamos o disco. Independentemente da forma como eu queria pôr as coisas para fora, elas [as letras] simplesmente vieram. ‘Hard To Say’ é uma canção que escrevi há cerca de dois anos e, depois da morte de Kate, decidimos que, com certeza, deveria constar no disco. Significa muito para mim por causa de todos os bons momentos que compartilhei com ela. É tão estranho. Ela estava grávida do meu filho. Tínhamos decidido ficar com o bebé e tentar permanecermos amigos, resolver as coisas com o tempo”.

Mas entre a depressão, comportamentos impulsivos e drogas, também foi criada uma parceria que se tornou um marco entre as duas bandas e com um motivo nobre, afinal. 

Para arrecadar fundos para as vítimas do Tsunami na Ásia em 2004, McCracken escolheu a melhor música para um dueto com Way: Under Pressure, música eternizada nas poderosas vozes de Freddie Mercury e David Bowie, em 1981. O front man do The Used era um fã assíduo de David Bowie e sabia o quanto Way compartilhava da mesma paixão, adicionado ao fato de também ser um reconhecido admirador do Queen.

A parceria foi gravada em Nova Iorque para o show MTV $2 Bill, que você pode conferir aqui:

Muito foi se falado de 2004, mas 2005 chegou como um turbilhão de emoções para as duas bandas. Em fevereiro, o My Chem lança o icônico videoclipe de Helena (Three Cheers For Sweet Revenge, 2004) e alcança o topo das paradas musicais não só nos Estados Unidos, mas também na Inglaterra e na Austrália. Este momento extremamente importante para a banda não se tratava apenas do sucesso, Way também estava passando por transformações. Após um longo período intoxicado em sua própria autodestruição, o front man decide se tornar sóbrio. 

O complicado dessa decisão era enfrentar os próprios medos, sem atalhos, criando um “novo Way” para o palco, como disse na mesma entrevista à Spin em 2005:

“Fiquei aterrorizado por estar sóbrio no palco durante toda uma turnê”, diz Gerard. “Me senti como o Homem-Aranha, mas sem a máscara. Mas agora me sinto mais perigoso e afiado do que nunca. Tenho uma memória novamente e tenho um futuro. Sinto como se não pudéssemos ser derrotados. Vamos ao palco agora e nos sentimos como se fôssemos a melhor banda do mundo. Como se tivéssemos o mundo inteiro em nossas mãos.” 

Mas McCracken não estava preparado para a mesma transformação. 

O que deixa claro, após acompanharmos o percurso de ambos em suas carreiras e a amizade construída fora do palco, é que o momento em que a ruptura aconteceu foi associado à maneira com que ambos viam a autodestruição

Enquanto McCracken a utilizava como um adereço, algo interessante e insano ao seu respeito que compunha sua personalidade, Way a enxergava como uma maldição, querendo se livrar dela e ensinar aos que passavam pelo mesmo como vencê-la. Não há culpados, não há um melhor jeito; são apenas maneiras diferentes de lidar com fases distintas da vida de duas pessoas públicas. 

A depressão afeta a todos de uma maneira diferente e só nos damos conta disso com o tempo, lidando com nossos próprios monstros. O tempo de um, não é o de outro. Mas a ruptura trouxe consigo uma grande e dura queda, que foi recebida com bastante surpresa pela mídia e pelos fãs, principalmente após McCracken dar uma entrevista a MTV em 2005, em que alega:

“Prefiro não dizer nada sobre o My Chemical Romance, exceto que tivemos uma desavença. Nós não falamos mais”, suspirou ele. “Não tem nada a ver com o sucesso deles. Estou completamente à vontade com a nossa banda. Éramos muito próximos, mas já não somos mais. Tivemos uma desavença. O resto da minha banda, eles ainda são amigos com todos os caras daquela banda. Mas eu prefiro não dizer mais nada sobre o My Chemical Romance.”

Way também deu a sua versão para a Spin, também em 2005:

“O Bert era como um guia turístico para mim”, diz Gerard. “ele era uma estrela e eu era apenas um cara estranho em quem ele acreditava. A nossa relação floresceu por fazermos merda juntos, mas no final, penso eu, queremos coisas diferentes.”

McCracken, que lutou contra o vício no passado e não está sóbrio atualmente, não queria ser entrevistado para esta história.

Bom, a partir daí, de admirador número um do My Chemical Romance, McCracken se tornou altamente provocador e causador de confusão. Ele aparentava não se importar se Way queria ou não rebater as suas críticas ou se o que estava dizendo seria manchete e motivo para discussões longas entre fãs. Esse era o estilo de McCracken, afinal; visceral, sem consequências.Você se lembra de Take It Away (In Love And Death, 2004)? Aqui nesta versão ao vivo, ao invés de cantar o “Chemical Romance” o front man substitui por sua característica risada irônica, veja:

Mas o confrontamento não parou por aí, McCracken chegou ao ponto de intervir em um show do My Chemical Romance na Warped Tour de 2005, em que o The Used também se apresentaria, com um megafone. Fato este que foi comentado por Gerard em entrevista a revista Blender:

“Foi realmente uma infelicidade”, diz Way. “Estávamos prestes a subir ao palco e ele estava de pé com um megafone tentando fazer com que a plateia não visse nosso show. Nós apenas tocamos o mais alto possível e a voz dele foi completamente abafada.” (McCracken recusou um pedido de comentário)”.

Já em 2007, quando todos pensavam que a briga entre os dois havia esfriado e o The Used estava prestes a lançar o disco Lies For The Liars (2007), mais uma vez uma faísca foi acesa em uma entrevista sobre o lançamento do álbum para a Kerrang!:

Amigos ou inimigos?
Bert McCracken, front man do The Used, e Gerard Way, My Chemical Romance, permaneceram de bico fechado sobre o motivo pelo qual a amizade deles chegou ao fim em 2005, poderia este fato estar para mudar? Enquanto o The Used dá os toques finais no seu terceiro disco que será lançado em breve, em meados do começo do ano, a banda deu uma dica a Kerrang! que a nova música ‘Pretty Handsome Awkward’ dá uma piscadela para Way. ‘É sobre alguém de cabelo curto e loiro’, diz o guitarrista Quinn Allman. ‘Mas eu não tenho certeza sobre quem é.’ ‘A música é sobre todos nós’, McCracken sorri de forma afetada. O Way ficará puto quando ouvir a música? ‘Ele não ficará puto’, responde o vocalista. ‘Eu acho que ele vai amar… Ele vai desejar ter escrito a música…’. Agora, isso é o começo de uma discussão.

Ok, poderia ser apenas um golpe de marketing para reacender boatos prestes a um lançamento, mas algo inusitado aconteceu no show do The Used aqui no Brasil, em São Paulo, no ABC Pro HC de 2007, em que um fã da banda atirou um cartaz bem direto ao My Chem e McCracken aparentou apreciar por alguns minutos o acontecimento, confira:

BÔNUS: TEORIAS

A partir daqui não há fontes, apenas especulações espalhadas aos quatro ventos em relação a músicas que possivelmente Way e McCracken teriam escrito um para o outro e algumas interpretações de letras.

Pretty Handsome Awkward (Lies For The Liars, 2007) em que temos uma indireta direta bem certeira e que você confere a tradução aqui

No verso ‘Hey, are you okay?/You look pretty low/Very handsome awkward’ no sentido em que Way havia mudado tanto, que McCracken não reconhecia mais o velho amigo. As coisas estavam estranhas entre os dois. O ‘market value’ que é citado na música é como se Way estivesse interpretando um papel perante a todos, para ganhar público e empatia, e não sendo ele mesmo.   

Liar, Liar (Burn In Hell) (Lies For The Liars, 2007) que você vê a tradução aqui, McCracken fala ‘And the pills go down and get you higher baby’ no sentido em que Way não estaria realmente sóbrio, mas interpretando um papel e mentindo para si mesmo e para os outros.

Temos um verso muito interessante aqui: ‘You will burn in hell they say/You will burn in hell!’, que se repararmos bem, nos remete a um verso de House Of Wolves (The Black Parade, 2006) em que Way diz: ‘Well, I think I’m gonna burn in hell’.

– The Devil Beside You (The Bird And The Worm, 2007) é realmente auto-explicativa: leia a tradução aqui.

Disenchanted (The Black Parade, 2006). Você achou que não teria nada vindo do Way? No verso ‘You’re just a sad song/With nothing to say/About a lifelong wait for the hospital stay’, Gerard estaria se referindo a como ele próprio sentia-se desiludido em relação a McCracken, e como sua vida regada a drogas poderia levá-lo à morte. 

Já em ‘And if you think that I’m wrong/This never meant anything to you’ fala sobre como não fazia diferença tudo o que já havia sido conversado entre os dois, ou o que eles tinham passado juntos, porque não importava mais. A tradução da música você vê aqui.

Agora, em 2020, com o retorno no My Chem e a amizade de McCracken e Way restabelecida, será que poderemos esperar grandes feitos dessa dupla? Deixem seus palpites nos comentários.

Beijos mafiosos,

MT.

3 Comentários. Deixe novo

  • Magnífico. Enquanto eu lia, me bateu uma nostalgia de 2007, dos boatos sobre disenchanted ser pro Bert (até de I don’t love you falavam, mas essa eu acho que foi pra Cuts), do quanto eu ficava triste, por gostar dos dois… Tanta coisa! Obrigada por essa matéria incrível, que reuniu os fatos da maneira mais clara possível, além de ter incrementado com as teorias. E: tô muito feliz de ler algo vindo de você, depois de anos, Mari ❤❤❤

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  • Juliana Kuraoka
    7 de abril de 2020 00:17

    Eu amei tanto que doeu.

    Responder
  • Gabriel Da Silva
    7 de abril de 2020 00:53

    Nossa pqp amei essa post, cheio de detalhes, e relembrando as tretas passadas, fiquei totalmente nostálgico, lindo d +

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