Sua fonte oficial de notícias do My Chemical Romance no Brasil reconhecida pela Warner Music BR. Nos acompanhe nas redes sociais e fique ligado nas novidades da banda.

Uma vigília sobre pássaros e vidro

Fim

Texto e tradução por: Marina Tonelli

O mês de Março até o ano de 2020 era um mês delicado para os fãs de My Chem, afinal, era mês o qual marcava o término da banda.

O dia 22 trazia muitas lembranças, algumas boas e outras mais tristonhas. Cada um de nós tinha algo para recordar… As amizades, discussões, os shows acompanhados de longe por lives nem tão boas assim, as músicas que nos davam força ou amparo naqueles momentos em que mais precisávamos.

Era como se aqueles caras que não sabiam nossos nomes e que não conheciam nossas histórias de vida, mas que sempre estiveram ao nosso lado, tivessem ido embora. Aquela presença constante – e longínqua ao mesmo tempo – havia desaparecido e dado espaço ao vazio.

As músicas continuavam ali, as mensagens, as ideias; mas a presença, agora era distante e incerta.

Mas tudo mudou, daquele jeito bem My Chemical Romance. Quando menos esperávamos, eles voltaram. Foi como um abraço longo após uma grande viagem cansativa. De repente, todos nós estávamos bolando teorias, esperando ansiosamente cada vídeo misterioso e cada um de nós, de cada parte do mundo, esteve naquele show de Los Angeles. Nós estávamos em casa de novo.

Março era um mês triste. Agora é um mês para que nós, como o MCRmy, relembrarmos como mais uma fase em que lutamos e conseguimos superar junto com cada um deles. Esse texto é não é o que tradicionalmente eu vou escrever para o site, mas eu quis relembrar a carta do término escrita pelo Gerard, para que todos nós pudéssemos compreender os motivos, entender o que se passou e não repetir os mesmos erros.

Essa carta é cheia de metáforas. O Gerard fala sobre uma crise de ansiedade que teve antes de um show, conta como se sente em relação aos fãs e a banda. Agora que ela voltou, acho importante lermos sem a histeria daquele momento para entendermos e finalmente abraçarmos a ideia de que o My Chemical Romance somos todos nós.

Aproveitem a carta, ela foi traduzida com todo o meu coração calejado e emo.


Tradução da carta escrita por Gerard Way sobre o término do My Chemical Romance, 25/03/2013.

 Uma vigília sobre pássaros e vidro

Acordei nesta manhã como se ainda estivesse sonhando ou não totalmente consciente de mim mesmo. O sol atravessou as janelas, tocando o meu rosto, e de repente uma profunda tristeza me acometeu, imediatamente me trazendo a vida e a compreensão: o My Chemical Romance havia acabado.

Desci as escadas para fazer a única coisa que poderia me recuperar a compostura: eu fiz café.

Quando o líquido começou a pingar em meio ao silêncio que só acontece pela manhã, visto que eu era o único acordado, saí da minha casa deixando a porta aberta ao passar. Olhei ao redor e comecei a respirar melhor. As coisas aparentavam estar como sempre estiveram: um lindo dia.

Quando me virei para voltar para dentro de casa ouvi um som vindo do interior, seguido por um pio e um barulho. Percebi que um pequeno pássaro marrom havia voado para a biblioteca. Naturalmente, entrei em pânico. Eu sabia que teria que levar o pássaro de volta para fora em segurança e sabia que precisava manter a ordem das coisas em nossa casa; ele não poderia residir ali conosco. Eu o induzi (presumindo que o pássaro era “ele”) em direção ao meu escritório, onde estão localizadas grandes janelas.

Nesse momento, felizmente, ouvi os passos de Lindsey descendo as escadas e, com sua serena naturalidade, ela pegou um cobertor e entrou no escritório. Ele era impossível de ser pego e eu comecei tentar a abrir as janelas, seguindo as direções de Lindsey, para descobrir, então, que as janelas eram fixas. O pássaro começou a voar contra o vidro, repetidamente, e em todas as direções.

Smack!
Smack!
Smack!

Ouvi outro conjunto de passos, dessa vez era Bandit correndo pelas escadas, cheia de expectativa para um novo dia. Sua entrada na situação acrescentou a quantidade certa de caos (ela estava muito empolgada em conhecer o pássaro) e lá estávamos nós perseguindo o pássaro até a sala de estar. Sabíamos que lá as coisas poderiam ficar potencialmente mais difíceis, devido ao teto alto e as vigas que ele poderia se empoleirar.  Eu abri a porta da frente enquanto Lindsey fazia o seu melhor para encorajar o nosso novo amigo a sair. Após muita persuasão, voos, piados, uma volta errada em direção à biblioteca e um breve adeus a Bandit, ele simplesmente pulou pela porta da frente… Decolando no quinto salto.

Comemoramos.

Eu não estava mais triste.

Eu não percebi, mas parei de me sentir triste no minuto seguinte que o pássaro entrou em minha vida, porque era algo que precisava ser feito, uma pequena criatura para ajudar e uma ordem a ser mantida. Fechei a porta. Eu decidi escrever a carta que eu sempre soube que escreveria.

É do meu feitio, muitas vezes, estar pensativo, passar despercebido à vista de todos ou sequer aparecer em algum lugar. Eu sempre senti que a arte que fiz (sozinho ou com amigos) contém toda a minha intenção quando executada apropriadamente, e, portanto, não é necessária nenhuma explicação.

Simplesmente não é da minha natureza me desculpar, explicar ou justificar qualquer atitude que eu tenha tomado me baseando no resultado de meus pensamentos sinceros e da minha verdade.

Sempre senti que a situação envolvendo o término da banda seria diferente, caso algum dia acontecesse. Eu seria impenetrável em sua existência e aberto em sua morte.

As ações mais sinceras vêm da verdade, não da obrigação. E a verdade acima de tudo é que eu amo cada um de vocês. Então, se isso serve de consolo e lança uma luz acima de alguma coisa, ou minha conta pessoal e meus sentimentos contam, tudo isso é sobre esse amor mútuo e compartilhado, não devido.

Amor.

Esse sempre foi o meu propósito.

My Chemical Romance: 2001 – 2013

Nós fomos espetaculares.

Em todo show eu sabia disso; em todo show eu sentia isso com ou sem confirmação externa.

Passamos por condições ruins, algumas vezes os nossos equipamentos de segunda mão quebraram, em outras vezes eu não tinha voz; mesmo assim nós éramos ótimos. Foi essa crença que nos fez ser quem nós éramos, mas também muitas outras coisas, todas elas vitais…

Ficção. Fricção. Criação. Destruição. Oposição. Agressão. Ambição. Coração. Ódio. Coragem. Tristeza. Beleza. Desespero. AMOR. Medo. Glamour. Fraqueza. Esperança.

Fatalismo.

Esse último é muito importante. O My Chemical Romance tinha, construído em seu âmago, uma segurança contra falhas. Um dispositivo apocalíptico que, caso certos eventos acontecessem ou deixassem de acontecer, ele detonaria. Eu compartilhei o meu conhecimento desta “falha” algumas semanas após o início da banda.

Pessoalmente, eu abracei essa falha porque, como eu já disse, ela nós tornava perfeitos. Uma máquina perfeita, linda, mas consciente do seu sistema. Sob a restrição de desligar antes de comprometer o seu funcionamento. Para proteger a ideia; a todo e qualquer custo. Isso provavelmente está soando como algo arrancado de uma das páginas de um quadrinho antigo (nota: four color comic book são quadrinhos feitos de 1939-1962, como Pato Donald e Luluzinha, em que se usavam quatro cores primárias) e esse é o ponto. Sem compromisso. Sem rendição. Sem merda nenhuma.

Para mim é disso que se trata o rock and roll. E eu acredito no rock and roll.

Eu não tive vergonha de dizer isso para as pessoas, nem para a imprensa, nem para um fã, nem para um parente próximo. Está nas letras das músicas, nas conversas informais. Muitas vezes eu vi os jornalistas debocharem disso, dizendo que eu estava sendo sensacionalista ou melodramático (saindo em defesa deles, muito provavelmente eu estava vestido como um líder apocalíptico de uma banda marcial com uma camisola cirúrgica rasgada e o rosto coberto por uma tinta expressionista, então é justo).

Ainda não tenho certeza se o mecanismo funcionou de forma correta, porque não chegou ao fim com um estrondo, como deveria, mas sim em um declínio muito mais lento. Mesmo assim, culminou no mesmo resultado, pelo mesmo motivo…

Quando chegar a hora, nós paramos.

É importante entender que, para nós, a opinião sobre parar ou não, de fato, não vem do público. Digo isso mais uma vez, essa decisão é para proteger a ideia (da banda) para o benefício do público. Muitas bandas têm esperado por uma confirmação externa de que é hora de pendurar as chuteiras, seja através da queda da venda de ingressos, a posição nas paradas musicais, vaias e garrafas jogadas com urina; informações e dados que não nos influenciam, muitas vezes chegando tarde demais de qualquer maneira.

Você deve saber disso, bem profundamente, se ouvir a verdade que está dentro de você.  E essa voz se tornou mais alta do que a música.

<Neste momento, faço uma pausa para receber a visita de velhos amigos que, de alguma forma, foram fundamentais para o início da banda. Conversamos sobre os velhos tempos, sobre música e coisas novas. Nós rimos e tomamos refrigerante diet. Dizemos adeus uns aos outros, eu vou para a cama para retomar a carta pela manhã que é…>

Agora.

Existem muitas razões para o fim do My Chemical Romance. O atirador não importa, assim como os mensageiros, mas, mais uma vez eu repito, a mensagem é a coisa mais importante. E reiterando o meu ponto, essa é a minha conta, as minhas razões e os meus sentimentos. Eu posso afirmar que não houve divórcio, discussão, fracasso, acidente, vilão ou uma facada nas costas que tenha causado isso. Repito, o término não foi culpa de ninguém e estava silenciosamente acontecendo aos poucos, quer nós soubéssemos ou não, muito tempo antes de qualquer sensacionalismo, escândalo ou rumor.

Não havia sequer um brilho em uma chuva de balas…

Estou no backstage em Asbury Park, New Jersey. É um sábado, 12 de maio de 2012, e eu estou andando atrás de uma grande cortina preta que leva ao palco. Sinto a brisa do oceano contemplar a minha volta e olho para meus braços que estão cobertos com uma recém-colocada gaze devido a uma batalha perdida contra uma alergia de pele causada pelo calor; um problema recorrente e misterioso que vinha acontecendo nos últimos meses. Normalmente não me sinto nervoso antes de um show, mas sinto borboletas furiosas no estômago na maior parte do tempo. O que eu estava sentindo era diferente – uma onda estranha de ansiedade me acometeu e eu só consigo imaginar que é como se o seu sexto sentido fosse ativado nos seus últimos momentos antes da morte. Minhas pupilas se dilataram e eu parei de piscar. A temperatura do meu corpo está gelada.

Temos a deixa para subir ao palco.

O show é… Bom. Não é ótimo, não é ruim, apenas bom. A primeira coisa que notei e que me surpreendeu não foi a grande quantidade de pessoas em nossa frente, mas, à minha esquerda, a costa e a imensidão do oceano. Muito mais azul do que eu me lembro de quando era garoto. O céu está vibrante tanto quanto o mar. Eu me apresento quase que de forma automática e algo está errado. Estou atuando. Eu nunca atuo no palco, mesmo quando aparento estar; mesmo quando estou dando mais dramaticidade a performance ou quando estou em um monólogo comigo mesmo. De repente, eu me tornei altamente consciente do meu ser, quase como se eu estivesse acordando de um sonho. Comecei a me movimentar rápido, mais frenético, imprudente – tentando espantar aquela sensação -, mas tudo o que foi criado foi o silêncio. Os amplificadores, os aplausos, tudo começou a desaparecer.

Tudo o que restava era a voz dentro de mim e eu podia ouvi-la claramente. Ela não precisava gritar; os sussurros me diziam breve, calma e de forma amável o que tinha para dizer.

O que ela dizia era entre eu e a voz.

Eu a ignorei e os meses seguintes foram cheios de sofrimento para mim. Me senti vazio, parei de escutar música, nunca mais peguei em um lápis e comecei a cair em velhos hábitos. Toda a vibração que costumava ver, não absorvia; perdida. Eu costumava ver arte e magia em tudo, especialmente em coisas mundanas, mas agora essa habilidade estava enterrada sob os escombros.

Lentamente, depois de ter causado danos o suficiente a mim mesmo, comecei a escalar para fora do buraco. Limpo. Quando consegui sair, a única coisa que restava dentro de mim era a voz e, pela segunda minha vida, eu não a ignorei porque era a minha própria voz.

Há muitos papéis para nós interpretarmos nesse final. Podemos ser os apoiadores, desaprovadores, simpatizantes, mal-intencionados, comediantes, tristonhos e vítimas…

Este último papel, mais uma vez, é importante. Eu nunca me considerei uma vítima, nem os meus companheiros de banda, nem os fãs; especialmente os fãs. Para nós, adotarmos essa postura agora (a de vítima) é confirmar o que os tablóides sempre tentaram nos estigmatizar. E o mais importante: perderemos todo o objetivo da banda. Então, o que teríamos aprendido?

Com honra, integridade, um encerramento e seguindo os termos de ninguém mais além de nós mesmos, a porta se fecha.

E outra se abre.

Essa manhã, eu acordei cedo. Rapidamente escovei os dentes, coloquei uma calça jeans larga e entrei no meu carro. Desci tranquilamente a rodovia 405 através do nevoeiro da manhã até um estacionamento aleatório em Palo Verde, onde eu encontraria um gentil cavalheiro chamado Norm. Ele era mais velho e autoproclamado “hippie”, mas continuava a ter a energia de um garoto de dezesseis anos com uma banda de garage-rock. O propósito do encontro era a entrega de um amplificador. Eu recentemente havia comprado o amplificador dele e nós dois concordamos que o envio pelos correios amassaria alguns componentes, então ele tinha sido gentil o suficiente para se encontrar comigo no meio do caminho.

Um amplificador Fender Princeton de 1965, sem reverb (nota: o reverb é um efeito de ambiência no amplificador e provoca a sonoridade como se o instrumento estivesse sendo tocado em um ambiente fechado, dando um pequeno eco). Um lindo dispositivo pequeno.

Ele me mostrou os melhores pontos, como a caixa de som, os plugues sem fio, a etiqueta original e a marca em giz feito pelo homem ou a mulher que havia o montado.

“Esse amplificador fala”, ele disse.

Eu sorri.

Tomamos um café, conversamos sobre captadores de guitarra dourados e a vida. Sentamos juntos no carro e tocamos um para o outro as músicas que havíamos feito. Cada um seguiu para seu caminho prometendo que manteríamos contato e eu fui para casa.

Quando eu quis dar início ao My Chemical Romance, tudo começou comigo sentado no porão da casa dos meus pais e pegando um instrumento que há muito tempo eu havia abandonado por um pincel: uma guitarra. Era uma Fender Mexican Stratocaster dos anos 90, da cor Lake Placid Blue, mas na minha adolescência eu decidi que ela era muito bonita e limpa, então eu bati em alguns pontos, fazendo aparecer um tom avermelhado que estava por baixo do azul; a cor que ela deveria ser. Adicionei um pedaço de fita isolante no escudo (nota: o principal objetivo do escudo/pickguard é proteger o acabamento do violão contra riscos) e ficou aceitável. Liguei a guitarra em um pequeno amplificador Crate com distorção embutida e criei os primeiros acordes de Skylines and Turnstiles.

Eu ainda tenho aquela guitarra e ela está ao lado do The Princeton.

Ele tem uma voz e eu gostaria de saber o que ele tem a dizer.

Para terminar, eu quero agradecer a todos os fãs. O que eu aprendi com vocês talvez seja muito mais do que vocês imaginam terem aprendido comigo. O meu único arrependimento é que sou péssimo com nomes e pior ainda com despedidas. Mas eu nunca esqueço um rosto ou um sentimento e é isso o que me resta de todos vocês.

Eu sinto amor.

Sinto amor por vocês, pelo nosso grupo, pela nossa equipe e por cada ser humano que eu já compartilhei a banda e o palco…

Ray. Mikey. Frank. Matt. Bob. James. Todd. Cortez. Tucker. Pete. Michael. Jarrod.

Visto que eu sou péssimo em despedidas, eu me recuso que esta carta seja uma. Então vou deixar vocês com uma última coisa:

O My Chemical Romance chegou ao fim. Mas ele nunca irá morrer.

Está vivo em mim, nos rapazes, e está vivo dentro de cada um de vocês.

Eu sempre soube disso e acho que vocês também sempre souberam.

Porque não é apenas uma banda.

É uma ideia. 

Com amor,

G.

Tradução: Marina Tonelli.

Só mais uma coisa, nunca esqueçam dessa música:

Deixe uma resposta

Continue lendo

Menu
%d blogueiros gostam disto: